2010

Marantz Ki Pearl: Pérolas Negras



 

Ken Ishiwata (Lisboa 2009)


Tenho seguido a par e passo a carreira de Ken Ishiwata. Num mundo de gurus de pacotilha, se há um guru genuíno, ele é Ken Ishiwata. É fácil incensar nas páginas da net o criador de um produto esotérico de preço estratosférico, o chamado produto cost no object, que desaparece do mercado tão depressa quanto surgiu, envolto numa auréola de divinização ou de diabolização.


Mais difícil é dar estatuto highend, ano após ano, de uma forma honesta e consistente, a produtos comerciais de uma marca que, sendo mainstream, logrou criar uma imagem de exclusividade acessível, uma contradição entre termos, nesta feira de vaidades audiófilas, com as versões “KI” de modelos correntes, e decidiu agora homenagear o seu rosto mais mediático, na passagem do 30º Aniversário da sua ligação profissional íntima, com uma edição especial, designada por “KI Pearl”, de um amplificador integrado e de um leitor CD/SACD, sem especificações mirabolantes ou inovações tecnológicas de destaque.


Ken Ishiwata, Pearl Tour (Munique 2009)

O lançamento foi precedido de uma bem elaborada campanha de divulgação, na linha das tournées mundiais das grandes vedetas da música popular, com apresentação e demonstração activa dos produtos pelo próprio Ken Ishiwata, um consumado comunicador, dotado de uma vasta cultura musical (Ken toca violino) e com uma longa experiência de vida recheada de histórias cativantes, não se furtando a revelar alguns pormenores mais íntimos da sua biografia.
Quando da passagem do “Pearl Tour” por Lisboa, ficámos a saber, por exemplo, que tinha tido uma namorada portuguesa, numa relação algo tempestuosa, que a distância se encarregou de terminar.   Mas não terminou a sua paixão declarada por uma cidade onde foi feliz e, contrariando a sabedoria popular, aonde gosta sempre de voltar.  

SACD comemorativo do 30º Aniversário de Ken Ishiwata na Marantz (Munique 2009)

No 30º Aniversário do casamento, os Japoneses oferecem pérolas à esposa. A namorada portuguesa não durou tanto. Mas o casamento de Ken com a Marantz chegou às “bodas de pérola” e a prole KI é já numerosa. Eu diria mesmo que a KI é a “Ínclita Geração” da Marantz. O conjunto SA/PM-KI-PEARL são assim como que...eh... a pérola no bolo da sua longa carreira.   Um homem é também o resultado de todos os episódios da sua vida, e este é o lado emocional de Ken, que ele aprendeu a transportar para uma actividade que tem tanto de arte como de ciência. Sendo a emoção e a razão linhas fronteiriças de uma mesma realidade territorial – o áudio - vencem aqueles que conseguirem transformar essa aparente terra-de-ninguém num espaço aprazível de fruição musical, sem que o viajante se aperceba da transição entre o que é do domínio do humano e o que é do domínio da tecnologia.   Ou para citar Ken Ishiwata: to celebrate a sublime love of music and express human emotion in all its richness.    
As pérolas da Marantz: SA/PM KI_PEARL


Recebi as “perólas” em casa (com muito atraso em relação à reiterada promessa de Ken de me enviar test-samples), como quem recebe amigos de longa data. De facto, o nosso primeiro encontro fora já o ano passado em Munique. O evento ficou registado em vídeoHD, e os leitores podem recordá-lo aqui.


Entretanto, Ken deslocou-se a Lisboa em pessoa, como já vimos, no âmbito do “Pearl Tour”. A reportagem também em videoHD pode ser “visitada” aqui.


Quando um homem como Ken Ishiwata nos garante que os “KI Pearl” não são apenas mais uma versão melhorada de um modelo já existente, mas sim um produto concebido de raiz para reproduzir música, como ele entende que ela deve ser reproduzida – com fidelidade e emoção – isso devia bastar-nos. Mas eu não exerceria a minha função de “crítico” se não pusesse à prova a verdade dessa afirmação.

De facto, tanto no design como nas especificações, os “Pearl” derivam geneticamente dos PM/SA15S2. E não basta pintá-los de negro nacarado para pedir um aumento substancial de preço. Tem de haver algo mais que o justifique.
Talvez a exclusividade: serão fabricados apenas 500 pares. Sim, pares, porque embora toquem perfeitamente a solo, o valor para o coleccionador sofre com a ausência do outro, tal como possuir apenas um exemplar de um par de jarras do período Ming o desvaloriza.

Há quem seja capaz de matar para obter a outra. Neste caso, não é preciso ir tão longe, Contudo, depois de os ouvir com atenção durante algum tempo, posso afirmar que os 10 privilegiados que, em Portugal, fizeram a sua reserva prévia não se vão arrepender.


Os KI Pearl são uma declaração de amor à música, não são o estado da arte tecnológica. Ken apostou apenas em tecnologias com provas dadas em modelos anteriores, nomeadamente a tecnologia current feedback e os módulos HDAM-SA3 (HDMA-SA2, no circuito buffer da entrada CD/SACD). Os módulos HDMA de componentes discretos substituem com vantagem os habituais amplificadores operacionais, comprados ao quilo na China pela concorrência (o isolamento garante estabilidade térmica), e integram técnicas sofisticadas de transformer coupling.



Marantz PM KI_PEARL
 
O PM tem uma potência declarada de 90W s/8 ohms (140/s 4 ohms). A construção é robusta e o peso de 22 quilos deve-se sobretudo ao transformador toroidal de dupla blindagem, com recurso a uma caixa de alumínio não-magnético, e à estrutura reforçada do chassis cobreado, com tampa de alumínio de 5 mm de espessura, para eliminar interferências electromagnéticas e vibrações mecânicas.


Com 5 entradas, duas saídas e ligação para auscultadores, cumpre o essencial das necessidades de audição clássicas. Oferece ainda um sistema bus, designado por FCBS, que permite interligar 4 amplificadores. Uma opção megalómana, se considerarmos os valores envolvidos.


Ken optou por manter-se fiel ao CD/SACD e ao LP (MM/MC), numa altura em que toda a gente quer entradas USB, com conversão assíncrona, para reproduzir a multiplicidade de  sons da net a partir de downloads de alta resolução no computador portátil. Aliás, Ken nem sequer se dignou oferecer entradas/saídas balanceadas.

Tal como um bom enólogo, utilizou castas de reconhecida qualidade, e “afinou” o som ao gosto do seu paladar requintado, moldado por experiências mil de audições de música ao vivo. Em estéreo tout court, para não dispersar os sentidos com as tentações do SACD-multicanal, embora o amplificador possa ser configurado para aplicações AV ou bi-amplificação estéreo.

Marantz SA KI_PEARL


Curiosamente, deixou entreabertas portas que permitem ao utilizador algumas divagações, que ele depressa abandonará para se dedicar ao essencial: ouvir a música pela música, como se diz na gíria do futebol. O leitor SA pode ser utilizado como transporte isolado ou DAC externo (24-bit/06kHz viaToslink). E o PM pode dividir-se em prévio e amp.   Divagações obviamente inúteis, diga-se com frontalidade, pois é juntos que eles tocam bem, como uma orquestra de câmara afinada, na qual todos os músicos se conhecem ao ponto de se compreenderem só com o olhar. Assim, os meus comentários devem ser entendidos como uma apreciação conjunta.


Já a selecção de filtros tem que se lhe diga. E não me refiro apenas à possibilidade de alterar a pendente do filtro digital com CD e SACD. Qualquer audiófilo que se preze optará pelo default de fábrica (Filter 1). Só que – oh heresia! – eu dei comigo a preferir o Filtro 2 (de pendente mais rápida). Sobretudo com SACD: o som ganha presença, volume (literalmente, pois soa mais alto), corpo e substância. E até com CD, o Filtro 2 parece conferir mais intimidade à audição de música clássica e suavidade às cordas, à custa de algum detalhe redundante. Atenção: o leitor tem memória da selecção e mantém como default o último filtro escolhido.


Por redundante, observei ainda, com surpresa e alguma frustração, que o controlo remoto tem uma série de opções meramente decorativas: e bem que eu gostava que, pelo menos o comando de Phase, existente no controlo remoto, não fosse apenas decorativo, já dando de barato o Noise Shaper, DC Filter e External Clock, todos eles buttons that cannot be used on this unit. Ah, bom, mas o Sound Mode não funciona com CD mas funciona com SACDs híbridos: SACD (default) ou CD.


Houve um tempo em que a simples menção de controlos de agudos e graves fazia qualquer audiófilo entrar em apoplexia. Eu próprio contribuí para esse peditório e perante vós me penitencio aqui e agora. Com o avançar da idade, os meus ouvidos deviam estar menos sensíveis às altas frequências, acontece que dou comigo frequentemente a querer “cortar”, ainda que quase imperceptivelmente, o brilho no olhar com que certos discos ousam apresentar-se em público, ou a domesticar excessos de flatulência nos graves.


No fundo, o que eu quero dizer com isto é que estou-me simplesmente borrifando para o que os outros pensam, sem que isto constitua um regresso serôdio ao radicalismo próprio da juventude. É antes a constatação de que o cilício (ou silício para os amantes do vácuo) da mortificação audiófila já não se justifica nos dias de hoje. Prefiro a suavidade da seda ao cinto de crina do suplício da audição fundamentalista só para poder garantir o meu estatuto público de pretenso guru.


Já ultrapassei os dois terços do meu prazo de validade, e não tenho muito mais tempo para gozar as coisas boas da vida, sem ter de sofrer as dores impostas pelos mitos que ajudei a criar.


Aqui estou solidário com Ken Ishiwata: quem não gosta de controlos de tonalidade tem bom remédio: desligue o circuito...


Esta nova atitude audiofilosófica permitiu-me fazer uma descoberta assaz curiosa: o amplificador soou-me melhor no modo “Tone On” (mesmo com os potenciómetros na posição 12 horas). Ora isto deve ter uma explicação técnica, mas eu fico-me pela emocional: o PM KI Pearl (prévio+amp) foi afinado por Ken Ishiwata como um todo orgânico e assim deve ser utilizado. Amén.


E o mesmo se pode dizer do duo SA+PM. Este não é apenas o melhor leitor-CD de sempre da Marantz. É um dos melhores leitores SACD do mercado. É preciso chegar ao nível dos Esoteric e, pasme-se, dos EMM, para encontrar concorrência digna desse nome. Os DACs CS4398 da Cirrus Logic terão alguma quota parte da responsabilidade pelo sucesso, a solidez do chassis também.


O transporte SACD-M10, com gaveta Xyron, igualou ou ultrapassou os anteriores recordes da pista de obstáculos Pièrre Verany, tanto nos drop-outs simples como sucessivos, com e sem variação da distância entre pistas. Aliás, conseguiu mesmo chegar ao fim de todas as provas, incluindo os 4 mm!! (com um ou outro soluço), sem nunca ficar atascado. Simplesmente soberbo.


A capacidade para recuperar informação, sobretudo as deixas ambientais, é igualmente notável. E alguma propensão para soar de rigueur nos timbres é compensada pelo PM (não o Sócrates, claro) com um subsídio de integração harmónica suficiente para o sinal analógico poder levar uma vida de luxo audiófilo, sem pagar impostos ao nível da coloração tímbrica ou da compressão dinâmica.


Não é este, no fundo, o sonho de qualquer cidadão audiófilo: viver para a música sem ter de se preocupar com o dia-a-dia?...


Aliás, só conheço um amplificador integrado com características harmónicas semelhantes (atenção, eu não disse iguais): o DartZeel. Embora para comprar o CTH8550 seja preciso, hélas, o salário de um administrador de golden share...


O aparente amortecimento dinâmico do PM não afecta a sensação de “balanço”, de  momentum, de peso específico do grave, nem a paisagem luxuriante de tons quentes dos registos médios recortada no negrume do silêncio intersticial. O efeito de profundidade da imagem parece ter sido inspirado na versão 3D de Avatar. E não me refiro apenas à sensação de espaço atrás da linha das colunas. O relevo para cá da linha das colunas é também espantoso, com os solistas bem focados ao centro e isolados dos acompanhantes.


Au naturel, o agudo - de grão finissimo -, diga-se, pode colidir com a actual tendência dos estúdios para “dar vida” ao som, matando a música. Daí talvez a minha opção com certos discos pela acção parcimoniosa do Filtro 2 e a provocação assumida de um suave golpe de pincel com a paleta de tons mornos centrada nos 15kHz.


O PM-KI-PEARL, não sendo revolucionário, é um milagre. Ken Ishiwata pegou num amplificador de Classe A/B clássico, dotou-o de um elevado factor de amortecimento (excelente controlo do grave), à custa, por certo, de uma dose maciça de realimentação negativa, e o resultado é termos a sensação de estar a ouvir um Classe A.


Aproveite que vem aí a crise. Se não sofre da síndrome audiófila da updating constante, imposta pela iDitadura vigente, os “Pearl” são jóias que passam de geração em geração e se vão tornar parte inalienável da sua herança de família. Quem os comprar, morre com eles – e por eles. E assim se vão da lei da morte libertando – como Ken Ishiwata.


Ou se prefere um exemplo mais prosaico e menos mórbido: a Marantz está para a Toyota como os KI Pearl estão para o Lexus. Se já conduziu um Lexus percebe imediatamente a diferença: silêncio e suavidade que não afectam o prazer de condução, leia-se, de audição.


Distribuidor: VIDEOACÚSTICA
  Preços: SA_KI_PEARL: €2 999 PM_KI_PEARL: €2 999   Para mais informações:


http://www.videoacustica.pt/


http://www.marantz.eu/kipearl/