2006

Audio Research Cd 7 Reference - Parte 2



O CD 7 FAZ CHORAR OS GIRA-DISCOS


Ricardo Franassovici apresentou-me o CD7 como 'o único leitor-CD que faz chorar os gira-discos'. Pode alegar-se com propriedade que Ricardo está ligado à marca, logo é juiz em causa própria. Mas ele também está ligado a outras marcas famosas - e não menos cotadas no contexto mundial - e eu nunca o vi tão entusiasmado, mais ainda quando é do conhecimento público que ele próprio tem um gira-discos Goldmund Reference e uma colecção de mais de 5 000 LPs. Além de que também é distribuidor das famosas células Koetsu. Sabe, portanto, muito bem do que está a falar e tem plena consciência do peso das suas palavras.


Também eu gostei do CD7 logo da primeira vez que o ouvi integrado num sistema composto por McIntosh MC2200+Krell FPB400cx+Cabos Nordost Valhalla+Martin Logan Odyssey. Mas admito que não consegui perceber o alcance da expressão 'fazer chorar os gira-discos' utilizada por Ricardo Franassovici, isto se considerarmos que uma das minhas referências fundamentais foi - e ainda é - o som que ouvi há quase 20 anos em Londres, em sua casa, a partir de um LP de Willie Nelson, reproduzido no tal Goldmund Reference, com amplificação Jadis e colunas Sonus Faber (ainda em protótipo, naquela época longínqua...), numa inesquecível visita, cuja reportagem publicada na revista Imasom é ainda hoje apontada por muitos dos meus leitores, nomeadamente João Jarego, como tendo sido determinante na decisão de se converterem à audiofilia. Acresce que, no meu espírito, residia (e reside ainda) o efeito balsâmico da 'espiritualidade' musical do Reimyo CDP777, um leitor-CD sublime, que não é fácil de esquecer.


Entretanto, chegaram as Martin Logan Summit e, quando eu começava a 'percebê-las', meteu-se de permeio a CES 2006, a viagem a Las Vegas e a respectiva reportagem, enquanto o CD7 jazia frio e arrefecia (nem eu sou louco para o deixar ligado durante tanto tempo). Resumindo: a audição 'oficial' do CD7 só teve início depois de eu ter assinado um 'pacto de não-agressão' com as Summit, cujo grave me deu água pela barba (teste a publicar em breve), pois foi preciso 'convencê-las' que não estão na América, que as nossas salas são mais pequenas (a minha pelo menos é) e, com música (o mesmo não se aplica necessariamente à banda sonora dos filmes), nem sempre 'mais' grave significa 'melhor' grave.


O McIntosh C2200 tem a desvantagem (?) de intrometer ainda mais válvulas no caminho do sinal, que adicionam a sua quota parte de 'carácter'. Mas a este, conheço-o eu bem, pelo que sou capaz de isolar mentalmente o seu contributo. Por outro lado, o 'Mac' tem a vantagem do 'trimming' das diferentes entradas, eliminando-se da equação as diferenças de nível entre fontes, cabos e topologia simples ou simétrica, leia-se balanceada, que pode soar 3dB mais alto, embora eu tenha preferido as saídas RCA:as saídas balanceadas do CD7 ganham em tensão o que perdem em emoção. Ou talvez porque os Nordost simples soam melhor que os balanceados; ou, uma hipótese ainda mais plausível, porque as entradas XLR do MC2200 são pseudo-balanceadas. Nestas questões, prefiro evitar o dogmatismo arrogante das certezas inquestionáveis...


A minha experiência diz-me que a maior parte das pessoas tem tendência para considerar 'melhor' o componente que soa 'mais alto', em termos de volume, que não de frequência, entenda-se, embora o tipo de equilíbrio tonal que favorece os registos médios seja também muito apreciado pelos ouvintes desprevenidos, pois realça a claridade e o enfoque, logo a sensação de presença. Quando os níveis são aferidos com um sinal de teste de 1kHz, a maior parte das diferenças desvanece-se como que por magia.


Uma boa montagem, afinação e escolha de cabos parece volatilizar tudo o que é acessório (e se encontra em 'suspensão acústica' no ar do palco sonoro). Só assim a verdadeira substância do som se liquidifica, numa primeira fase; e depois se solidifica na forma de imagens tridimensionais, que se vão moldando e adaptando ao ritmo da música como entidades autónomas providas de personalidade própria.


Contudo, apenas alguns eleitos, como é o caso do CD7, permitem que a crisálida musical passe do estágio larvar, sólido e palpável, sem dúvida, mas ainda informe e sem a milagrosa beleza esvoaçante da borboleta colorida, que se solta do 'casulo' imposto pelas colunas para gozar a merecida liberdade de expressão, voando num palco sonoro amplo, onde há luz, ar, sons, cores e o ritmo das estações musicais se pauta apenas pela dinâmica da natureza e a batuta do Criador.


Todos os leitores-CD, processadores e conversores que se acolhem sob o meu tecto, mesmo que por breves períodos de tempo, são sujeitos à mesma prova de fogo: a comparação com o Chord DAC64 original, que é do tempo em que as fontes comutadas ainda não tinham sido impostas pela UE. São poucos, muito poucos mesmo, os que conseguem transmitir-me a mesma sensação de presença física, de tangibilidade, de espiritualidade até, e, sobretudo, de grandiosidade - uma virtude que é também o seu maior defeito e se manifesta como uma propensão congénita para 'engrandecer' a panorâmica da imagem geral, que afecta a dimensão física (e psicológica!) dos que a habitam, dependendo embora em grande medida das características da gravação.


De facto, no contexto da eterna dicotomia emoção-razão, o DAC64 favorece a primeira, por vezes à custa de uma menor delineação e recorte que admito ser uma qualquer forma de distorção benigna que torna o ar mais espesso e filtra a luz, conferindo-lhe a tonalidade quente do entardecer. Até agora só um leitor-CD tinha conseguido oferecer-me o equilíbrio perfeito (ou quase, porque o tempo e a experiência tornam-nos mais exigentes) entre emoção e razão: o Reimyo CDP777.


Seria de esperar que o CD7, tendo um andar de ganho a válvulas, fosse um 'emotivo' por natureza. Não é. Com o CD7, a emoção da audição é-nos transmitida, não pela exibição pública da sua natureza intrínseca, mas pela excepcional transparência do excipiente acústico, pela claridade única com que expõe a miríade de elementos do corpus sónico: do mais ínfimo pormenor - que antes era difícil de descortinar naquela mistura gasosa típica das consolas digitais dos estúdios de gravação - ao elevado grau de 'efeito-surpresa' proporcionado pelo ataque dos sons transitórios de percussão, num processo que nos arrasta para o turbilhão incontrolável das nossas próprias emoções, até se atingir a catarse individual associada à experiência vivida do pathos trágico: ó, deuses do Olimpo, a tragédia de poder ouvir o CD7 e não o poder possuir!...


Nota: este mesmo exemplar estará ainda esta semana em demonstração na Delmax, na Rua da Madalena, 237, 1ª Dt., em Lisboa ( 218 879 115).


Teria sido fácil para mim caracterizar o som do CD7 em poucas linhas: médios recortados, claros, presentes e informativos; grave poderoso, tenso, intenso e extenso; e um agudo que pode fazer soar o sinal de alarme com discos que sofrem de digitalite aguda. Mas isto não seria mais que o texto formatado de um horóscopo que se pode aplicar a qualquer signo, leia-se, a qualquer leitor-CD de qualidade.


Há muito quem use esta técnica de escrita: guardam-se nacos de prosa alheia no congelador do disco rígido, que se 'descongelam' depois à medida das necessidades do momento, como a cartomante que baralha para dar de novo até acertar no 'futuro' que mais agrada à cliente. E eu dou comigo a ler-me, lendo outros, numa desconcertante experiência espírita de 'fora-do-corpo'…


Com a cessação abrupta da minha colaboração semanal com o DN, a total liberdade de expressão permite-me agora escrever ao correr da pena (talvez por isso hesite em aceitar uma proposta irrecusável), sem constrangimentos de espaço, como nos gloriosos tempos da Imasom e dos saudosos primórdios da revista Audio.


Aqui tenho tempo e espaço para explicar que um 'agudo' politicamente correcto é também muitas vezes um 'agudo' coarctado na sua expressividade, e não apenas em termos 'fonéticos' (a articulação das sibilantes e fricativas) e 'harmónicos' (a sensação de que a doçura foi obtida à custa da extensão), mas também 'físicos': o 'ar' torna-se rarefeito à medida que nos aproximamos do cume; o cérebro tem então dificuldade em concentrar-se, e o ouvinte perde o sentido de 'orientação', à medida que os objectos acústicos perdem por sua vez definição e recorte, logo a localização precisa no palco sonoro, e se confundem com a paisagem acústica envolvente.


A extrema precisão do enfoque do CD7, a partir da qual se pode facilmente desenhar a carta topográfica do palco, não se deve apenas, pois, à excepcional transparência e claridade dos registos-médios, é sobretudo determinada pela 'ligação afectiva' (a passagem de testemunho nas zonas de transição é rápida e suave como a de uma equipa de estafeta numa final olímpica), de tal modo que as áreas adjacentes do espectro não parecem ser mais que a sua extensão natural, patente na sempre difícil descida ao inferno das oitavas inferiores, com passagem pelas escarpas afiadas do médio-grave, onde o mínimo deslize pode provocar uma derrocada de todo o edifício sonoro, com ressonâncias que afectam o discernimento auditivo e nos impedem, por exemplo, de seguir uma linha de baixo coerente e musical, ou de nos perdermos na lascívia da vibração de uma corda de piano a que só a súbita intervenção de um pedal pode roubar a eternidade. Uma boa transição significa ausência de socalcos, desvios abruptos do curso de água límpida dos sons ou irregularidades dramáticas de iluminação, se bem que a boca do palco seja aqui favorecida pelos holofotes, limitando a sensação de profundidade na justa medida em que aumenta a sensação de presença.


Pouco a pouco, a enigmática expressão de Ricardo Franassovici 'o CD7 faz chorar os gira-discos' começou a fazer sentido no meu espírito. Eu tinha procurado sem sucesso o significado quase filosófico da expressão na típica 'florescência' do som analógico; au contraire, o som do CD7 revelou-se sempre sólido, coeso, coerente, preciso e recortado como é apanágio do transporte Philips Pro 2, e sem que as válvulas fizessem sequer sentir a sua presença sob a forma daquele característico halo de luminosa envolvência e dúbia definição.


PACE, RHYTHM AND DYNAMICS


É, pois, no ritmo - um misto de dinâmica e sintonia temporal - que se deve procurar a chave desta cabala mágica. O Audio Research CD7 é a consecução da notável tese de Martin Colloms, publicada em 1992 intitulada 'Pace, Rhythm and Dynamics', que pode ler nos arquivos da revista Stereophile. É esta, pois, a principal característica que distingue o CD7 na reprodução de CD e o aproxima assim do LP: a noção rara de tempo musical.


Eu diria mesmo que o Audio Research CD7 é a realização impossível no reino digital da utopia audiófila da superioridade do analógico. E agora em inglês para que todo o mundo entenda:


The Audio Research CD7 is the impossible achievement in the digital realm of the audiophile utopia of analog superiority.