2004

Ces 2004: Os Japoneses




«Ai», Jesus!

Nos folhetos que distribuem à imprensa, as declarações são normalmente bombásticas: «o som mais natural do mundo» ou «finalmente a reprodução tridimensional do som de uma orquestra».



As tecnologias utilizadas são sempre vagamente místicas ou, no mínimo, artesanais.
Na audição, cria-se um ambiente de suspense religioso, e o criador coloca-se invariavelmente à nossa frente com gestos que pretendem chamar a atenção para supostos pormenores sónicos que possam ter passado despercebidos ao ouvinte.O programa musical escolhido nunca é de difícil «interpetação».



Se, por acaso, chamamos a atenção para algo que não está bem, a culpa nunca é do equipamento mas da má qualidade da corrente de sector ou outra desculpa esfarrapada.



Iwao Furuyama é um cavalheiro simpático que faz lembrar o professor da série «Karate Kid». O seu sistema «Ai», com caixa lacada a branco e azul (será adepto da casa real de Portugal?) em forma de losango assimétrico, tem montados altifalantes de diafragma plano (a Sony já utilizou altifalantes deste tipo em produtos comerciais) e um «tweeter» baseado na tecnologia «Air Motion» de Oscar Heil.



O sistema demorou 30 anos a aperfeiçoar. E não me parece que Furuyama possa aperfeiçoá-lo durante outros tantos anos. Mas que precisa, precisa. A mim soou-me como se tivesse um cobertor por cima. Uma pessoa ouve uma «Stradivari» e depois isto, e é um «Ai» que lhe dá...



E contudo, pode ler-se no folheto: «The live and vivid three-dimensional reproduction is almost revolutionary...»



O Hallograph da Shakti
www.shakti-innovations.com(foto de catálogo)


O curioso é que esta supremacia espiritual da cultura oriental já criou adeptos no E.U.A. Um tipo chamado Steve Hoffman quer convencer-nos que se dermos $1.000 por um par de «cabides» em madeira vamos melhorar o som da sala drasticamente. Vai daí arranja uns «críticos» do tipo místico para «doirar a pílula» e publica os emails de alguns compradores no site. Mesmo partindo do princípio que eles existem, (quem era o parvo que se dispunha a admitir em público que tinha pago uma milena para enfiar o barrete?) é preciso muita fé para acreditar.


Mea culpa. Também já embarquei em algumas fantasias de Peter Belt e, de vez em quando, em desespero de causa, utilizo «ressoadores» da Harmonix. Eu acho que funcionam, mas não será o efeito-placebo?...


O Hallograph, assim se chamam os cabides, tem alguma lógica. No fundo são como um diapasão que vibra a determinadas frequências, cancelando umas e reforçando outras. Mas isso de ser eficaz em todas as salas brada aos céus...


Como jornalista, ou melhor, «cronista do áudio», como alguém me chamou, tenho o dever de informar os leitores. Se quiserem experimentar, experimentem, afinal mil dólares hoje em dia são menos que mil euros, mas depois não me culpem se ficarem «shaktiados»...