2004

Highend2004: Mutação Acústica




Os músicos saíram do palco enquanto a sua imagem acústica continuou fantasmagoricamente lá


As características anamórficas convidam à «personalização», descrevo-as por isso muitas vezes como mulheres: belas, feias ou apenas extravagantes. Este apelo «figurativo» torna-as particularmente fotogénicas. Para isso contribui também a imaginação, por vezes delirante, de alguns fabricantes que lhes dão formas estranhas e até algo bizarras, de mutantes acústicos.


Há quem diga que a verdade está na fonte, como Ivor Tiefenbrun, da Linn, sempre defendeu, e eu sou tentado a concordar: nem a melhor coluna do mundo pode absolver o som do pecado original. Por outro lado, a surpreendente variação entre colunas quando reproduzem um mesmo disco traz-nos de volta a uma realidade insofismável: o mensageiro pode por vezes ser tão importante como a mensagem.



Altifalantes, fitas e membranas


As propostas são tantas e tão variadas que as colunas têm de ser divididas em ordens, classes e espécies como os pássaros: activas ou passivas, de caixa, painel ou corneta (AvantGarde), convencionais, electrostáticas (Quad), de fita (Apogee) ou híbridas (Elac, Piega, Martin-Logan, etc) e até digitais (Pioneer). Todos os anos surgem novas marcas, com recurso a sólida engenharia técnica e mecânica, ou apenas fantasistas, que funcionam como as «starlets» nos festivais de cinema: é só para a fotografia. Destaco no Highend2004 as «híbridas»: Lindemann, T+A e Wiener; e as israelitas YG Acoustics (satélite+sub dedicado). E uma confirmação: as Avantgarde Trio+BassHorn aproximam-se perigosamente da perfeição absoluta. Você é virgem em áudio até ouvir este monumental conjunto de «cornetas» acústicas. Ou a importância das duas últimas oitavas para a fruição da música. Que poder musical! E tudo com um amplificador (Take 5) com apenas uma dúzia de watts...
Depois de uma década de grande sucesso, os «painéis» isodinâmicos, (como as Magnepan) ou de fita integral (como as saudosas Apogee) cederam definitivamente o lugar às colunas dinâmicas, mais ou menos domésticas, que ocupam hoje os lugares cimeiros nos «rankings» das revistas da especialidade: Wilson Audio Alexandria, JM Lab Grande Utopia, Sonus Faber Stradivari, etc.



Tira-teimas


A Acoustics Components (empresa austríaca) encenou uma comparação entre um pianista, Carlos Estopinan-Dominguez, e um violinista, Christian Buchner, ambos de carne e osso, que tocaram ao vivo uma Sonata de Mozart, seguindo-se o registo a 24-bit/192kHz reproduzido por um par de colunas topo de gama Auris (ver foto), alimentadas por um amplificador artesanal a tríodos 300B (válvulas). A pureza do timbre e a localização espacial, em especial do violino, revelaram-se espantosamente semelhantes; o piano real soou um pouco mais encorpado e tonalmente mais cheio. Mesmo assim, com toda a minha experiência, não arriscava a vida num segundo teste-cego: os músicos saíram do palco, enquanto a sua imagem acústica continuou fantasmagoricamente lá. Carlos, o pianista, confessou-me que ele próprio não notava grande diferença no timbre do piano, apenas lhe faltava a sensação física da vibração da cordas percorrendo o corpo quando tocava.


As Auris ocupam tanto ou mais espaço que um piano e, durante a audição avulsa de discos que se seguiu, revelaram uma imagem sonora algo «avantajada», pelo que a versão reduzida Incus, que me agradou no «show» amplificada por Unison Smart 845 (de novo tríodos!), mostrou ser uma proposta mais doméstica e igualmente musical.



«As Seis Melhores do Mundo»


As revistas Audio/Stereoplay encenaram um megateste comparativo: Thiel CS 7.2, Sonus Faber Stradivari, Audio Physics Kronos, JM Lab Grande Utopia, Wilson Audio Alexandria e TAD. Fontes: Leitor-SACD Accuphase e giradiscos Clearaudio Master. Prévio: Viola. Amplificador: Pass X-1000. Cabos: Fabel. Programa: uma faixa de um LP de Johnny Cash e um faixa de um SACD produzido pela Audio Physics. O LP de Cash soava (com todas as colunas!) tão melhor que o SACD que a comparação se tornou embaraçosa: «What have they done to my music, Ma?…». Eis as dúvidas sobre a importância da fonte dissipadas ao primeiro acorde da guitarra. O LP criou-me uma ilusão de palco sonoro amplo e estável, cheio de uma mistura de ar natural e reverberação artificial de estúdio (texturas diferenciadas!), com dimensões plausíveis e bem definidas, tanto em termos de largura como de profundidade e altura. Instrumentos e cantor tinham a estatura e a presença física e emotiva que experimentamos num concerto ao vivo. Cash corporizou-se na sala. E o seu espírito pairou sobre as nossas cabeças.


É no justo equilíbrio entre corpo e espírito que as diferenças entre as colunas mais se fizeram sentir. De um lado, as «emotivas»: Stradivari, Kronos e TAD; do outro, as «físicas»: Thiel, Alexandria e JM Lab. Curiosamente, a envergadura (as Alexandria e Grande Utopia são enormes e pesadas) não parece ter influenciado a avaliação subjectiva do desempenho: maior devia «soar» melhor. Isto apesar de ninguém ser «objectivamente» indiferente ao facto de o preço de ambas ser superior a 100 000 euros, enquanto o das restantes varia entre os 20 e os 30 000 euros.
As «físicas» revelaram um perfil «interpretativo» do tipo dominador e personalizado, impondo-se à música, como certos maestros que «interpretam» as partituras à sua maneira; já as «emotivas» deixaram passar a música mantendo o recato do segundo plano. Eu diria que as primeiras são mais excitantes e estimulantes; as segundas mais repousantes e musicais, na medida em que eufonia e musicalidade são sinónimos por oposição à neutralidade.


No meu painel as Stradivari foram as eleitas, tendo o grupo das «físicas» sido preterido como um todo. Mas soube depois que outros painéis optaram pelas Alexandria, ou até pelas Utopia, talvez com outro programa musical. Chostakovich tornaria de imediato óbvio que no áudio tamanho ainda é argumento quando se trata de movimentar o ar dentro de um sala ampla; algo que um baladeiro, apesar de barítono, e uma guitarra maior-do-que-a-vida não conseguirão nunca a níveis realistas. Até por isso se pode considerar o megateste inconclusivo.


Nota: a Imacústica encomendou já um par de Wilson Audio Alexandria e procura agora um espaço condigno para as demonstrar em Lisboa perante um público seleccionado. Count me in!…