Reviews Testes

Elac Adante AF-61

Elac Adante AF61 hard right.jpg

Durante anos, ‘The Andrew Jones TAD Show’ pautou-se sistematicamente como uma das melhores demonstrações de som audiófilo, não só em Las Vegas, mas em Munique também (ver videos no final do artigo). Entretanto, Jones transferiu-se para a equipa da Elac, tendo começado ‘por baixo’, produzindo colunas baratas que impressionam pelas suas prestações de alto nível como as B6 (ver Artigos Relacionados).

Andrew Jones posando junto das Elac Adante AF61 (Highend Show 2017, Munique)

Andrew Jones posando junto das Elac Adante AF61 (Highend Show 2017, Munique)

No Highend 2017, Andrew Jones exibiu as Elac Adante e mostrou ao que vinha: alcançar a melhor qualidade de som possível por um preço acessível. Quando ouvi as Adante AF-61, em Munique, fiquei deveras impressionado, sobretudo pela ‘alegria’ com que reproduziam todos os tipos de música. As TAD tocam muito bem mas custam uma pipa de massa. Não é o caso da Elac Adante.

Andrew Jones exibiu as Elac Adante e mostrou ao que vinha: alcançar a melhor qualidade de som possível por um preço acessível.

Mas nada me tinha preparado para o que ouvi num dos auditórios da UAE, em Benfica, na companhia de Rui Calado, tendo como equipamento complementar, um leitor Accuphase DP430, o prévio Gryphon Pandora e um par de monoblocos Parasound Halo JC1, da autoria de mestre John Curl.

As Elac Adante AF61, num dos auditórios da Ultimate Audio Elite

As Elac Adante AF61, num dos auditórios da Ultimate Audio Elite

John Curl é um dos mais respeitados projectistas de áudio. Desde os anos 70 que sigo a sua carreira, tendo, aliás, construído um amplificador de Mosfets com base num dos seus projectos. Curl foi o responsável técnico pelo sucesso da Mark Levinson, com o famigerado JC-2. Tal como Andrew Jones, hoje na Elac, John Curl produz agora na Parasound amplificadores highend  ‘compráveis’ com prestações irrepreensíveis. Não admira que Rui Calado os tenha escolhido para me apresentar as Elac Adante AF-61. São produtos que partilham a mesma filosofia de elevada relação qualidade-preço.

Accuphase DP430, o prévio Gryphon Pandora e um par de monoblocos Parasound Halo JC1, da autoria de mestre John Curl.

Accuphase DP430, o prévio Gryphon Pandora e um par de monoblocos Parasound Halo JC1, da autoria de mestre John Curl.

E não foi preciso ouvir muito tempo para perceber que se estava perante uma coluna de som com um comportamento notável, sobretudo no grave, que soou potente, controlado, muito articulado, com um ritmo que só as colunas ‘reflex’ de preço elevado conseguem acompanhar, isto quando é possível ‘acoplá-las’ com a sala, pois os pórticos têm a desagradável tendência para excitar modos de ressonância difíceis de controlar. Por outro lado, as colunas de caixa fechada produzem um grave mais seco e controlado, mas menos ‘impactante’ e extenso.

E é aqui que começamos a desconfiar que ‘there’s more than meets the eye’, ou seja, que o que estamos a ouvir não pode ‘vir’ só daquela coluna de caixa fechada de 3-vias, com um médio agudo concêntrico e três woofers de alumínio. E, de facto, não vem: o segredo está dentro da caixa (ver foto).

Dos seus tempos de projectista da KEF, Andrew Jones, utilizou nas Adante AF-61 duas tecnologias, cujas patentes caíram entretanto no domínio público: ‘coupled cavity bass loading’ e ‘coaxial driver’.

As Elac Adante AF61 fotografadas do ponto de escuta onde foi colocado o microfone

As Elac Adante AF61 fotografadas do ponto de escuta onde foi colocado o microfone

A unidade coaxial aqui utilizada é uma versão mais barata da CST da TAD, com cúpula e cone de berílio. Andrew Jones optou por um modesto cone de alumínio para o médio e um tweeter com cúpula mole de seda tratada, que resultam muito bem em conjunto. Já sabemos que as unidades coaxiais favorecem a fase e a estabilidade da imagem estéreo. E Jones não prescinde delas, mesmo em modelos de gama de entrada.

O que surpreende é a coragem para avançar com um caixa de graves de construção tão complexa, numa coluna de 6 mil euros, que tem um acabamento excelente: lacada em negro piano com baffle de alumínio. Ora, isto só é possível de fabricar na China. Não por acaso, a Adante AF61 é um negócio da China, neste caso para o comprador.

A caixa de graves é composta por três secções idênticas, isoladas entre si, com duplo pórtico reflex interno.
Interior da caixa 'bandpass'  com 'coupled cavity bass loading'. À esquerda a monitora AS61; à direita  a AF61

Interior da caixa 'bandpass' com 'coupled cavity bass loading'. À esquerda a monitora AS61; à direita a AF61

A caixa de graves é composta por três secções idênticas, isoladas entre si, com duplo pórtico reflex interno. Cada secção tem no interior um woofer activo com cone de alumínio de 6,5 polegadas, que ‘comunica’ com o exterior através de uma unidade passiva, dita ABR (auxiliary bass radiator) de oito polegadas.

Assemelha-se à configuração Isobarik da Linn, mas esta utiliza dois altifalantes activos em tandem. Aqui também estão montadas em tandem mas apenas um dos woofers é activo. Quem ‘dá a cara’ e faz o acoplamento acústico com o ar da sala de audição é o altifalante passivo. Esta técnica também designada por ‘bandpass enclosure’ foi concebida por Laurie Fincham, da KEF, nos anos 80, com quem Andrew Jones colaborou.

O altifalante activo está montado no interior. O acoplamento com o altifalante passivo montado em tandem faz-se por meio de duplo pórtico (coupled cavity)

O altifalante activo está montado no interior. O acoplamento com o altifalante passivo montado em tandem faz-se por meio de duplo pórtico (coupled cavity)

Esta configuração tem duas vantagens principais: o acoplamento coluna/sala é mais eficaz e menos propenso a provocar ressonâncias, o chamado booming bass. Logo, o grave soa muito mais limpo sem perda de impacto ou extensão.

Mais importante é o facto de o ABR funcionar como um filtro acústico que adiciona uma pendente de 12dB por oitava aos 12dB do filtro electrónico de segunda ordem. Ou seja, temos um filtro de passa-baixas com uma pendente de 24dB por oitava, com muito menos componentes eléctricos. Mais simples, logo soa mais transparente.

Oiça todos os pequenos sons da natureza: o canto dos pássaros, o voo das abelhas, o murmúrio do campo, como pano de fundo de ‘Because’, dos Beatles, no vídeo que vos ofereço no final do artigo.

Depois, temos ainda a ausência de ‘sopro’ audível devido à turbulência na passagem de ar na saída do pórtico reflex convencional.

Como desvantagem, a sensibilidade e a impedância baixam, e por isso as Adante exigem amplificadores potentes e com uma boa fonte de alimentação, como é o caso dos Parasound JC1.

As frequências de corte declaradas são 200Hz/2000Hz. O que faz pressupor que todos os woofers funcionam na mesma banda de frequências, abaixo dos 200Hz. Contudo, eu acho que Andrew Jones não está a contar a história toda.

Ao colocar o ouvido junto a cada um dos altifalantes, detectei que o woofer superior tem mais margem de overlap com o médio que o central, e este por sua vez ‘corta’ mais acima que o woofer inferior. Permito-me especular que as diferentes frequências de corte são obtidas mecanicamente, isto é pela diferença na forma e volume interno das respectivas câmaras acústicas.

Audição crítica         

Embora tenha seleccionado Nnenna Freelon e a sua notável interpretação de ‘Amazing Grace’ para ilustrar o vídeo, ouviu-se um pouco de tudo: de guitarra acústica, a ópera, reggae, jazz e funk.

E também os Beatles cantando ‘Because’ accapela. Neste caso, o vídeo teve de ser editado na Vimeo, porque o You Tube deu imediatamente a indicação ‘Blocked in all countries’. Mas não resisti a incluir o registo que, tal como o de Nnenna Freelon, foi obtido directamente no auditório da UAE.

Nota: as imagens são as mesmas, tendo sido editadas posteriormente com uma banda sonora diferente. Não foi utilizado qualquer ficheiro ou CD na edição, embora pareça. O som foi registado directamente por um gravador digital a 96/24, com um par cruzado de ‘cardioid microphones’, sendo o ‘downsampling’ efectuado pelos respectivos algoritmos de compressão da You Tube e Vimeo. Como é óbvio, o som ‘ao vivo’ é muito melhor, isto não passa de um teaser…

As vozes soam limpas, claras, bem timbradas e sem ênfases ou excesso de peito.

As vozes soam limpas, claras, bem timbradas e sem ênfases ou excesso de peito. Tanto as masculinas como as femininas. As vozes de John, Paul e George cantando em harmonia accapela são perfeitamente distintas (Ringo não participou, graças a Deus!), apesar de o efeito ter sido obtido pela triplicação das vozes em estúdio. Está é a versão remasterizada de ‘Because’ que abre o fabuloso espectáculo ‘Love’, que vi no Mirage, em Las Vegas. Melhor que isto, só mesmo lá…

As características percutivas dos pianos estão bem definidas; enquanto os metais ‘rasgam’ e ‘refulgem’ distinguindo-se bem na mistura. Como exemplo, oiça-se Ina Forsman cantando Bubbly Kisses.

Este é o tipo de coluna ideal para reproduzir Stimela, do recentemente falecido Hugh Masekela: presença, ataque, claridade e ritmo.

Mesmo com peças clássicas mais complexas, as Adante AF61 mantêm a diferenciação tímbrica e instrumental, e o mesmo se pode dizer da definição e impacto do grave, como ficou provado com a interpretação de Jah Jah Know, dos Groundation, a níveis de concerto ao vivo, bem ao gosto do Rui Calado.

Nota: De tal modo, que o registo que fiz e cheguei a publicar no You Tube sofria de distorção por sobrecarga do microfone, pelo que foi retirado.

Se apenas pretende divertir-se a ouvir boa música, sem o remorso de ter investido mais do que devia, as Elac Adante AF61 devem fazer parte da sua (very) short list.

É um facto que se pagar (muito) mais vai obter também mais subtileza em algumas áreas, mais souplesse e nuance noutras. Talvez até um pouco mais de requinte tonal e riqueza harmónica. E também uma escala mais real. Se isso é importante para si, e tem capacidade financeira para o suportar, a UAE tem muitas outras propostas válidas. Se apenas pretende divertir-se a ouvir boa música, sem o remorso de ter investido mais do que devia, as Elac Adante AF61 devem fazer parte da sua (very) short list.

Por 6000 euros, são difíceis de bater.

Em baixo, Andrew Jones demonstrando a TAD no Highend 2012, na CES 2011 e no Audioshow 2011

 

Elac Adante AF61 hard right

Andrew Jones posando junto das Elac Adante AF61 (Highend Show 2017, Munique)

As Elac Adante AF61, num dos auditórios da Ultimate Audio Elite

Accuphase DP430, o prévio Gryphon Pandora e um par de monoblocos Parasound Halo JC1, da autoria de mestre John Curl.

As Elac Adante AF61 fotografadas do ponto de escuta onde foi colocado o microfone

Interior da caixa 'bandpass' com 'coupled cavity bass loading'. À esquerda a monitora AS61; à direita a AF61

O altifalante activo está montado no interior. O acoplamento com o altifalante passivo montado em tandem faz-se por meio de duplo pórtico (coupled cavity)