2005

“tube Swapping”



Verão é canícula e incêndio. É praia. Mergulho e refresco gelado. Sons “cool”. Música de discoteca. Só um masoquista como eu aproveita uma tarde de 40 graus para deixar o carro nos Restauradores e ir a pé até à Delmax, na Rua da Madalena, para ouvir os novos amplificadores Prima Luna Three (prévio) Four e Five.
Sala da Delmax, com os PrimaLuna Three e Four em primeiro plano e as Guarneri em fundo


Felizmente o Rui Borges recebeu-me com amizade, ar condicionado e uma água tão natural como o som das válvulas. E conversa audiófila gostosa. E também gira-discos que o Rui constrói de raiz; ou outros, como os Thorens velhinhos, que ele recupera com carinho da morte sempre anunciada e nunca declarada.


O Rui debruçado sobre o seu último milagre da vida analógica: mais um Thorens clássico recuperado.
Nova caixa rígida do Thorens em primeiro plano


As válvulas e os giradiscos continuam a ser um mistério. Como é possível que tecnologias do passado tenham um som tão actual? Há coisas que não se explicam: a eventual candidatura de Soares é uma delas. Quanto mais velho?... Ou será apenas a nostalgia romântica dos anos 60?...



Os amplificadores a válvulas distorcem com mais graciosidade que os transístores, razão pela qual a maior parte dos grandes guitarristas de rock os preferem. Não porque o rock seja gracioso, mas porque a “headroom” dá mais margem para a expressão musical. Há quem diga que as válvulas distorcem a realidade, que a apresentam sob um manto diáfano de coloração (política?). Ou então que favorecem a grande gama média de frequências em detrimento dos extremos, isto é, que tomam partido quando nos dão música. Além disso, são maus no que diz respeito a números (leia-se especificações técnicas). Tal como Soares: milhares? milhões?, que interessa?, o que conta são as pessoas! E afinal, ei-los, elas e Ele (assim mesmo, porque depois desta 'ressurreição' só mesmo com maiúscula), de novo na ribalta, depois do anúncio da sua morte ter sido manifestamente exagerado. Se lhe perguntarem se pensa algum dia vir a comprar um amplificador a válvulas, nunca diga nunca...



A VOZ DO POVO


Por meio de processamento digital, é hoje possível imitar o som de qualquer instrumento ou conjunto de instrumentos. Um sintetizador sofisticado reproduz o som de um saxofone, de um violino, de um trompete, ou até de um naipe de cordas ou metais. E com tal perfeição que engana qualquer um. Os políticos “sintéticos” também fazem passar a mensagem. Aliás, a maior parte das bandas sonoras de filmes são hoje compostas, não para grande orquestra, mas para sintetizador. Como o nome indica, o sintetizador “sintetiza”. O resultado é um som “sintético”: falta-lhe o elemento humano. Como é que se imita o ligeiro apertar da palheta do saxofone com os lábios; ou a pressão da língua no bocal do trombone; o afagar sensual das teclas do piano; a visceralidade do ataque à pele?


O som é em tudo idêntico ao de um violino autêntico? Talvez. Contudo, tente o sintetizador reproduzir uma voz, e o nosso ouvido detecta de imediato o logro. Porque está biologicamente “afinado” desde o útero para o som da voz humana. Os computadores identificam facilmente vozes: é fulano. E nós a deles: é uma máquina, não é uma pessoa. E no entanto, eles são tão bons com números...


Só que nós somos gente...



ORA AGORA VIRAS TU


Para mim a grande vantagem das válvulas reside na liberdade de escolha e na “alternância” democrática. Eu explico:



Já ouviram falar nos “swingers”? Não me refiro aos cantores de “swing” mas aos casais que trocam de par como os governos trocam de ministros sem remorsos (os governos e os ministros nunca são responsáveis pelas suas acções - nós sim). Os audiófilos fazem o mesmo com as válvulas. Mas, neste caso, a mudança é reversível: ainda que deixe também profundas marcas emocionais...



Nos EUA, chamam-lhe “tube swapping”, e consiste em substituir as válvulas de origem por outras equivalentes consoante o tipo de som que se pretende. As válvulas são como os rebuçados: cada cor seu paladar. Há quem pense que os amplificadores, e, por extensão, as pessoas, deviam ter todos o mesmo “paladar”, já que impor a mesma cor seria, no mínimo, inconstitucional.
PrimaLuna Prologue Five (estéreo)


Por razões económicas, quase todos os fabricantes utilizam hoje válvulas chinesas ou de países de Leste. Imigrantes de fora da UE, portanto. Os holandeses PrimaLuna Three, Four e Five, que ouvi e gostei na Delmax, acolitando um par de colunas Sonus Faber Guarneri (que saudades que eu tinha delas, meu Deus!), não são excepção. E, contudo, soam muito bem assim. Aquele “Belafonte At the Carneggie Hall” em LP é de ouvir e chorar por mais. Se nunca foi ao Carneggie Hall, vá à Delmax: it's the next best thing. E peça para ouvir este LP no Rui Borges Turntable Ultimo, que ele construiu com as suas próprias mãos. O elemento humano que nos faz sentir bem na Delmax.



Os “swingers”, ou “rollers”, como os Americanos preferem chamar-lhes, podem substituir no prévio PrimaLuna Three as 12AX7 de origem por ECC83/803S, E83CC, 7025, CV4004 e 5751 de “baixo-ganho”; e as 12AU7 por ECC82/802S, E82CC, 5814, 6189 ou CV4003. E, no Prima Luna Five, as KT88 originais por 6550, KT90, EL34, 6L6CC, 7581A ou KT66, variando assim a potência e a “cor” (tonalidade) do som. E só precisam de um par de luvas e um pouco de paciência e jeito. Vão lá fazer isto com um amplificador a transístores!...



O FUTURO É A EUROPA


Fiz há pouco tempo uma operação de “tube swapping” num prévio McIntosh C2200, com resultados fantásticos em termos de informação, micro e macro dinâmica e, sobretudo, de “nuance”, essa inefável e delicada sensação de informação subliminar. Para o efeito pedi conselho a José Martins, da JMAudio (93 649 4793), um importador especialista nesta área, e a resposta veio rápida: ”no andar de linha proponho a substituição das válvulas chinesas de origem 12AX7 e 12AT7 por ECC801S da Telefunken (produção especial) e 12AX7S da Radiotecnique”.
José Martins preferiu as europeias (e caras) Radiotecnique (francesas) e Telefunken (alemãs) às Golden Dragon (chinesas), Sovtek (russas) ou Svetlana (ex-Jugoslávia). Tal como Soares, é um europeísta radical, que continua a acreditar nos valores (e nos custos elevados) da velha Europa socialista do eixo franco-alemão do tempo de Miterrand e Willy Brandt.



Portugal precisa urgentemente de um “swapping” do velho modelo social europeu, porque a coisa está a começar a distorcer e vai acabar por estoirar...


Só desejo que, no futuro tecnocrático que nos espera a todos, os robots-governantes não sejam totalmente transistorizados. Que tenham ao menos uma válvulazinha acesa no coração. Humaniza-os. E nós somos gente. Ainda.



Delmax, Rua da Madalena 237, 1º Dt.º, telef. 218 879 115 . delmax@iol.pt


Nota: Os PrimaLuna são distribuidos em POrtugal pela IMACUSTICA