2008

Cartilha Audiófila



Quando escreve, o poeta – e perdoem-me o arrojo do autoelogio – não se preocupa se o sabem ler ou não. Ele escreve para si próprio. Há poetas, contudo, cuja escrita é tão complexa que exige cursos de interpretação. Quem quiser entrar no seu universo poético tem, pois, de se dar ao trabalho de aprender a lê-lo. Assim nascem os clubes de leitura e de áudio.

Minto, houve um poeta que se preocupou em ensinar a ler primeiro para que pudessem lê-lo depois: João de Deus,  que, consciente de que não se pode ser poeta em terra de analfabetos, publicou a Cartilha Maternal, na vã esperança de que as mães ensinassem os filhos a ler. Esqueceu-se que elas também precisavam de ser ensinadas e não tinham a quem pedir.


O leitor M.Melo enviou-me um longo email no qual sugere que o Hificlube publique em fascículos uma “Cartilha Audiófila”. Segundo ele, a maioria das pessoas com quem fala, tem, e cito:


“Uma completa ausência de conhecimentos técnicos a todos os níveis, de tudo o que você possa imaginar, desde como ligar os cabos de corrente em fase, impedância ou sensibilidade das colunas, células MM e MC, tudo JVH...tudo lhes é estranho. E se alguns pensam que isso só está ao alcance dos que andaram a estudar, outros há que tomam como certezas tudo o que qualquer pasquim diz. Junte-se a isto a falsa ideia de que para terem um grande som têm de gastar rios de dinheiro, ou que os vendedores têm sempre razão. Resumindo...compram o que lhes impingem, são enganados e nunca hão-de saber o que é ouvir música nas mínimas condições aceitáveis...”.


E continua, propondo que o Hificlube publique, e cito de novo:


“Textos como se de dicas se tratassem, em que poderia esclarecer certas coisas simples deste complexo mundo. Por exemplo, começando pelo princípio: 'Vantagens das linhas dedicadas', em que se diria sucintamente as vantagens deste pequeno upgrade que tanta gente desconhece: que cabos se poderão usar do disjuntor até às tomadas, que tipo de tomadas, etc... Um texto posterior poderia incidir sobre 'filtros' e cabos de sector, vantagens ou desvantagens que poderão ter num sistema...tudo com pequenos glossários dos termos técnicos”.


A proposta é pertinente e agradeço ter-se dado ao trabalho de a enviar, pois é de um alerta precioso que se trata. Será que o Hificlube podia ter ainda mais leitores se eu os iniciasse na arte de interpretar ou, no mínimo, compreender o essencial dos meus textos?


Sob pena de ser considerado elitista, eu nunca entendi o Hificlube como uma “escola de áudio”, um “guia do comprador”. Tenho deixado essa tarefa aos vários fóruns, nos quais, aliás, participo esporadicamente e onde tenho aprendido mais do que ensinado.



Pela minha parte sempre tentei analisar o fenómeno audiófilo numa perspectiva sócio-cultural. Não me interessa tanto o equipamento em si como a importância que ele tem na vida das pessoas, quer o considerem apenas um objecto de desejo ou um projecto viável de aquisição. Da audição tento deixar pistas úteis que os leitores utilizam depois nas suas próprias experiências com equipamentos que estão ao alcance da bolsa. Os patamares elevados que imponho a mim próprio são uma espécie de records olímpicos do áudio. Dentro das possibilidades financeiras, cada leitor “salta” tão alto e tão longe quanto pode, tendo a consciência de que haverá semppre algures quem salte mais alto e mais longe do que ele. A que custo? Com que sacrifício? Terá valido a pena? A análise dos meios é fundamental para compreender os fins que nem sempre os justificam.

Mas é quando eu chego a casa de um amigo, que se diz meu leitor, e anda há 10 anos a ouvir a “aparelhagem” com as colunas fora-de-fase, que eu compreendo a razão prosaica que assiste ao autor do referido email. Será que eu afinal ando há 20 anos a pregar aos peixes como St.º António? Os milhões de entradas no Hificlube desde a sua inauguração e os milhares de emails e palavras de apoio e incentivo ao longo da minha carreira audiófila dizem que há um público atento e conhecedor que me lê. Será isso motivo suficiente para desprezar os milhares de candidatos à iniciação audiófila?




O Hificlube agradece o contributo de M.Melo e vai analisar sem compromisso a possibilidade de publicar as “dicas” por ele propostas. Talvez em vídeo, que uma imagem vale hoje muito mais que mil palavras, e os tempos são outros...