2001

O Clube Das Colunas Mortas



John Atkinson, actual editor da revista Stereophile, confessou uma vez, já lá vão uns bons 15 anos, que era «virgem em áudio» até ouvir umas colunas Apogee propulsionadas por amplificadores Krell. Na altura não havia nada disso em Portugal, e o máximo a que se podia candidatar o fanático audiófilo era um audição personalizada na V. Carvalho de um par de Quad electrostáticas, isto quando o João Rodrigues estava nos dias propícios. Lembro-me de que fui de propósito a Paris, como quem vai em peregrinação a Lourdes, para ouvir as Apogee Scintilla, modelo de que ainda há pelo menos um par em Portugal, ali para os lados de Guimarães. Digamos que também eu perdi a «virgindade» em Paris.


Jason Bloom e Leo Spiegel tinham concretizado o impossível: uma coluna de fita integral (full-range ribbon). Não tinham altifalantes e o som era reproduzido por uma fina fita de alumínio colada num suporte de plástico e suspensa na vertical num poderoso campo magnético; e outra mais larga com golpes horizontais num padrão helicoidal, ambas montadas num moldura de madeira e protegidas por uma rede de nylon. Aquilo parecia uma porta!, e exigia espaço e potência para se abrir de par em par.


Quando finalmente conseguiram produzir as Duetta, um modelo de dimensões aceitáveis, comprei um par que, na minha ânsia sempre frustrada de perfeição, acabei por vender logo que surgiu no mercado a versão Signature. Depois, foram as Caliper, as Stage. E que sucesso tremendo fizeram as Diva no festival de Música da Póvoa do Varzim: foi preciso mandar sair o público, já era um hora da manhã, ou teriam lá ficado a noite toda.


As Duetta andaram por aí na vida de mão em mão, até que foram adquiridas por António Flórido.


Quando soube que estavam felizes e de boa saúde, na companhia de alguém que as sabe tratar com o carinho a que sempre as acostumei, fiz os necessários contactos para o reencontro com esta antiga paixão. Senti-me como se fosse visitar uma namorada que vive agora com outro, e saí de lá com um nó na garganta por tê-la deixado partir tão cedo da minha vida descontente. Ainda por cima continuam lindas e com a voz maravilhosa de sempre. Onde outros vêem uma porta, eu vejo a moldura de um quadro musical pintado a golpes rápidos de pincel com tinta cor de prata. Um quadro raro, aliás: o seu autor cessou a produção, depois de um litígio em tribunal com a Magnaplanar sobre a patente do tweeter, e as Apogee são hoje peças de colecção com direito a um site na internet onde se trocam informações úteis: compra, venda, reparação, afinação, crítica e opinião - há lá de tudo. Os apogeeistas portugueses ficam a saber que não estão sós no Universo. Afinal, há vida para além da morte.


Por outro lado, fico contente por saber que as minhas amadas Duetta estão bem. Não podiam ter escolhido melhor companheiro. Português, engenheiro de telecomunicações, 42 anos de idade, António, de seu nome próprio - e solteiro como o santo padroeiro de Lisboa -, vive igualmente como uma asceta e adora fazer casamentos entre diferentes componentes. Apoiadas pelo braço forte de um par de monoblocos Krell FPB 250M (what else?), tendo a montante as excelentes «válvulas» da Sonic Frontiers, as Duetta são diariamente alimentadas com uma dieta variada de LP e CD. O gira-discos é um velho Roxsan, pacientemente transformado até ter adquirido uma nova personalidade mais consentânea com a qualidade da célula Benz-Ruby montada num braço SME V. Por uma questão de cortesia, levei comigo um ramo de flores digitais em SACD e a «jarra» respectiva - um leitor Sony DVD S9000es - que foram recebidos com um sorriso aberto de dentes de pérolas musicais.


Foi assim possível constatar que todos os três formatos têm bons e maus momentos, com o CD em francas dificuldades para justificar ter sobrevivido quase 20 anos a enganar o pessoal com a treta do som perfeito. Por comparação com o SACD, o CD soa espartilhado, comprimido, prisioneiro num ambiente de atmosfera rarefeita. O SACD respira o ar fresco da montanha dinâmica. O LP foi, contudo, o que mais se aproximou da «realidade», o que quer que isso signifique: mal a ágil Ruby iniciou a sua dança em pontas de diamante pela superfície negra e ondulante de vinilo, Don McLean corporizou-se na sala, e Vincent, do álbum American Pie, soou como o milagre de uma viagem no tempo; seguiu-se o som único e inconfundível do(s) Stradivarius de Salvatore Accardo enchendo a casa da alegria da Primavera.
Ouviu-se de tudo um pouco: jazz, blues, soul, clássica. Falou-se de tudo um pouco. Dos cabos que o António constrói (e vende aos amigos) com paciência de artesão para melhor extrair a seiva eléctrica que alimenta os aparelhos. De como, em 1986, enquanto editor do departamento de áudio da revista Imasom, atribuí ao Flórido (sem o conhecer ainda, como exige a isenção) o 2ºPrémio de um concurso de crítica, cuja medalha ainda guarda com orgulho; do nosso trajecto comum depois na revista Audio; e da sua participação num novo projecto editorial, a revista Acustica (não se vende nas bancas apenas nas lojas especializadas), que pretende ser uma «ilha» de resistência à invasão dos nossos lares pela imagem vídeo e o som «surround». Talvez seja tarde de mais. Talvez seja idealismo de mais. Mário Silva, o editor, acredita que não: «Quando em 1981, o canal MTV iniciou as suas emissões, fê-lo com «Video Killed the Radio Star», vaticinando o fim da rádio e a supremacia do visual sobre o auditivo. Vinte anos depois... a necessidade de ouvir música não desapareceu - e não desaparecerá».


Eu também acho que não. Conhecem algum clube cuja razão de existir seja a paixão dos sócios por um televisor, um gravador de vídeo ou um amplificador AV? Claro que não. São apenas produtos de consumo, que se deitam fora ou se trocam quando um novo modelo chega ao mercado. As Apogee são um objecto de culto. Como o são as Quad electrostáticas e certos amplificadores a válvulas. A sua importância ultrapassa a mera função de reproduzir música gravada. São uma forma de ser e de estar na vida. E deixam marcas na vida de quem as tem (ou teve). Como deixaram na minha...