2008

Monitor Audio Pl 100 (300): Bodas De Platina



Com a idade fiquei mais lento - e também mais sábio, espero: não corro para chegar primeiro, prefiro saborear o caminho. Os leitores lamentam-se: queremos testes novos todos os dias, já! Seria até relativamente fácil para mim. Bastava-me ouvir um par de colunas novas durante algumas horas num fim-de-semana, e verter depois os meus preconceitos (no sentido de juízos prévios) no teclado, tudo misturado com uma tradução à letra da brochura.


Actualmente, quanto mais oiço um equipamento qualquer, menos me atrevo a escrever sobre ele: aquilo que me parecia linear, literalmente, numa primeira audição ingénua, acaba por se revelar complexo e difícil de definir a longo prazo. É preciso viver algum tempo com pessoas e objectos para aprender a apreciar o seu verdadeiro valor. E valor aqui compreende tanto virtudes como defeitos. Ao fim de três meses (note-se: 3 meses, não 3 dias!) de vida em comum, sinto-me minimamente habilitado a debitar meia-dúzia de palpites sobre as Monitor Audio Platinum PL100 (e PL300 on the side).


Globalmente mantenho a minha opinião, embora este “preconceito” ou “juízo prévio”, não me dispensasse do dever de as pôr de novo à prova: são as melhores colunas da escuderia Monitor Audio - já o escrevi aqui. E nem sequer pretendo gastar o meu latim a descrevê-las em pormenor: basta olhar para as fotografias de catálogo para perceber que a MA não olhou a despesas nem a esforços para apresentar um produto de luxo asiático. Madeira polida com carinho e paciência chinesa, pele curtida no limite da perfeição humana, formas elegantes e sensuais, acabamentos de qualidade quase obsessiva dos pés à cabeça: one gets what one pays for.


Não consegui encontrar aqui nada que pudesse criticar, e já não posso dizer o mesmo de outras colunas bem mais caras, com excepção das Sonus Faber, que foram uma óbvia fonte de inspiração.

Se a beleza visual salta à vista e não precisa de ser realçada, já alguns aspectos técnicos mereceram-me um olhar mais atento. A brochura que acompanha as colunas (que pode abrir aqui) escalpeliza com óbvio sentimento de orgulho as dores do projectista para dar à luz estas duas obras de arte. Vamos folheá-la juntos, retendo-nos no que é realmente novo e não apenas cosmético. E o que é realmente novo nestas Monitor Audio? O tweeter-de-fita, ou ribbon tweeter.

Ora “fitas” é comigo - gosto de as fazer e sempre gostei de as ouvir: construí de raiz umas colunas com o grave montado numa linha-de-transmissão Bailey, cuja secção de médio-agudos estava originalmente a cargo de um painel electrostático Schackman, que foi depois substituído por um ribbon tweeter Kelly (not one of my proudest moments, I must say), e fui possuidor - é o termo, pois tratava-se de paixão - de três pares de colunas Apogee que vendi: um par de Caliper e dois pares de Duettas (as beije estão hoje na posse do António Flórido) e as antracite andam por aí algures (the saddest and most stupid decisions of my audiophile life). Além de que convivi de perto com as Scintilla e as divinas Diva, que apresentei publicamente no Festival de Música da Póvoa do Varzim perante um público maravilhado e rendido que não arredou pé até à uma da manhã.


Já sei que as Apogee eram (ou melhor, são, pois um australiano comprou a marca e continua a produzi-las) as únicas colunas do mundo de fita integral (full-ribbon), e que o tweeter das PL 100 se limita a reproduzir as altas frequências entre os 2,5kHz e uns alegados (e não comprovados) 100Khz, lá onde os cães uivam e os morcegos voam (o Kelly vinha um pouco mais abaixo mas não ia tanto lá acima).


Pela sua natureza, os tweeters-de-fita conseguem conciliar a riqueza de detalhe e a ausência de agressividade. A massa é mínima e, em consequência, a velocidade é máxima. São rápidos e precisos: páram e arrancam no ápice que separa o silêncio da morte do susto da vida, delimitando uma fronteira no tempo que outros teimam em confundir como terra-de-ninguém. A vantagem das Apogee é que esta fronteira atravessa todo o continente sonoro, não permitindo a passagem “a salto” de sons clandestinos de outras origens e raças. Neste contexto, podiam considerar-se elitistas e xenófobas.

As Platinum são mais liberais, e servem-se de altifalantes dinâmicos convencionais (alumíno/magnésio com amortecimento por sílica) para reproduzir os médios e graves, tentando conjugar com o mesmo objectivo de bem comum políticas de transdução diferentes. Ora, sabe-se com as coligações têm fragilidades orgânicas no seu seio: nem sempre tocam pelo mesmo diapasão, o que dá origem a rupturas. É aqui que faz falta um líder forte: um bom amplificador, por exemplo. Para segurar o grave e não o deixar portar-se mal e fazer fitas em frente do jovem tweeter.


As Platinum são do tipo “pão-pão-queijo-queijo” e não levam desaforo para casa: o tweeter é explícito na sua atitude quase desafiadora, e discos gravados para soar bem na rádio e no iPod podem revelar demasiada energia entre 2kHz e os 5kHz (é a ideia que os engenheiros de som têm agora de “alegria” e “vivacidade” musical, um pouco como a afinação de fábrica dos plasmas e LCD, com cores vivas e berrantes para atrair a atenção dos passantes).

As Platinum foram afinadas em câmara anecóica. Uma resposta muito linear pode soar algo agressiva na vida real. A quem atribuir a culpa: à sala (reflexos secundários), aos discos (já vimos porquê) ou aos nossos ouvidos, que são particularmente sensíveis nas frequências centrais da voz feminina (da mãe)? É só escolher. Não é por acaso que muitos fabricantes (a Sonus Faber da era Serblin, por exemplo) preferem deixar uma ligeira depressão nesta zona do espectro: mede mal, soa bem.


Audições posteriores provaram que o tweeter de fita se porta afinal muito bem dentro dos limites dinâmicos deste tipo de transdução. Com as PL300 a adrenalina é sobretudo injectada na corrente sanguínea da música pelo altifalante de médios.


As PL100 não têm um altifalante de médios dedicado, apenas um médio-grave, pelo que foi preciso equacionar alguns compromissos: quem reproduz o quê na zona de sobreposição centrada na frequência de corte? Calculo que Dean Hartley, director técnico do projecto, tenha sofrido muito para se decidir, porque eu já passei pelo mesmo, e sei que há alturas em que se tem de optar pelo mal menor.


Um mal menor que, no caso das PL100, se transformou num bem maior: há menos “raw power”, menos energia, menos luz, mas o som é também mais relaxante, como se tivéssemos baixado um ponto ou dois no parâmetro “sharpness”. É por isso que, embora ambas utilizem o mesmo tweeter-de-fita, com uma resposta declarada até uns estratosféricos - e manifestamente optimistas - 100kHz, as PL100 são mais discretas na sua abordagem musical.


Só me faz falta aquela oitava inferior (ou serão duas?) que nas PL300 é aditiva - não no sentido em que está lá a mais (o controle é férreo e as ondas transmitem-se pelo soalho fazendo vibrar o vil esqueleto ao ritmo da música), mas no sentido em que ficamos viciados: as PL300 sopram, as PL100 arfam. Et pour cause: as PL300 são empolgantes, as PL100 de uma sensualidade enganadora, pois têm pêlo na venta.


Para reproduzir o som do ar nada melhor que uma membrana que pouco mais pesa que o dito. Essa insustentável leveza confere às Platinum uma característica especial: o palco transparente e amplo, assim, digamos, cheio de...ar puro. As imagens são, contudo, sólidas, tangíveis e muito estáveis. A mesma janela que deixa entrar a luz sem cortinas ou persianas torna-as exigentes em termos de fontes. E de cabos. E, já agora, de amplificadores: as PL100 nasceram para serem cortejadas pelas EL34 ou pela simplicidade do andar de saída dos Pass de baixa potência, que em boa hora regressaram ao seio da família Delaudio.


Após a minha relutância inicial em aceitar esta luminosidade como natural, Delfim Yanez propôs-me uma fonte Esoteric X-05 e cabos Black Sixteen. Um sinal puro e um cabo neutro são sempre um bom têmpero. Tudo passou a saber melhor ao meu palato exigente. É certo que continuou presente um ligeiro up-tilting, um toque de pimenta-verde, que, se é verdade que torna todas as audições excitantes, faz tudo soar também mais vivo e presente do que na vida real. Admito que com certos discos a “vivacidade” pode raiar a “metalização”, mas a natureza do transdutor de altas frequências nunca permitiu que evoluísse para dureza ou agressividade.


Em termos de construção, concepção e performance geral há muito pouco a criticar nas PL100. Até a inevitável diferença de velocidade de resposta das duas unidades activas pode ser filosoficamente entendida como o famoso copo meio cheio ou meio vazio. Num disco teste com sons de bateria, é evidente que a tarola soa mais rápida e perde-se velocidade à medida que aumenta o diâmetro do tambor e o filtro faz a passagem de testemunho para o altifalante C-CAM. Por outro lado, ganha-se corpo. E não é assim também ao vivo? Quanto ao impacte, é uma palavra que, no caso das PL300, alimentadas por um par de monoblocos Krell Evo 400, não é suficiente para exprimir a sensação: caramba, se aquilo sopra!



As Platinum são esculturais e bonitas, o que não significa que são sempre simpáticas. Se não as apaparicar com caviar, champagne Cristal, diamantes e Ferraris, por esta ordem, podem fazer cenas em público. Contudo, satisfeitos os caprichos, transformam-se “num animal selvagem na cama”. Ah, e também gostam de posar nuas, isto é, sem grelhas. Eram as colunas que eu aconselhava ao Cristiano Ronaldo para o sistema AV da sua casa em Manchester. Ou será em Madrid?...


E você, caro leitor, acha que é homem para elas? Então está à espera de quê para as levar ao altar numa igreja perto de si?...


Para mais informações:DELAUDIO - telef. 21 843 6410