2000

Utopia E Realidade



Num mundo de arrivistas sem escrúpulos e de competição desenfreada, onde novos produtos incensados pela crítica aparecem e desaparecem com o brilho próprio do marketing pirotécnico, é bom saber que, quando compramos uma coluna de som JMLab, estão incluídos no preço 20 anos de experiência e aperfeiçoamento constante. Num mundo onde é fácil encontrar escribas neófitos deslumbrados com o primeiro produto que lhes põem nas mãos, como jovens inexperientes perante coristas sabidas, já passaram pelas minhas mãos, honi soit..., as melhores colunas e amplificadores de som. Assim, quando afirmo que as JMLab Grande Utopia são «uma das cinco maravilhas do mundo audiófilo», sei o que digo.


Recentemente, numa audição memorável no Clube Transom, em Lisboa, ficaram bem patentes as suas qualidades únicas de transdutor de eleição: classe, poder, controlo, ataque, delicadeza, suavidade, focagem, presença, amplitude dinâmica. E a extensão do grave? Vou-lhes dizer: o som vinha direito a mim, rastejando pela alcatifa, entrava-me pelos dedos dos pés e subia depois insidiosamente pelo vil esqueleto, revolvendo as entranhas numa massagem gostosa até chegar ao cérebro já então em estado de graça. Dos tutti orquestrais ao mais delicado gorjeio feminino tudo com conta, peso e medida. Hélas, as JM Lab Grande Utopia não são só utópicas no nome, também o são no preço (cerca de 10.000 contos!) e nas dimensões (1,75 m; 186 Kg!). Mas, como disse Oscar Wilde, «o progresso não é mais que a concretização das utopias».


Tendo atingido o estado da arte, que lhe trouxe fama e proveito, Jacques Mahul, famoso fabricante dos altifalantes Focal, pai e mentor da JM Lab, a mais emblemática marca francesa de colunas de som, dedicou-se a levar o «Graal» a um público mais vasto, tendo consciência que a capacidade financeira e a motivação para comprar um produto desta envergadura - literalmente - é limitada mesmo a nível mundial, apesar do sucesso da linha Utopia no mercado americano como resultado da crítica favorável de Jonathan Scull publicada na revista Stereophile - et pour cause Jonathan é casado com uma francesa.


O facto de as podermos apreciar em Portugal é já por si um milagre que ficamos a dever ao empenho da família Brito (Alfida), nortenhos dos quatro costados, sedeados em Viana do Castelo, que, ao contrário de nós, sulistas, não são elitistas, apenas partilham de uma paixão comum pela música reproduzida no limite da perfeição possível, moderada por uma visão comercial pragmática.


A geração utópica


A linha Utopia é composta por cinco modelos: Grande Utopia, Utopia, Mezzo, Mini e Micro, além das inevitáveis colunas centrais, traseiras e «subwoofers» para aplicações AV - ninguém hoje pode ficar indiferente ao poder da imagem e ao sucesso do DVD. Jacques Mahul considera que uma obra de arte - a obra musical - só pode ser reproduzida por outra obra de arte - neste caso, as colunas Utopia.


Todos os modelos utilizam a mesma tecnologia (altifalantes, filtros, etc.) e os mesmos materiais: madeiras exóticas Anigree e Tauari, numa redução de escala que em nada afecta a beleza do design e a qualidade do seu desempenho, adaptando-se assim a «utopia» à realidade doméstica, em termos de espaço e orçamento disponível. O preço acompanha essa redução - no tamanho, que não na qualidade.


Os compromissos sónicos decorrem apenas das leis da física: a um menor volume interno corresponde inevitavelmente um menor poder e extensão dos graves e uma forma, digamos, menos «autoritária» de apresentar o enunciado acústico. Mas até aí Jacques Mahul soube colmatar a menor capacidade das colunas mais pequenas para «deslocar ar» (a reprodução de graves é «quand même» notável).


As Mezzo parecem-se com a mãe-Utopia, e estas são a cara-chapada da Grande Utopia, apenas mais pequenas. Nenhuma delas precisa de ajuda nos graves, chegam bem para as encomendas. Às Mini, acolitou-as com o «Sub», um subwoofer activo (25/180Hz- 200W) capaz de descer às profundezas oceânicas das ondas sonoras.


Todas mantêm a «assinatura sónica», que é o ex-libris da marca: uma perfeita integração dos registos médios e agudos sobre a qual assenta a claridade, inteligibilidade e naturalidade do discurso; correcta articulação da sílaba tónica, leia-se a limpeza das fundamentais, a pureza dos timbres, a doçura meridional dos tons - a um tempo quentes e prenhes de vida - a espantosa amplitude dos contrastes dinâmicos e a capacidade de resposta à mínima provocação transitória. A que se alia a não menos notável precisão «focal» e o discernimento vocal e instrumental, num contexto de estabilidade e realismo, em termos de volumetria da imagem estereofónica, pouco habitual num produto europeu. Finalmente as Micro, as meninas-do-papá Mahul, que cedo deixam transparecer na audição a origem genética: o brilho nos olhos claros e vivos do tweeter (comum a todas elas), a voz sensual e quente, a anca (os registos médio-graves) inesperadamente «bojuda», resultando tudo numa imagem estereofónica cinemática. O som das Micro é mais homogéneo (não confundir com homogeneizado) que o das suas irmãs Mini. Estas, por seu lado, são mais precisas, mais analíticas, muito na linha das Mezzo - tipo «a verdade-toda-a-verdade-e-nada-mais-que-a-verdade». Os graves das Micro são surpreendentemente potentes, conferindo ao piano de Wim Wenders, por exemplo, uma imponência desmesurada sem afectar o estranho registo de contratenor da sua voz. Abaixo dos 50Hz, contudo, as Micro parecem renunciar ao desafio, aceitando as limitações físicas impostas pelas pequenas dimensões. Nada mais natural, têm um décimo do tamanho das Grande Utopia (e custam um décimo do preço: 945 contos...).


A Grande Utopia é uma coluna radical cujo objectivo declarado é a perfeição absoluta; as Mezzo, como o nome indica, têm a virtude do equilíbrio - in medio virtus - , do compromisso ideal entre preço, tamanho e qualidade; a Micro busca o consenso dos ouvintes, como a criança desejosa de agradar, se não a todos, pelo menos à maioria. Eu diria que a Mini Utopia foi criada com «os olhos no vídeo» (deitada serve de coluna central); a Micro Utopia com os ouvidos na música - pura e (não) dura.



Fabricante: Focal


Distribuidor: Alfida