2003

O Meu Diário - Cap. I



FORUM


Volta e meia a «crítica» é criticada e acusada de conluio, quando não mesmo de corrupção, nos muitos «fóruns» existentes na net. Tenho verificado que os debates sobre a (in)dependência da crítica revelam sempre o pior do carácter humano: a inveja e a mesquinhez, quando não mesmo a pura maledicência. Um crítico será tão bom quanto mais vasta for a sua experiência. E ela não é possível sem o contributo (nem sempre desinteressado, admito) dos distribuidores e em especial dos fabricantes. Essa ideia peregrina de que um crítico para ser isento e honesto tem de comprar ao preço de mercado tudo aquilo que testa, raia o fundamentalismo religioso. Não é assim com os discos, não é assim com os livros, não é assim com o cinema, não é assim com os automóveis, não é assim com a gastronomia e também não é assim com o áudio. Nem cá, nem em nenhuma parte do mundo. Eu sei do que falo porque privo regularmente com os mais badalados críticos mundiais, incluindo o guru Harry Pearson. Não, Harry não compra tudo o que passa pela sua casa de Sea Cliff. Para isso teria de ser tão rico como Bill Gates. Ao contrário deles, eu tenho uma vantagem: não vivo da escrita - já teria morrido à míngua. E quando digo que algo é bom (ou nem por isso)na base dessa opinião estão 20 anos de audições dos melhores equipamentos do mercado. É esse prestígio que me confere a pretensa autoridade que eu não tenho (sou apenas um audiófilo militante - e praticante).


Ser amigo pessoal da maior parte dos distribuidores nacionais e de muitos dos maiores fabricantes e distribuidores internacionais nunca coarctou a minha capacidade para «ouvir» com independência e equilíbrio. Do mesmo modo que ser do Benfica não me impede de admitir que o Porto joga mais e que Mourinho é melhor que Camacho. O facto de a maior parte das críticas serem positivas (o que no meu caso pessoal não significa que «é tudo bom»: os aspectos negativos são sempre referidos, basta ler), deve-se ao facto de eu fazer um selecção prévia: não testo tudo o que me propõem e mando para trás tudo o que não atinge os «mínimos audiófilos». Numa palavra: não perco tempo com «ruins defuntos». Por outro lado,o prestígio que ganhei como crítico de «highend» faz com que a maior parte dos equipamentos que analiso seja superlativo (no preço, pelo menos). E o highend, por definição, é normalmente «high» também na qualidade.


Nos «fóruns» a alegada independência dos participantes não passa de uma ficção ingénua. Os participantes escrevem à volta do seu próprio umbigo, ou seja, da sua experiência limitada, muitas vezes fruto apenas de leituras apressadas ou mal assimiladas (não basta saber duas coisas em inglês para ler a Stereophile ou a The Absolute Sound), quando não exclusivamente acerca do seu próprio equipamento. A tendência natural é avaliar de forma positiva aquilo que eles próprios acabaram por comprar (para não se autoflagelarem em público: reparem como quase todas as avaliações nestas circunstâncias têm cinco estrelas). Ninguém diz mal daquilo que comprou, isso seria passar a si próprio um atestado de estupidez...


AYRE/AUDIOSHOW



O teste técnico de John Atkinson, na Stereophile, ao amplificador integrado Ayre AX-7 talvez explique o que se passou no Audioshow. Mas não se deve tomar a nuvem por Juno: a equipa Ayre/Avalon sempre me suscitou referências elogiosas nas reportagens da CES de Las Vegas e estou disponível para uma reavaliação nas instalações da Videoacústica.


BOB DYLAN



O produtor de Dylan revelou que Blood On the Tracks foi originalmente registado em real-time. Eu não sabia. Mas o facto de ter considerado este o melhor SACD-Surround da recente reedição da obra de Dylan (ver «O outro lado de Bob Dylan») pode estar relacionado com essa situação ideal: os músicos todos em estúdio a puxarem uns pelo outros sempre dão outra vida à música...


CABOS



O conjunto Halcro dm8/58 revelou-me colorações em cabos e equipamento complementar que antes me tinham passado em claro. E confirmou algo que eu já sabia: os Nordost Valhalla são totalmente neutros e isentos de coloração ou carácter.