2005

Denon Pma/dcd-sa1 - Teste Integral - Parte 5: Discos



As notas referem-se à audição em estéreo, embora muitos dos discos sejam multicanal. Fiz uma ou outra comparação estéreo/multicanal, utilizando o conjunto PMA/DCD-SA1; e o conjunto Sony XA777ES/Krell Showcase para multicanal.



Para uma melhor compreensão das notas, eis um breve glossário:



SACD/DSD - matriz original em estéreo c/ conversão DSD directa


SACD/PCM - a mesma matriz convertida para PCM (só possível com o DCD-SA1)


SACD/CD - a matriz CD dos discos híbridos


SACD-Multi - a matriz SACD multicanal


CD - a matriz CD da edição em CD convencional


TELARC, New DSD sampler: Festival Coronation March, Erich Kunzel/Cincinati Pops Orchestra/Kiev Symphony Chorus.



Notas:



Aos 1m 47s da matriz SACD/DSD, e durante cerca de 10s, ouve-se um triângulo percutido, cujo som é definido e rico em harmónicos, e sente-se à sua volta a presença do ar no local de gravação, com extrema claridade e transparência. A passagem para SACD/PCM resulta num som mais encorpado e redondo, mas também mais “abafado”, como se o percussionista segurasse o triângulo com dois dedos em lugar de o suspender. A alegada superioridade do PCM nos agudos não se verifica aqui.


A matriz SACD/CD tem uma perspectiva mais distante e, caso raro, o volume de som é mais baixo, apesar da óbvia compressão. Quando se comuta para SACD/DSD o palco abre-se, o som respira, sente-se a vibração do ar e os metais ressoam pujantes na acústica controlada do local de gravação.



A versão SACD/Multi (a Telarc serve-se judiciosamente dos canais traseiros, apenas para “encher” e conferir corpo e forma ao som frontal) dá um banho acústico em todas as versões estéreo: mais dramatismo, mais informação espacial, mais realismo.



BOB DYLAN, The Freewheelin'

Notas:



De toda a colecção da integral de Dylan em SACD (ver 'O outro lado de Bob Dylan), e talvez por ser o que tem a produção mais simples, é também o mais transparente em termos acústicos, apesar do som algo datado. Se fosse preciso um pormenor apenas para provar a superioridade do SACD/DSD sobre o SACD/PCM, bastava ouvir a harmónica de Dylan em “Blowing in the Wind”. Em DSD/PCM também a voz de Dylan soa mais fina claustrofóbica, embora surja mais focada. A história repete-se em “Girl from the North country”. O SACD/CD é muito semelhante ao SACD/DSD. E, pelo facto de ter mais compressão, soa mais alto, e Dylan ganha assim presença e projecção. Se não tivesse leitor-SACD, passava bem com a versão CD. Perdem-se apenas alguns harmónicos superiores da... harmónica de Dylan. Não muito. Até porque, sendo um registo antigo, deve ter pouca informação acima dos 15kHz.



ELTON JOHN, “Yellow brick road”, Special Edition

Notas:



Neste SACD extraordinário (ver artigo intitulado “Delicioso calvário”) há uma versão acústica de “Candle In The Wind”, quase acapella, com guitarras e coro registados em separado. A voz de Elton John, ainda fresca na altura, registada em “close-up”, tem uma presença perturbadora. Se ainda tem dúvidas sobre a superioridade do SACD/DSD, oiça a forma como o fonema “K”, no final do verso “They crawled out of the worK” é articulado. E compare depois com a versão em SACD/PCM. O mesmo se pode dizer da vibração das cordas das guitarras dedilhadas com “gusto” na abertura da faixa. Apenas o coro, algo espalhafatoso, beneficia do “arredondamento” da conversão PCM. O SACD/CD soa mais “encorpado” e não perde muito em claridade. As percussões soam até mais sólidas. Apenas o “ar” do estúdio é mais transparente no SACD/DSD. Algumas faixas soam algo estridentes em SACD/DSD (distorção ou saturação da banda magnética do registo original?).



A versão SACD-Multi abusa um pouco dos efeitos traseiros que nem sempre resultam bem.



Na faixa “Sweet Painted Lady”, o verso de abertura “I'm back on dry land once again”, a articulação com vibrato e ligeira suspensão rítmica do fonema “ón” na ligação da preposição 'on' com o adjectivo “dry” é mais emotivo, em termos sónicos e interpretativos, no SACD/DSD, assim como é mais “sensual” a articulação do fonema “ei” do ditongo 'ai' no advérbio “again”. Como é óbvio tudo isto está também no SACD/PCM e no SACD/CD mas a carga emotiva da interpretação não é tão distinta.



Aqui chegados, os leitores já estarão a pensar: “que raio de forma de ouvir música!…”. Mas a verdade é que um sistema que nos permite ouvir distintamente estes pormenores sem importância aparente é muito mais eficaz na transmissão ao ouvinte da referida carga emotiva que todos os sons transportam no seu interior. E o que é bom para as partes é também bom para o todo...



(Continua - Parte 6 será publicada em breve)