2012

Salon Hifi 2012 – Parte 2 - Audições: Aurelia, Avantgarde, Eclipse, Estelon, Franco Serblin Ktêma, Jbl Synthesis, Jo Sound, Leedh, Magico, Rockport, Sonus Faber, Usher, Vienna, Waterfall




Neste capítulo, vamos ouvir e ver “Os Sons de Paris”. Os comentários baseiam-se, não apenas no que se ouve nos videos, mas também na experiência ao vivo, que o leitor não teve mas que eu, enquanto repórter ao vosso serviço tive. Estou, portanto, em vantagem.




JVH, um repórter ao serviço dos leitores do Hificlube, em directo do Salon Hifi de Paris
(foto MLeonorHenriques) 


Estou, claro, aberto a opiniões divergentes com base na audição do som dos videos que cada um fará em casa pelos seus próprios meios. Aconselho a utilizar auscultadores de qualidade, o som dos PCs não é lá muito fiável. A imagem de alguns dos videos é de má qualidade devido à fraca iluminação das salas. Fiz o processamento possível da imagem.


Contudo, tentei não tocar no som. O único processamento dos ficheiros de som é da responsabilidade do You Tube que os comprime com o algoritmo de serviço. Optei desta vez pelo You Tube, por este por ser mais universal, embora prefira a qualidade do Vimeo.

   


JVH ouve o som dos registos video com auscultadores Focal One


Sente-se, coloque os auscultadores, regule o volume, abra os vídeos em full screen 1080p (se a imagem perder fluidez ou soluçar, baixe a resolução) e prepare-se para o Show de Paris.


Nota: o sopro de fundo que se ouve em algumas faixas com nível mais baixo de sinal deve-se ao circuito de preamplificação do microfone da câmara.


 


AURELIA


  

Aurelia: o melhor som que se ouviu em Paris, a partir de uma coluna monitora


Juro que não conhecia a Aurelia de lado nenhum. E a faixa que se ouve no video está “gasta”, de tão ouvida em shows, a par de Stimela e do Hotel California, dos Eagles. Até já enjoa. Também por isso, conheço-as como a palma da minha mão. E sei bem a diferença entre uma “reprodução aceitável” e uma “reprodução notável”. Aurelia, não sendo notável strictu sensu , está muito acima do aceitável. A banda é limitada, mas tudo o que lá cabia, estava lá en su sitio. Muito bom.


   


Som limpo, transparente, com grande claridade e excelente imagem (o baffle estreitinho ajuda). O som é coeso, muito linear, o que é sinónimo de boa coerência de fase que, por sua vez, é sinónimo de um crossover bem concebido e de bons altifalantes.


Acho que não temos nenhum distribuidor em Portugal. Por aquilo que me foi dado ouvir em Paris, a Aurelia é “boa rapariga” e recomenda-se... 


AVANTGARDE


 

As Avantgarde impressionam sempre pela imagem: a propriamente dita e a do som que reproduzem...


As Uno Bronze (bronze dourado), apesar de colocadas em apertos soaram abertas e muito dinâmicas (ou não utilizassem cornetas para expandir o som) com amplificação Avantgarde. A selecção musical era um pouco histérica e, na sala, falava-se mais do que se ouvia música. Vá lá, apanhei o Carreras a cantar a Missa Crioula do Ariel Ramirez (outra faixa muito popular em Paris), em razoáveis condições de silêncio.


Por razões de copyright evito registar a faixa integral(mesmo assim o You Tube passa a vida a mandar-me recadinhos). E é pena porque o coro tinha uma profundidade física e religiosa que transformou a sala exígua numa verdadeira catedral. 



A passagem dos pianissimi  de Carreras para os tutti do coro soaram espectaculares. Depois das electrostáticas, estas são as colunas preferidas de Jean-Marie Hubert, que já anda comigo nisto do áudio há mais de 30 anos. De facto, a riqueza de pormenor é cativante e só possível com altifalantes muito rápidos e massa reduzida. Bom e bonito.


ECLIPSE




Eclipse TD, preto é galinha o põe: soam melhor no papel branco... 


Os ovos da Eclipse foram muito badalados pela imprensa especializada, sobretudo a americana. A resposta impulsiva é fabulosa, pelo menos no papel. E a coerência de fase também.



 


O que se ouve aqui, neste registo que seleccionei, soa muito agradável, sem dúvida. Mas eu passei lá várias vezes e fiquei sempre com a impressão de estar a ouvir hifi, tanto dentro da sala, como cá fora no corredor (e já explico isto). Dentro da classe das colunas de banda limitada, preferi as Aurelia, que as Eclipse não conseguiram eclipsar da minha memória auditiva.


Seria da música e não dos “músicos”? É o problema dos shows de hifi. Aquilo que ouvimos é apenas uma referência, nunca uma garantia de avaliação incondicional. 


ESTELON


 


É nestas alturas que eu tenho saudades de ter comigo o Rui e o Jorge, que sabem tirar das Estelon o muito que elas têm para dar.


 


Na primeira visita, o som estava pouco menos que passable. Oiçam os primeiros 10 segundos do video para perceberem o que eu quero dizer. Fiquei até com a impressão que estavam ligadas fora-de-fase. No dia seguinte, as fisicamente estranhas Estelon entranharam-se no meu espírito. Pronto, admito que a selecção musical era agora no melhor estilo de bar de hotel de luxo. Fácil e doce no ouvido, portanto.


O volume do som estava também mais baixo (os altifalantes cerâmicos gostam pouco de ser apertados a frio). Quando bem rodadas, as Estelon são capazes de reproduzir nuances só possíveis de ouvir com painéis electrostáticos. Vassilkov sabe o que faz. Mas já tenho dúvidas que os Musical Fidelity sejam o par ideal para estas estonianas de formas eston...teantes . A não ser que houvesse escondido um prévio/DAC/Server/Streamer/Internet radio Musical Fidelity M1 Clic, que estivesse a transmitir sinal de rádio, quando passei lá a primeira vez...


 FRANCO SERBLIN KTÊMA




Sala Franco Serblin Ktêma/Accuphase

Como sabem, vivi recentemente com as Ktêma o tempo suficiente para as compreender e amar, amar perdidamente. Admito, portanto, que isso possa ter tido alguma influência, quando afirmo que foi o melhor som que ouvi em Paris. Pelo menos o mais “natural”, o menos “hifi”, se quiserem, o que me falou mais ao coração.



Sempre que passava no corredor apinhado de gente (a audição das Ktêma no tribunal de júri de Paris fez-se de “porta aberta”), tinha aquela sensação  estranha e, ao mesmo tempo, tão agradável quanto rara nos shows, de que havia músicos de carne e osso a tocar lá dentro, quer fosse um pianista, uma orquestra de câmara ou uma big band.


 


A Big Band, então, soou absolutamente fabulosa, com todos os naipes de “sopros”, metais e madeiras (sabiam que o saxofone é uma “madeira”?) com o timbre correcto e o peso certo dentro do conjunto da orquestra.


Acolitadas por amplificação Accuphase, as Ktêma soaram invariavelmente naturais e puras.



Salvé Franco!, ainda não perdeste aquele jeito tão especial para construir verdadeiros instrumentos musicais. Em tua homenagem, a actuação das Ktêma vai ser ilustrada, não por um, não por dois, mas por três videoHD! Porque tu e as Ktêma merecem. Nota: uma palavra de apreço para a Accuphase que faz 40 anos!


JBL




JBL K2 9900, do cinema para o áudio doméstico com amor à arte  


Na minha juventude audiófila, as JBL (Série L vintage) eram um objecto de desejo. Era do melhor que havia em macrodinâmica pura na Valentim de Carvalho, e faziam o contraste com o som conservador das Quad electrostáticas, inultrapassáveis em microdinâmica. Depois, comecei a ouvir som BBC, que estava na moda nos anos 70/80, e passei a achá-las demasiado “americanas”: estridentes e histriónicas e com graves balofos e excessivos (havia aquela mania de as colocar no chão, nos cantos da sala...).   



Esta série JBL Synthesis de  “cornetas”, que incluem as espectaculares Everest, foram concebidas para som de cinema. Mas não soam como o “corneteiro” do regimento (pouca coloração aka glare). Estas cornetas K2 9900 da JBL (e não S4700, como consta na legenda do video) tocam muito bem todos os géneros musicais. Será que estou a ficar saudosista?...  Como nota curiosa, o Oppo utilizado como DAC estaba kitado com um andar de saída a... válvulas!


JO SOUND  


 


Não comungo da ideia peregrina de que um altifalante Lowther (ou nele baseado, como os Feastrex) pode reproduzir toda a banda áudio. Pelo menos com o volume (leia-se a massa acústica) necessária para nos dar a ilusão de estar a ouvir música ao vivo, apesar da “carga” dos graves por linha-de-transmissão ou outra qualquer. O som é coerente, claro, pois se a fonte é pontual e não tem crossover... 


Mas nem todos aqueles “subs” (estariam a tocar?) conseguiram dar peso e musculatura ao Jo Sound. O conjunto soou-me como uma “miniatura”, como as da torre Eiffel, made in China, que se tentam vender aos incautos turistas, expostas sobre mantas, prontas para embrulhar rapidamente o material todo e fugir à polícia num ápice. E eu só não fugi num ápice, porque queria registar o meu testemunho de audição em video.


 


Isto, claro, sem pretender pôr em causa a beleza da madeira e a qualidade dos acabamentos. E até a qualidade do design. Se havia no Salon Hifi uma atracção “turística” eram as Jo Sound. E faço-lhes a homenagem de admitir que não podia ter escolhido melhor intérprete para exibir a qualidade de... imagem das minhas fotos e dos meus vídeos, outrossim registados na penumbra. Ao menos as Jo mostraram tudo à luz do dia.


A verdade é que o som das Jo Sound não tem colorações graves, nem “toque de madeira”, como alguns vinhos de Bordéus que me tentaram impingir. Será por isso que agora os franceses servem vinho tinto fresco nos restaurantes?...


O som do Jo é muito limpo, muito perfeitinho, óptimo para reproduzir um pífaro e um tamborete.                                            
 


Mas uma banda pop-rock, como os Dire Straits, não pode soar como uma representação ectoplásmica da realidade. Muita alma e pouco corpo. Por mero acaso, suponho, estavam a utilizar um 'Clic' da MUsical Fidelity...


Admiro-lhes o engenho e a coragem para pôr a tocar música, que não era a mais adequada para o produto em causa. Antes tinha ouvido a Tracy Chapman, que cantou de forma tão bem educada e com tanta compostura cívica, que soou como uma branquela do Tea-Party: sem sombra de pecado e visceralidade. The thrill is gone, baby...


Não fossem tão esteticamente interessantes, e eu teria pensado tratar-se de uma anedota do Jo...Soares sobre os audiófilos fundamentalistas. Ou, então, estou a ficar velho, e já não me comovo com idealismos...


LEEDH




Sala da Leedh: a proverbial janela aberta para o palco sonoro


O ano passado publiquei a reportagem integralmente em inglês, e escrevi isto:


The Acoustical Beauties are ugly. Their beauty is in the sound. Created by Gilles Millot, they should not be allowed to exist in nature. And yet they sound very natural. This is one of the few weird loudspeakers that don’t sound…eh…weird. 



Mantenho tudo o que disse. Eu sou como o Cavaco, raramente tenho dúvidas. E vou ainda mais longe. Este ano, as “Beauty” tinham mais um duplo altifalante na base (versão Leedh E), e soaram ainda mais “beautiful” que o modelo Leedh C.


São “bonitas” de tão “feias”. Caramba!, parecem um louva-a-deus... E, contudo, sendo pequenas, soam como gente grande (-8dB aos 20Hz, nada mal para um insecto...). Recomendam-se pelo som. Juro. Não dá para acreditar que aquilo toque assim...


MAGICO/SOULUTION


   


Sala Magico S5/Soulution 5 Series  


Talvez a sala com melhores condições de audição. A sala ficava no fundo de um corredor e a sua localização correcta não constava no guia (arranjo de última hora, por certo). As audições faziam-se à porta fechada. Bom, quer dizer, a malta abria a porta, espreitava e decidia depois se entrava ou não, o que, de certo modo, perturbava o processo de audição em curso. O programa musical era variado, ainda que um pouco elitista.   Num show onde não abundava material highend, devido à ausência de muitas marcas (Cabasse, Focal, KEF, Wilson Audio, etc.) a concorrência para o prémio de Melhor Som não era muita. Em termos puramente subjectivos, preferi o som das Ktêma, por sentir mais prazer e conforto nas várias audições que fiz.



Mas a precisão acústica das Magico S5, acolitadas por electrónica Soulution Series 5, só tinha paralelo no conjunto Rockport/Gryphon. O têmpero próprio do envelhecimento em madeira das Ktêma humaniza-as, ao mesmo tempo que lhes dá a tonalidade quente das cores mediterrânicas.




Aqui estamos perante instrumentos de elevada precisão tecnológica. Não há coloração, distorção, arrastamento, vibrações espúrias. Todos os sons surgem bem definidos, num espaço amplo e de grande transparência, onde tudo é claro e nada se parece perder. E vou cometer uma heresia: com excepção das Q1, e em termos de relação qualidade/preço, eu prefiro, com base na minha limitada experiência, a Série S à Série Q, pela qual é preciso pagar muito mais para obter um retorno de acréscimo ligeiro de qualidade absoluta!


ROCKPORT/GRYPHON


 


Sala Rockport/Gryphon  


Audição de porta aberta, em sala exígua, com todos os inconvenientes (para o repórter) e as vantagens (para o distribuidor) do 'entra e sai'. Contudo, também não precisei de muito tempo para perceber o que tinha pela frente.



O modelo Rockport Chara é um instrumento musical de grande precisão e qualidade. O que ouvi foi um som de excelência, sólido e sem 'hifismos' e/ou colorações. Descontando alguma actividade 'clínica' dos Gryphon, que conheço de audições anteriores, admito estar perante um modelo de coluna de eleição para os audiófilos mais exigentes, que deve fazer parte do portfolio da Ultimate Audio. 


SONUS FABER VENERE


   


Sonus Faber Venere: um som luminoso e quente  


A linha Venere é uma espécie de Emporio Sonus Faber: luxo a preço mais acessível para alcançar um público mais vasto. Até por isso, eu acho que a linha se devia chamar Venus (=Venere), como em Il Nascita de Venere, de Boticcelli), que é um nome muito mais universal, e com uma conotação bem mais agradável, que as associações possíveis de fazer com Venere...   A forma de alaúde de Serblin evoluiu para um design cada vez mais sofisticado e moderno e os acabamentos são de grande qualidade, e só possíveis de conseguir por este preço com mão de obra chinesa.


 


As fotografias não fazem justiça ao produto, mas o som do video aproxima-se muito daquilo que ouvi, e que, numa primeira audição ingénua, de pé, me soou mais 'quente', logo com um som mais próximo da SF Vintage do que os últimos modelos de médio porte da escuderia italiana.  


USHER



Os amplificadores Usher parecem-se (e creio mesmo que compraram a patente) com os Threshold Stasis, de Nelson Pass, o meu primeiro grande amplificador highend, que comprei a João Cancela (uma história que fica para as minhas memórias).


 


As Dancer Mini One Diamond (DMD)  'dançaram' bem e cumprimentaram-me com um som simpático e agradável, apesar da sala de audição se parecer mais com uma sala de exposição.    


VIENNA ACOUSTICS      Vienna Beethoven Baby com fatinho branco de baptizado   Uma vez mais, desejei estar na agradável companhia do Jorge Gaspar e do Rui Calado, dois grandes mestres da montagem de equipamentos para audição em shows. Pedir a umas colunas de médio porte, ainda por cima chamadas Beethoven Baby, para tocar música rock a abrir numa sala enorme e cheia de gente, é apelar ao desastre acústico.  


Mas olhem que não. Havia gusto e guts. E eu pensei: se conseguem tocar isto, com este sentido rítmico e energia (excelente articulação do grave), porque não exibi-las assim? É que essa ideia de comprar colunas para tocar só música audiófila, só existe mesmo na cabeça de audiófilos, que são cada vez menos...


WATERFALL


 
Waterfall, as colunas francesas com paredes de vidro
 


Ou porque a sala dava para a rua, e o dia estava bonito e solarengo; ou porque, tendo paredes de vidro, as Waterfall deixavam ver a vida lá fora à transparência; ou porque, sendo as últimas da lista, foram as primeiras colunas que ouvi, e ainda tinha a cabeça desanuviada, creio que esta foi a primeira vez que gostei do que ouvi na sala da Waterfall. E o video confirma esse facto: thanks to you, guys! Merci bien...


     


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