2003

O Príncipe Encantado



O DV8300 começou por ser um sapo, o que Ken Ishiwata teve de engolir depois de ter desancado forte e feio no DVD-Audio, em defesa acérrima do SACD, sempre que me encontrava num hifishow. Teias que a Bolsa tece: a Denon adquiriu a Marantz, libertou-a do jugo da Philips e abriu as portas para a «universalidade» dos leitores-SACD da marca. O DV-8300 lê todo o tipo de discos ópticos, incluindo CD-R/RW e DVD -RW/+RW (só não aceita os DVD-RAM da Panasonic). E tem todos os conversores necessários integrados, dispensando os processadores externos: SACD (DTS), CD/DVD-Audio (PCM 2ch 16/44 e/5.1 ch 24/192), Dolby Digital, DTS e MP3. Uff!


O «beijo» de Ishiwata (o guru da Marantz) transformou o sapo num belo príncipe encantado. O DV8300 tornou-se assim na melhor fonte digital áudio da Marantz de sempre no entender destes humildes ouvidos, superior mesmo ao topo de gama SA1 (estéreo), tal o salto qualitativo do som em todos os formatos: transparência, claridade e assombrosa riqueza de pormenor.


O DV8300 exibe sem pudor uma franqueza acústica que primeiro se estranha e depois se entranha: o som é seco sem ser árido ou agressivo, reproduzindo música como quem respira oxigénio puro. Não sei se é dos «chips» da Cirrus Logic ou da tecnologia HDAM, nem isso interessa aos leitores do DN. O que quer que seja, resulta:


A reprodução de SACD (estéreo) atinge a excelência: ouvi coisas nos discos que não sabia que estavam lá. Com SACD multicanal o Sony XA777es continua a soar-me menos definido mas mais cheio e envolvente (ver abaixo). Com DVD-Audio superiorizou-se ao Denon A1 considerado uma referência mundial. Esta elevada qualidade média geral é extensiva aos CD, ao nível do melhor que a Marantz já produziu: com a função CD Direct Digital comutada o som é claro, sólido, focado e incrivelmente detalhado, sem contudo o palco atingir a amplitude quase «coreográfica» da minha referência, o Chord DAC64. Já no modo «Tru-Surround» (pseudosurround em 2 ch.) perde-se em precisão o que se ganha em ambiência. No conjunto, os resultados são francamente positivos, senão mesmo surpreendentes, para um leitor polivalente.


O DV8300 é (não só mas também) um excelente leitor-DVD-Video (para a opção multiregiões e a possibilidade de «desligar» o circuito Macrovision, contacte o distribuidor ou procure na net), permitindo até corrigir todos os parâmetros da imagem.


Ao contrário do Sony XA777es, que é um leitor-SACD/CD puro e autosuficiente, o DV8300 precisa de um monitor de televisão e do controlo remoto para correr o menu de configuração. Aliás, sem televisor só por sorte se consegue reproduzir um DVD-Audio. O aparelho mantinha os «default» de fábrica (estéreo, downsampling», etc.) e o controlo remoto estava virgem. Aparentemente, este DV8300, já tinha sido utilizado mas nunca com SACD e DVD-Audio multicanal, o que é, no mínimo, absurdo, tal a excelência da sua performance. Quem o ouviu, ouviu mal…


Só não lhe chamei «Príncipe Perfeito» porque o DV8300 carrega consigo inevitavelmente o pecado original dos formatos SACD e DVD-Audio que, em alguns casos, são mesmo antagónicos. Por exemplo: é possível alterar os parâmetros da distância virtual de cada coluna ao ouvinte com DVD-Audio mas não com SACD. No que diz respeito ao «bass management», ou seja, a gestão dos graves, que é fundamental com os dois novos formatos multicanal de alta resolução, o «subwoofer» só pode estar «on» ou «off». E o par frontal tem de ser obrigatoriamente «Large». Mas pode «redimensionar» e até desligar a coluna central (e as traseiras), o que com música é normalmente uma benção: a coluna central nunca tem a qualidade do par principal.
Em ambas as opções sinto o dedo de Ken Ishiwata. De facto, o processamento digital das «distâncias» é feito sempre sob formato PCM, o que obrigaria à reconversão, logo à corrupção da pureza do sinal DSD. Quanto aos graves dos DVD-Audio, tornam-se demasiado pesados quando se utilizam colunas de banda larga+subwoofer, pelo que a opção por um par frontal de banda larga sem «subwoofer» tem lógica. O problema é quando o sistema doméstico «surround» se baseia em colunas pequenas (e são a maior parte). Se desligarmos o «sub», podemos ficar com graves anémicos. Apesar de tudo, a versatilidade do tratamento dos sinais vídeo e áudio do DV8300 só tem paralelo na sua qualidade.


Com um par de Martin-Logan Odyssey à frente, atacadas directamente por um Krell FPB400cx, o «subwoofer» é dispensável tanto com SACD como com DVD-Audio, desde que os sinais de baixa frequência correspondentes sejam distribuidos pelas restantes colunas («Sub-Off»). Com SACD multicanal, o Sony XA777es parece ter uma melhor «gestão de graves», talvez daí resulte a maior sensação de corpo e envolvimento. Com discos de alta resolução DVD-Audio multicanal, a performance do Marantz DV8300 está ao nível do melhor que já ouvi, obrigando-me mesmo a retirar algumas das minhas reticências em relação ao formato. Mantenho, contudo, a preferência pelos Super Audio CD e pela sua superior transparência. Admito que a diferença possa estar nos discos.


Se não gosta de ler manuais, um bom vendedor é fundamental para o ensinar a tirar todo o partido do DV8300, algo que ultrapassa o âmbito desta análise, tal a complexidade. Ou arrisca-se a ouvir SACD com som PCM e DVD-Audio com som Dolby Digital, convencido que está a ouvir alta resolução. Há quem com responsabilidades na matéria tenha caído nessa armadilha. Atenção: com DVD-Video pode utilizar a ligação digital ao seu amplificador AV. Mas com SACD e DVD-Audio são precisos 5(.1) cabos com fichas RCA. O DV8300 não tem a saída digital do tipo «FireWire» já aprovada. Aliás, com conversores integrados desta qualidade também não faz falta nenhuma. Sugestão: até pode utilizar um atenuador passivo para cada canal! Ou então o equipamento complementar (utilizei o excelente Krell Showcase) tem de ter as indispensáveis entradas analógicas puras não-processadas para obter os melhores resultados. São poucos os amplificadores/processadores AV que dispõem destas entradas. Se as ligar às habituais L/R/C/LS/RS do seu velho «AV» o sinal é redigitalizado: é por isso que muita gente não nota diferença nenhuma...
Recentemente, foram reveladas notícias de que, no futuro, os discos DVD-Audio serão também retrocompatíveis com os leitores-CD, tal como sucede já com os SACD híbridos, o que é uma clara mais valia para a implantação do formato. Isso e o facto de «Dark Side of The Moon», dos Pink Floyd, ir ser editado em Março em DVD-Audio multicanal e não em Super Audio CD, à revelia de Alan Parsons. É por estas e por outras que todos os fabricantes estão a adoptar o leitor-Universal: nada como estar bem com deus, com o diabo e... com os anjos.


O meu avô, que era carpinteiro, citava muitas vezes o seguinte ditado: «Quem muitas cabras toca, alguma deixa para trás...». Ken Ishiwata não deixou nenhuma cabra para trás:


DVD Video/Audio, SACD e CD são tratados com igual competência. O Marantz DV8300 é o soldado universal: tanto vai agradar a videófilos como a audiófilos. Assim os palestinianos e os israelitas se entendessem também um dia...

Distribuidor: Corel