2007

Ces 2007: Sob O Signo Da Renascença



Fachada principal do Casino Venetian


Na passagem do 40º Aniversário, a CES devolveu a dignidade ao High Perfomance Audio: o termo highend tem direitos de autor - não, não foi o Gato Fedorento que inventou, foi Harry Pearson, da TAS, e foi também ele que impediu, com a criação da Academy for the Advancement of Highend Audio, de que eu fui com grande honra júri honorário, que a CES acabasse com a exposição de áudio especializado na década de 80.
Hotel Venetian by night


Ao mudar do local de exibição do Alexis Park, um resort sem casino e afastado da Strip, para o sumptuoso Venetian, um hotel temático, que pretende ser uma réplica hollywoodesca da bela cidade de Veneza, o highendestá finalmente no seu ambiente natural.
Turistas passeiam na 'Praça de S.Marcos' sob um céu azul e luminoso(ninguem diria que é falso...).
Gondoleiros cantam e encantam os passageiros de ocasião(ver video)
Músico 'veneziano' anima um casamento em plena Praça de S. Marcos


O notável projecto arquitectónico inclui e todos os principais ícones da Serenísima cidade do Adriático: o campanário, o leão alado…, a ponte de Rialto, a praça de S. Marcos e, claro, os canais, onde gondoleiros italianos transportam turistas para o centro comercial em gôndolas, sob um céu pintado que se confunde com a realidade, como se estivessemos ao ar livre, enquanto cantam O Sole Mio, Volare, e Auguri, Auguri, quando transportam noivos (a gôndola nupcial é branca e dourada como o carro do Papa) ou descobrem que algum deles faz anos nesse dia. Sempre sacam alguma gorja, além dos 15 dólares da corrida.
Gondoleiros: a arte de sacar gorjetas


A gorgeta é, aliás, uma instituição nacional na América e uma questão sensível. Se não quer ser invectivado - um eufemismo para 'jerk' ou 'fucking nerd' - e olhado de soslaio, saiba que tudo o que for menos de um dólar para o porteiro, que lhe abre a porta do táxi, dois para o taxista e 10 a 15% mínimo sobre a conta do restaurante, vai ficar com as orelhas a arder. Embora, em Las Vegas, a questão não seja tão pertinente como em NY, onde já cheguei a ser perseguido até à porta pelo empregado por não ter gratificado depois de ter sido servido mal e porcamente.
Mesa de Craps no Casino (copyright Venetian Hotel)


O amplo casino do Venetian está sempre em efervescência e tem bom ambiente de jogo. À volta de uma mesa há pessoas de todas as raças e estratos sociais.



E vale a pena visitá-lo, mesmo que não jogue, ou sobretudo se não joga, quanto mais não seja para andar de cabeça no ar a olhar para os maravilhosos frescos dos tectos.
Tectos pintados em estilo renascentista da nave central do Venetian
Cúpula da entrada principal


Ou para jantar no restaurante Postrio, de Wolfgang Puck, abrindo as hostilidades com umas amêijoas 'quase' à Bulhão Pato.
Restaurante Postrio de Wolfgang Puck


Em Las Vegas, há de tudo para todas as bolsas: desde o tradicional hambúrguer ou cachorro comido em andamento, com as mãos a escorrer molho amarelo e vermelho; o buffet para os que têm mais barriga que olhos e enfardam comida para o dia todo como os camelos bebem água para aguentar a travessia do deserto; as pizzarias mais ou menos sofisticadas e os restaurantes de luxo e super luxo onde uma garrafa de vinho pode custar 3.000 dólares, e se vende também vinho corrente ao copo a 10 dólares.


O mesmo se pode dizer da indumentária: gente bonita vestida por Armani cruza-se nos corredores apinhados de hóspedes que arrastam malas com a turbamalta vestida pela Nike, de chapéu de pala virada para trás, enquanto as mulheres empurram carrinhos de bebé e reformados passeiam de mão dada, revivendo vidas passadas ou de cadeira de rodas motorizada com botija de oxigénio: ao contrário dos portugueses, que se reforma e deixam morrer devagarinho, os americanos recusam-se a parar, porque isso significa morrer e na América não se morre - até os mortos são embalsamados para parecerem vivos durante o velório que mete comida, copos, música e, em Las Vegas, jogo!....


Pense no metro em Lisboa à hora de ponta e fica como uma ideia razoável do movimento no Venetian. Mas cada um está na sua e ninguém implica com ninguém, lança olhares críticos ou faz comentários.
JVH em frente ao Venetian de Las Vegas, para mais tarde recordar


Eu estava na minha também: press badge ao peito, máquina à tiracolo e o abençoado e exclusivo trolley com rodinhas, cortesia anual da Toshiba, que fazia parte do kit fornecido aos jornalistas (tenho um para oferecer ao leitor que enviar o melhor comentário sobre a reportagem, assim como um sampler CES 2007 da DTS para o segundo) e que eu levei de casa, pois já sabia que este ano seria substituído por uma mochila que, ao fim de uma hora de recolha de catálogos, brochuras e white papers pesa uma tonelada. Se o trolley tivesse conta-quilómetros, teria registado uns bons 50 quilómetros a pé no fim da reportagem…
Gondoleiros aguardam clientes no Grande Canal ao ar livre (este céu é mesmo verdadeiro, nota a diferença?...)


O alojamento do High Performance Audio no Venetian trouxe óbvias vantagens para todos: os distribuidores dispunham de salas maiores com o luxo consentâneo com os preços e qualidade dos equipamentos; os visitantes não tinham de andar dentro e fora, como no Alexis, sujeitos aos caprichos do tempo (há dois anos, se bem se lembram nevou em Las Vegas!), embora já fosse discutível a opção de instalar os expositores que não couberam nas amplas salas de conferência dos 3 pisos inferiores de serviços, pelas suites dos andares 29, 34 e 35, obrigando-nos a formar fila para os elevadores.


Sala principal da Vienna Acoustics (ver Vienna Acoustics Reference)


As suites eram magníficas, e marcas como a Soundlab, Sonus Faber, TAD, Vienna Acoustics puderam, finalmente, cumprir a promessa de som highend em ambiente de 'show'. Claro que daí resultaram também situações caricatas que observei em algumas suites duplas, como a de estar a ouvir música na sala e ter a cama feita logo ali ao lado ou até o jacuzzi! E não foram poucas as vezes que me apeteceu utilizá-los…



Fiz 600 fotografias e visitei mais de 200 fabricantes em quatro dias! Trouxe comigo informação que dava para manter o Hificlube actualizado durante dois meses. Mas hoje em dia o leitor online está assoberbado de informação, muita dela já veiculada por múltiplos sites internacionais (há milhares de jornalistas dos quatro cantos do mundo a cobrir a CES), pelo que vou optar por dar aos leitores aquilo que eles, de facto, ainda não leram em nenhum lado: a minha opinião sobre os melhores e os piores sons; as maiores surpresas e desilusões; as coisas mais bonitas e as mais esquisitas ou mesmo loucas; aquilo que funciona na prática e o que só funciona em teoria (conversa da treta não falta aos fabricantes de highend…); e só depois, saciada a curiosidade inicial e a ânsia de novidades, irei percorrer com todos vós, o habitual caminho de A a Z.

Sempre com o prazer da escrita, o amor ao áudio e o respeito pela verdade sem esquecer os interesses dos leitores e distribuidores que em Portugal lutam por manter a chama acesa.