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Alberto Silva, o regresso do filho pródigo

Alberto Silva

Da Esotérico, Consultores de Som, recebemos a seguinte comunicação:


Temos o prazer de comunicar a V. Exas. que,  a partir da presente data, a Esotérico passa a contar com um novo colaborador, o Sr. Alberto Silva, o qual vem enriquecer os quadros desta empresa, desempenhando funções de Gestor de Produto para toda a área de Electronica e Alta Fidelidade. Esperamos assim, fortalecer as relações comerciais com todos os nossos clientes, contando a valiosa experiência e elevados conhecimentos profissionais que o caracterizam.


Aproveito o ensejo para o saudar de novo, e reeditar adaptando um texto que lhe dediquei em 2005, que foi publicado no DNA.


Alberto Silva, o demonstrador

Em feiras, hifishows, seminários, congressos e audições mais ou menos privadas, já vi e ouvi de tudo por esse mundo fora. Desde o vendedor-de-banha-da-cobra, que anuncia diferenças pretensamente audíveis, como quem prescreve placebos a hipocondríacos cheios de saúde, até ao estilo «tou-me borrifando»:


«Isto, meus caros senhores, é o melhor sistema de som do mundo. Se não ouvem a diferença de qualidade, é porque são surdos, ou então não sabem o que é bom! Boa tarde, obrigadinho pela visita, podem sair, o próximo grupo que entre...NEXT!»


A que se segue o comentário assassino para o colega que está cá fora a controlar as entradas: «Please, guys, send me some quality people...». Este é o demonstrador/político típico: o programa é óptimo, o povo é que está errado...


Nos EUA, chamam a isto «hifi with an attitude»: a ideia é reduzir o potencial cliente à sua insignificância, de forma a que fique eternamente grato por lhe terem vendido um sistema exclusivo «that sounds like shit» por uma pipa de massa. Conheci algumas marcas e distribuidores assim nos EUA: foram todos à falência. A lavagem ao cérebro foi tal que os compradores se convenceram que o fim da marca, logo da garantia, só tinha vindo reforçar ainda mais a sua exclusividade. Assim como sucede com os quadros depois de morto o pintor. Só que estes foram pintar para outro lado com outro nome...


O maior demonstrador de todos os tempos foi Jason Bloom, da Apogee, que faleceu há uns anos. Jason parecia um cantor de música country e vestia-se em conformidade: chapéu, colete e calças negras, botas texanas, cintos com aplicações de metal.


Mas tinha um gosto musical eclético e era um notável conversador: as suas introduções eruditas, explicando o porquê e o como dos fenómenos acústicos, ficaram famosas nos meios audiófilos. Assisti em Paris a uma demonstração inesquecível das Apogee Duetta com amplificação Krell, reproduzindo a Missa Criola, de Ariel Ramirez, com Carreras em grande forma, na acústica perfeita da sala de um palácio oitocentista.


Tornámo-nos grandes amigos a partir daí. Sempre que me via na assistência, Jason colocava o disco dos Extreme no prato e tocava «More than words», um registo analógico notável e de cortar a respiração quando reproduzido por um sistema highend.


Nuno Bettencourt é dos Açores, e Jason prestava assim a sua homenagem a Portugal.


No extremo oposto, estava Tim Paravicini, que tinha por hábito sentar-se em silêncio no chão da sala, na posição de lotus, de costas para a porta ignorando ostensivamente quem entrava. O disco era sempre o mesmo e girava no prato até chegar ao fim. Só o raspar da agulha o roubava ao torpor da meditação transcendental.


Artistas portugueses


Portugal já tem alguns bons demonstradores. São também eles que montam (e carregam!) o equipamento, o que torna a sua função fundamental e muito importante para os distribuidores. Os estilos de actuação variam com a personalidade de cada um.


O decano dos demonstradores nacionais foi Eduardo Rodrigues, que optou sempre pela espectacularidade do som de selecções musicais vigorosas «to say the least...».


Um dia, em Paris, levou o demonstrador francês a puxar tanto pelo sistema que o amplificador a válvulas se «fundiu» num relâmpago azul. Para Eduardo o som ou tem a dinâmica e o ataque da realidade ou é para esquecer. Para ele não há meio termo e o objectivo final é só um: «ficar a bater mal...».


Jorge «Maître» Gaspar foi o primeiro a quem atribuí o título de mestre. Leva-nos pelo caminho luminoso da música com a insustentável leveza de um monge budista em busca do conhecimento da alma. Saímos de lá sempre melhores e mais puros do que entrámos.


Rui «Gladiador» Calado é uma referência incontornável em demonstrações de Cinema Em Casa, com uma escolha criteriosa de títulos e equipamentos, tanto em termos de som como de imagem.


No Porto, depois do abandono do popular Canizes, pontificam Guilhermino Pereira, adepto incondicional do LP, e Luís Campos, que tem a arte de tornar cada demonstração num serão em família esbanjando simpatia e amizade.


A esta galeria tenho o prazer de juntar agora Alberto Silva, que após vinte anos de dura aprendizagem, atingiu finalmente em 2005 o estatuto de «mestre». O Alberto não selecciona apenas discos, ditos audiófilos, com faixas de música simples, voz e guitarra, por exemplo, gravadas em «close-ups» obscenos para impressionar o ouvinte; nem pretende influenciar o público com discursos prévios de preparação mental, gestos significativos durante a reprodução de certas passagens musicais, ou poses afectadas de alegada superioridade auditiva.


Coloca na gaveta discos de música variada, como se estivesse em casa a ouvir aquilo de que gosta, mesmo quando certas faixas possam pôr a descoberto aspectos menos positivos da performance do equipamento; regula o nível de som com moderação e a propósito e afasta-se depois para o seu «cantinho».


Aparentemente, limita-se a «virar o disco»; de facto, por trás desta simplicidade de processos, estão horas de trabalho de montagem e afinação e longas audições comparativas: muito suor e alguma inspiração. E o instinto natural que nasce com as pessoas e se revela ao longo dos anos com o trabalho e o estudo. Se continuar assim vai longe. Salvé, Alberto!


 

Alberto Silva