2007

Highend 2007_ Munique: Hifi Do Outro Mundo



Audiófilos alemães, escada abaixo, escada acima no M.O.C. de Munique


Todos os anos em Maio, Munique recebe em festa a tribo audiófila: centenas de expositores e marcas exibem as última criações de áudio perante uma multidão ávida de novidades e, sobretudo, de emoções fortes.


O Highend Show é o santuário, o último refúgio das espécies audiófilas em vias de extinção, como gira-discos e amplificadores a válvulas, que são há duas décadas o ex-libris deste certame e um verdadeiro paradoxo: realiza-se no país mais desenvolvido da UE. A cultura de um povo também se revela na forma como protege o património tecnológico.


O ambiente da feira é assim propício à imaginação delirante dos criadores de áudio, que todos os anos apresentam modelos cuja única função parece ser a das starlets no Festival de Cinema de Cannes: dar nas vistas. Felizmente, tal como elas, são também enorme fonte de prazer - auditivo, neste caso.


Os preços são consentâneos com a economia mais poderosa da UE, e é vulgar exibirem-se sistemas de som cujo preço dava para comprar um apartamento de cinco assoalhadas num condomínio fechado em Lisboa, e mesmo assim não ter a qualidade de vida da bela e pacata capital da Baviera, onde avós e pais acompanham os filhos em longos passeios de bicicleta, em zonas demarcadas nos passeios, ou empurram carrinhos de bebé (o Campeonato do Mundo espoletou um baby boom sem precedentes na Alemanha) e passeiam os cães, sem que se veja sujidade nos passeios (os cães e as bicicletas podem também ser transportados no Metro!); os automóveis são pouco poluentes e não estacionam em cima dos passeios; os parques abundam; os apartamentos têm jardim infantil e, ao Sábado, o centro histórico da cidade enche-se de uma multidão feliz que passeia em segurança, almoça e compra, compra, compra até às oito da noite, bebe cerveja nas esplanadas ou assiste a espectáculos de rua com os filhos às cavalitas.
Hall central do MOC (foto de 2005)


Destes, alguns milhares, maioritariamente homens, mas também mulheres e crianças (e cães!), visitam o HighEnd Show, no M.O.C., que é a FIL lá do sítio, e passam a tarde a ouvir música ao vivo ou reproduzida por equipamentos de bradar aos Céus: gira-discos banhados a ouro, colunas de formas delirantes, que mais parecem extraterrestres, e modelos retro de amplificadores a válvulas de linhas clássicas, estilo Império Austro-Húngaro, rádios portáteis inspirados nos anos 60 e réplicas das juke-boxes Wurlitz originais. Os deuses do hifi devem estar loucos!...
Wurlitz: juke boxes


Se você, caro leitor, pensava que hifi é apenas aquilo que pode comprar na Worten, pense de novo: há todo um mundo de fantasia à sua espera...


ARTE AUDIÓFILA


Perante uma tal exibição de arte tecnológica, duas questões se colocam:



1. A total liberdade de expressão artística pode levar a abusos criativos?
Labor Limae: imaginação à solta



2. Há pessoas no mundo suficientemente ricas ou loucas para comprar aparelhagens de som como estas?
KEF Muon: 100 000 euros o par!


As mesmas questões aplicam-se a todas as actividades humanas:


A alta costura exibe nas passereles roupa de tal forma extravagante que nos perguntamos se há mulheres capazes de vestir aquilo. E no entanto elas vestem...
Gira-discos Transrotor Apollon Gold


A função primordial da alta relojoaria hoje não é por certo “dar horas certas” - qualquer relógio digital made in China lhe “dá” isso por uma fracção do preço. Mas só os relógios de ponteiros, tal com os gira-discos com braços e agulha, podem ser transformados em obras de arte...