2006

Halcro Logic Mc20: 20 A Matemática!



Soube do projecto Logic muito antes de os MC terem chegado ao mercado. Na altura era apenas uma teoria que germinava na cabeça fervilhante de Bruce Candy. Mas quando ele apresentou em Outubro de 2004, na Convenção da AES, em S. Francisco, o complexo “white paper” sobre a tecnologia Lyrus elaborado em conjugação com o Departamento de Matemática da Universiade de Adelaide (os barras em matemática podem abrir o pdf no topo da página, os outros, desde que dominem bem o inglês, podem ler uma descrição mais simples aqui), já David Pope visitara Portugal, em Setembro, divulgando os planos da Halcro para comercializar sistemas AV-multicanal num futuro próximo com amplificação de Classe D.



Nota: o Hificlube publicou aqui a notícia da visita e as fotos dos novos componentes que, segundo Pope, não se ficavam nada atrás em qualidade de som em relação aos famosos Halcro dm58/68.



Quando mais tarde testei os dm58, tornou-se claro no meu espírito que, se os Logic eram a “cópia em Classe D” dos dm, o mundo só podia estar à beira de uma revolução tecnológica no campo da amplificação de áudio.



Na CES 2005, assisti, em audição reservada a convidados, à apresentação do processador SSP8, mas, ao contrário do anunciado, a amplificação foi toda com base em 16 (leu bem: 16!) amplificadores da série dm. David Pope confidenciou-me, na altura, que Bruce não queria lançar os Logic sem ter resolvido todos os problemas técnicos (e persistem alguns). Por outro lado, por razões logísticas, a Halcro pretendia montar todos os dm já encomendados e adaptar depois a linha de montagem para os Logic, sem ter assim de aumentar as instalações e contratar mais pessoal.
Halcro Logic MC20


Finalmente, dois anos depois de David Pope me ter deixado com água na boca (e com vinho também, num memorável almoço no Porto de St.ª Maria, no Guincho), a Esotérico teve a amabilidade de me deixar conviver com os Logic, não dias, não semanas, mas longos e deliciosos meses…



Contudo, só agora me foi possível alinhavar estas linhas sobre o desempenho do Halcro MC20, tendo como pano de fundo o conjunto AV-multicanal SSP100/MC50, que merecem um capítulo especial. É que há produtos que não se deixam caracterizar com três penadas, adoptando o comportamento do camaleão que se adapta às situações, confundindo-se com elas e desaparecendo de cena como por milagre.
Os módulos de amplificação Lyrus têm saídas balanceadas e não balanceadas.


Ao contrário dos Nuforce e Bel Canto, os Halcro Logic não exploram as potencialidades da Classe D para a “miniaturização”: o MC 20 é um amplificador estéreo “full-size” com 43 x 18 x 41 e 21 quilos de peso (!) com uma potência máxima de 400W sobre 4 ómios. E não é nada barato (contactar a Esotérico), isto se nos esquecermos que tem a mesma origem genética dos dm. Quando o preço de um dm68 ou 78 entra na equação, os Logic são quase de borla para quem sempre sonhou ter um Halcro a qualquer custo.



Quando publiquei o teste dos NuForce, descrevi de forma sucinta o funcionamento de um amplificador de Classe D. Já vimos que, ao contrário do que se pensa, o “D” não significa “Digital”, sendo a única semelhança o facto de os Mosfets de saída do circuito “push-pull” estarem totalmente “activos” ou “inactivos”, on ou off, tal como na tecnologia de conversão digital, dispensando a regulação da corrente quiescente (bias), o que os torna muito eficientes. Na Classe D, a necessária modulação do sinal de saída faz-se tradicionalmente por meio de uma portadora de onda triangular de alta frequência. E é aqui que a porca torce o rabo: primeiro, porque é preciso no final eliminar a portadora (e já se viu que não é nada fácil); depois, porque, segundo Bruce Candy descobriu (ver pdf), a onda triangular da própria portadora se altera no tempo tornando-se assimétrica e produzindo distorção que afecta o sinal áudio sobretudo nas altas frequências.



Uma das soluções é filtrar a distorção resultante no sinal áudio, a outra é corrigir o problema na origem, ou seja, criar um circuito que devolve a simetria à portadora. Bruce explica isto muito melhor do que eu no “white-paper” (leia e…boa sorte!).



Para o leitor médio do Hificlube, o que interessa saber é o resultado prático da teoria de Bruce Candy aplicada ao Halcro Logic MC20. Sendo maior, mais pesado e mais caro que os seus concorrentes mais directos, será o MC20 também melhor que o NuForce 9SE e os Bel Canto M1000?



De repente, sinto-me com a Carrie Bradshaw, do Sexo e a Cidade, que faz a si própria perguntas sobre questões sentimentais (leia-se emocionais) e tenta responder-lhes depois, literalmente, na prática, nem sempre com os resultados mais desejáveis. Na vida, as coisas não são nada lineares, o mesmo se passa com os amplificadores, por muito…lineares que sejam. Há sempre encontros e desencontros. Às vezes gostamos ou não de uma pessoa sem saber bem porquê. Para mim foi mais fácil saber o que me agradava/desagradava no NuForce SE e nos BelCanto que nos Halcro Logic, daí ter esperado tanto tempo até me decidir a publicar a minha opinião.



Uma solução airosa seria declarar que o MC20 está algures no meio dos outros dois, o que seria declarar pouco ou nada. De facto, o MC20 não é tão “seco” como o NuForce nem tão “encorpado” como os BelCanto, e pronto. Mas isso é uma forma de fugir com o rabo à seringa. A verdade é que todos eles partilham da mesma característica típica da Classe D de reproduzir sons a partir de um estranho patamar de silêncio, tornando óbvios pormenores que, com a maior parte dos amplificadores convencionais, parecem estar envoltos numa bruma misteriosa ainda que por vezes agradável e envolvente, vulgarmente designada por eufónica. Os amplificadores de Classe D não são “eufónicos”, e dizem-nos na cara o que gostamos e não gostamos de ouvir.



Neste aspecto, o Nuforce (em especial a versão 9.02) é o mais franco do lote: o grau de transparência, sobretudo nas oitavas inferiores, é tão surpreendente que se ouvem coisas inauditas, passe a contradição, como, por exemplo, distinguir as diferentes camadas da mistura de som no estúdio.



O BelCanto M1000 é um pouco mais fechado e redondo. Mas é dos três o que nos dá maior sensação de potência, talvez porque o som tem mais “densidade” específica. Embora não tenha a articulação e velocidade do NuForce (soa mais lento), o grave do Bel Canto constitui uma estrutura mais sólida, não no sentido de músculo mas de peso e volume. Os registos médios e agudos são mais do mesmo a diferentes frequências. Talvez por isso seja o meu preferido para audições prolongadas, quando me dispo das funções de analista.



Já o som do MC é mais leve e etéreo: o grave não soa tão presente como o do Bel Canto, nem é tão tenso e extenso como o do NuForce, como se não pretendesse mais que ser uma extensão perfeita dos registos médios em termos de claridade e transparência: a riqueza de informação minimalista não cessa de me surpreender, e é sobretudo nos silêncios, nas pausas, que a sua origem genética se torna mais evidente.



Quando tive o sublime prazer de testar (também sem limite de tempo, e por isso saúdo daqui João Cancela pela sua paciência e amabilidade) escrevi, entre outras coisas, o seguinte:



“O que é paradoxal nos Halcro é o facto de a equação musical não se resolver com subtracções: os sons ouvem-se melhor individualmente e continuam a fazer sentido em conjunto. Árvore e floresta são aqui um todo orgânico. Há uma lógica intrínseca na performance dos Halcro que é nova no mundo do highend e pode escapar numa primeira análise”;



Ou ainda:



“O grave dos Halcro revela uma «parcimoniosa secura»: a ausência de coloração pode facilmente ser confundida com ausência de «maldade», de violência, de «raw power». Mas a definição, articulação, ritmo e, em especial, o entrosamento acústico e a total harmonia da inusitada paleta cromática dos sons de baixa frequência cedo embalam o ouvinte na sublime narrativa do processo musical em curso. O que mais impressiona nos Halcro é a velocidade e a dinâmica: do sussurro sensual (o silêncio intersticial é «ensurdecedor») à «explosão» de sentimentos (é incrível a quantidade de informação disponibilizada) vai o tempo de um momento. Outro aspecto é a dinâmica dentro da dinâmica: os micro elementos dinâmicos, ao nível do médio-grave e do médio-agudo, e o recorte harmónico fino que conferem aos sons a tangibilidade e verosimilhança física”.



Hélas, o MC 20 não é o dm58, joga num campeonato diferente, o “voicing” é, contudo, o mesmo, se é que se pode “afinar” as cordas vocais de um amplificador do mesmo modo que o enólogo “afina” o vinho. É sobretudo nos registos agudos - lá, onde o Nuforce é de uma estranha doçura adstringente e o Bel Canto M1000 adoravelmente tímido e sedutor - que o MC20 se distingue dos seus pares de Classe D: o MC20 parece ter, não só mais extensão subjectiva como mais “substância” musical, algo que só estou habituado a ouvir em amplificadores como Krell Evolution, Spectral e, claro, os Halcro da série dm.



É esta qualidade do “agudo”, rara, muito rara, na Classe D, que está presente também no modelo multicanal MC50, que torna excitante a simples perspectiva, longamente adiada por motivos de saúde (e agora, porventura, já não-concretizável, mea culpa caro João Cancela, pela qual me penitencio) de ouvir bandas sonoras de cinema sem o tradicional frenesim do terço superior do espectro.



Com os Halcro Logic, Bruce Candy provou o que já se suspeitava: a música e a matemática são as duas grandes linguagens universais - e não se excluem mutuamente antes se completam, talvez porque, como alguns defendem, são uma e única grande linguagem universal.



E pensar que eu detesto matemática e adoro música. Vá-se lá saber porquê?...