2007

Hot Stuff: Arc Reference 3/110 - Parte 1



Confesso que ando preguiçoso. As férias são más conselheiras. Um pessoa habitua-se ao dolce fare niente e, quando dá por isso, já nem gosta de gostar daquilo que antes gostava: escrever sobre hifi, por exemplo. Aliás, não me apetece sequer ler sobre hifi. Assim, se também os leitores guardarem este 'testamento' em dois longos capítulos para ler em Setembro, eu compreendo o vosso estado de espírito e não fico ofendido. Só de pensar em amplificadores a válvulas, fica-se com calor...


Lista de espera


Mas o que tem de ser tem muita força, e quis a má fortuna ou o amor ardente que os três equipamentos que tenho em lista de espera (e há quem morra em lista de espera em Portugal) sejam todos a válvulas: Prima Luna Dialogue Two, Audio Research Reference 3/110.


Audio Research Reference 110

Podia fazer-lhes uma descrição técnica completa. Mas o essencial está disponível na página da Imacústica, num texto traduzido a partir do press-release da marca, como aliás são quase todas as descrições que abrem os testes dos meus ilustres colegas estrangeiros (e não só...), e por isso não vale a pena inventar. Reza assim:


Quanto às dimensões, as dos Reference 110 são idênticas às do Reference 210, generosas mas sem ser difícil de manejar. Enquanto o painel frontal contempla apenas o selector On/Off a disposição interna, agradável pelo seu aspecto ordenado, é similar à do Reference 210, com as placas dos canais esquerdo e direito montadas horizontalmente, flanqueando os transformadores montados num corredor central elevado, dispostos da frente para trás. Um pequeno display de LCD que indica as horas de utilização das válvulas está montado na frente da placa do canal direito e é visível através do topo. Duas pequenas ventoinhas de 12V DC estão montadas no painel traseiro com um pequeno comutador interno permitindo que a sua velocidade seja definida para baixa, média ou alta. A entrada é exclusivamente balanceada, enquanto a saída permite colunas com impedância de 4, 8 ou 16 ohm, através de bornes de ligação exclusivos. O REF110 possui ainda dois comutadores de 12V (entrada e saída) para permitir o controlo à distância e a ficha IEC de ligação de corrente é de 20A. A potência de saída é de 110 watts contínuos por canal e é obtida com um circuito push-pull totalmente balanceado que utiliza dois pares emparelhados de válvulas de saída 6550C. A secção de entrada utiliza JFETs de acoplamento directo com uma 6H30 na secção de ganho e um seguidor de cátodo 6H30. A regulação do bias é efectuada internamente e é muito simples e rápida, com pontos de teste isolados nas placas principais. O acoplamento da secção de saída é uma combinação de topologias “Ultralinear” e “acoplamento catódico parcial” da Audio Research, de forma a obter um som melhor do que o normal funcionamento em pentodos ou tríodos.


E o que me apraz dizer sobre isto?


Que não há revoluções no “velho” mundo das válvulas: o “acoplamento catódico parcial”, por exemplo, vem em todos os manuais sobre válvulas. A novidade é a utilização da 6H30 como seguidor de cátodo. Aliás, estes tríodos também utilizados no REF3, já lá vamos, e parecem ser o segredo da “unicidade” sónica que torna este duo valvulado, se não inseparável, pelo menos desejável que o seja.


O 110 também não é propriamente “manejável” (é enorme e pesado, pronto!). Nem sequer é bonito: ao contrário dos McIntosh, os ARC não souberam envelhecer com classe. E as ventoinhas, mesmo na velocidade mínima, ouvem-se nas passagens mais calmas da música, pelo menos nas minhas condições de audição. Há até no mercado informático ventoinhas muito mais silenciosas. Até os Krell KSA100, de há 20 anos, tinham “whisper fans”...


O cabo de corrente de sector usa uma ficha IEC diferente das que vêm montadas nos meus Siltech pelo que não pude substituí-lo. Os melhores resultados foram assim obtidos com um filtro Isotek Titan: a qualidade da corrente de sector tem uma importância fundamental, neste caso.


Audio Research Reference 3

Quanto ao Ref 3, pode ler-se ainda e sempre na página da Imacústica:


Apesar de ter as mesmas medidas dos seus antecessores, o Reference 3 é novo tanto por dentro como por fora. O painel frontal combina com o clássico design Audio Research mas com um display mais moderno e controlos intuitivos que serão certamente apreciados. O display, no meio do painel, mostra o nível de volume (seja numérico, seja por linha de gráfico), a entrada seleccionada e o estado de funcionamento (incluindo BAL/SE, Mute, Mono e Phase). De cada lado do display estão dois botões que controlam o volume e as entradas. Por baixo do display estão quatro comutadores suaves para Power, entrada Processor, BAL/SE e Mute. O comando controla todas as funções do painel frontal e também o controlo do balanceamento dos canais e também um display para leitura do número de horas de funcionamento das válvulas! É fácil a integração do Reference 3 com sistemas de controlo Creston ou AMX. As entradas têm acesso directo existem códigos discretos para on/off de power, on/off do processor, etc. O painel traseiro é idêntico ao do Reference 2 excepto pela eliminação da entrada “tape monitor”. O Reference 3 não possui a capacidade de permitir ouvir uma fonte enquanto se grava outra. Uma outra diferença é o cabo de alimentação destacável que passou de 15A para 20A. O nível de qualidade tão elevado foi atingido graças a um novo circuito de áudio e ao novo circuito de alimentação. Existem quatro novas placas de circuito e dois novos transformadores. O novo circuito de áudio é totalmente a válvulas, com realimentação nula, e utiliza um total de quatro duplos tríodos de longa duração 6H30. Para as fontes a corrente constante são utilizados FET's (exteriormente ao percurso único) e o circuito analógico utiliza um par de andares de entrada longos para garantir a mesma performance tanto em funcionamento single-ended como balanceado. O ganho total é de 12 dB balanceado e 6 dB single ended. A fonte de alimentação híbrida possui uma capacidade de armazenamento 50% superior à dos seus antecessores, contribuindo em grande parte para a surpreendente capacidade dinâmica. Existem outras melhorias que podem ser observadas no aparelho e apreciadas na sala de audição. A amplitude de banda melhorou de 60 kHz para 200 kHZ; o ruído foi reduzido em 12 dB; o nível é muito mais elevado, com a entrada máxima aumentada para 20V balanceada e a distorção foi reduzida em 40%.


Alan Blumlein: the long tale of a long tail


Bom, “long tail pair ” não se refere aqui a “um par de andares de entrada longos”, mas sim ao circuito concebido pelo génio de Alan Blumlein, (em 1936, pasme-se!), que consiste num par de tríodos com os cátodos ligados entre si, partilhando a corrente a partir de uma resistência de valor elevado que se liga, não à terra, mas a um ponto de tensão negativa, substituindo assim a tradicional resistência de polarização de baixo valor entre o cátodo e a terra, eliminando-se o factor das constantes variações de corrente entre válvulas. Mas deixemos isso para os especialistas, e vamos ao que interessa.


Todos diferentes, todos iguais

Os ARC são idiossincráticos por natureza. No painel posterior, insistem em colocar o canal esquerdo em cima e o direito em baixo, ao contrário da norma universal; o botão de volume está do lado esquerdo, quando a minha tentação é a de levar a mão (até eu que sou meio-canhoto!...) para o lado direito onde está afinal o selector de fontes. Aconteceu-me duas ou três vezes, até apanhar o hábito. Claro que com o controlo remoto (baratucho e de plástico) a questão não existe sequer.


A luminosidade do painel é excessiva, quase de efeito pirotécnico. Pode, contudo, baixar-se a luminosidade até se apagar por completo, e é assim que eu o prefiro: apagado. Até porque soa melhor, juro! E como ressuscita sempre que se activa uma função...


Adorei tudo o resto, sobretudo as funções Phase e Mono. Quem nunca experimentou ouvir um disco em fase absoluta não sabe o que tem andado a perder, embora às vezes haja no mesmo disco faixas (quando não mesmo instrumentos na mesma faixa!), com a polaridade relativa invertida. “Love”, dos Beatles, até por ser uma colectânea, é o disco ideal para jogar ao gato e ao rato com a fase absoluta. Ironicamente, a faixa “Gnik Nus”, que é uma curiosa gravação reproduzida com a fita a andar para trás! (Sun King), soa melhor no sistema em teste invertendo a fase...


Depois de ouvir a diferença, que tem o efeito acústico correspondente ao da focagem perfeita numa máquina fotográfica, nunca mais vai querer prévios que não tenham esta função.


Quanto ao Mono é a melhor maneira de encontrar o centro geométrico do palco sonoro na colocação das colunas na sala.


O Ref 3 é excepcionalmente silencioso para um prévio a válvulas. O ganho é moderado (6dB, single-ended; 12dB balanceado) e com colunas pouco sensíveis e amplificadores de baixo ganho haverá sempre quem ache que tem pouco sumo. Mas uma vez bem integrado num sistema tem o efeito da testosterona no ciclismo: sobe as montanhas dinâmicas à frente do pelotão.


Atenção: o Ref 3 é muito melhor no modo balanceado, “long tail or not”, pelo que aconselho a utilização de fontes balanceadas e amplificadores balanceados. No meu caso, utilizei o DAC 64 e o Esoteric X-01 D2. Cabos: Siltech e Nordost.


Nota: apenas por curiosidade, as entradas “single-ended” dão-se melhor com cabos Transparent Reference do que com Nordost Valhalla. Não me perguntem porquê...


Quem vem atrás, que feche a porta


Ao contrário do meu teste das Elipsa, que foi o primeiro do mundo em língua inglesa, já há dezenas de testes publicados dos ARC. Afinal o que podia eu escrever que já não tivesse sido escrito por outrem? Neste caso, até teria sido fácil “samplar” meia-dúzia de frases avulsas dos outros testes (onde é que eu já li isto?), mexer tudo muito bem, verter lentamente dois ou três discos da minha lavra e terminar com uma conclusão bombástica original: o ARC Ref 3 é o melhor pré-amplificador a válvulas da marca e o melhor do mundo na sua categoria de preço. E o mesmo se pode dizer do 110, um sonho antigo tornado realidade: o primeiro amplificador ARC a válvulas com ritmo.


Ainda ficava com margem de manobra, porque a expressão “a válvulas” deixaria em aberto a possibilidade de existirem outros ainda melhores a transístores. Mas eu deixo a minha marca pessoal, com alguma polémica para apimentar, em tudo o que escrevo. Vamos a isso.


Uma questão de ganho!...


João Ganho, do Estúdio O Ganho do Som, declarou num post no Forum Hifi, a propósito de técnicas de gravação, e cito:


“...essa pequena maravilha que é o álbum 'Senhora da Graça', de Maria Ana Bobone. Uma breve consulta à sua ficha técnica explica, de seguida, que aquele magnífico e cristalino som foi captado 'numa igreja, algures em Lisboa'. Algo muito afastado das captações anódinas e sem 'alma acústica' que povoam 99 por cento dos actuais álbuns de fado. É confrangedor ouvir grandes fadistas como Cristina Branco ou Mariza a 15 centímetros do microfone e 'digital reverb overproduced'. Ignorar a presença do espaço num registo de fado é ignorar tudo aquilo que essa música pretende transmitir.”


Permito-me discordar respeitosamente. Eu utilizo duas ou três faixas de “Transparente”, de Mariza, para testar a capacidade dos sistemas e componentes de nos transmitirem o que vai na alma da artista. Mas a minha experiência de audição de Maria Ana Bobone, tal como a gravou Todd Garfinkle, da M.A. Recordings, em Luz Destino (tenho um CD para oferecer ao primeiro leitor que me provar que também tem o CD de Mariza), soa-me por comparação como um passarinho ferido, prisioneiro na acústica ampla da abóboda de uma igreja gótica. Aquilo é agradável, sem dúvida, óptimo para demonstrações audiófilas (recordo-me da sumptuosa estreia das Avalon Osiris, no Hotel Penta, em Lisboa) mas é fado barroco, como o próprio Garfinkle o designou.


Eu conheço Garfinkle pessoalmente, um idealista tão simpático quanto alucinado, que corre o mundo em busca de “exotic musical stuff”, colocando o trabalho de João Paulo e Maria Ana Bobone na mesma prateleira mais ou menos folclórica da ethnic music que vai do “rock da Macedónia”, do bósnio Vlatko, à “Traditional Music and Throat Singing of the Khakas Tribe of Southern Siberia”.


Garfinkle não regista a voz dos artistas, regista o som do espaço onde os artistas actuam, ou “MA” não fosse a palavra chinesa para espaço (vá lá, não é tibetana...). É bonito, etéreo mesmo, mas, por favor, não lhe chamem fado, ou a Júlia Florista, o Marceneiro, a Hermínia e a Amália ainda aparecem por aí para nos assombrar...


Se Mariza gravasse com Todd Garfinkle, ainda hoje não passava de mais uma curiosidade étnico-ambiental pour épater le bourgeois audiophile.


Nota: Podem ler na Stereophile uma entrevista a Todd Garfinkle, de Jonathan Scull, em 1999. Embora eu duvide que o entrevistador saiba sequer onde fica Portugal, esse país exótico onde, em rituais ancestrais, os nativos cantam canções estranhas a que chamam fado, pela calada da noite, em igrejas góticas. Give me a break, please!...


Até que a voz me doa


No fado é a presença da voz e não a presença do espaço que conta. Aliás, o fado original cantava-se no espaço exíguo de bares e tabernas, cuja única ambiência era o cheiro a alcóol e a fumo, das sardinhas, dos cigarros e do catarro. Os verdadeiros amantes de fado gostam de ouvir “em cima” da fadista, tão perto que lhe sentem o hálito e lhe provam as lágrimas.


Agora que se canta fado em Coliseus e grandes salas de concertos, por esse mundo fora, Mariza compensa-nos (e defende-se que a voz não dura sempre) cantando a menos de 15 cm do microfone.


Em “Transparente” limita-se a fazer o mesmo (aliás, eu vi o vídeo do making of e ela até canta a menos de 15 cm, com a rede de protecção para evitar gafanhotos acústicos. Daí resulta, também em nossa casa, que a ouvimos “em cima”, salvo seja. É um facto que não se trata de um disco purista: os registos da voz e dos instrumentos são feitos em separado, não há ar, nem ambiência natural, ou seja, ar há, mas é engarrafado; nem, hélas, ligação ou empatia entre os músicos.


Mas neste disco eu só tenho ouvidos para a voz e a alma de Mariza. E essa está bem produzida, apesar de “vista” através de uma discreta lupa de aumentar - o mesmo efeito de “maior do que a vida” dos concertos, aliás. Neste caso, satisfaz-me, apesar de tudo. Por mim até podia cantar o disco todo a capella. E não sou só eu que penso assim. Há já críticos americanos, que muito provavelmente não sabem que Mariza é tão brasileira como Carmen Miranda, que também utilizam “Transparente” como instrumento de trabalho.


E como eu os compreendo. É que eles não entendem o que ela diz, mas sentem. O mundo audiófilo divide-se entre os sistemas que deixam passar o sentimento e os outros. Mariza é como o algodão - não engana. Jacques Brell não engana. Tal como na vida, há os que têm carisma artístico e os que não têm: o duo ARC Ref 3/110 tem.


HOT STUFF: ARC REFERENCE 3/110 - Parte 2