2003

Música Ao Volante



Um estudo recente concluiu que o declínio da paixão pelo hifi não se deve ao desinteresse mas às exigências da vida moderna. À pergunta sobre se ouviam música em casa, os entrevistados respondiam invariavelmente: uns que não tinham tempo, outros que não tinham espaço. O tempo é individual e passamo-lo dentro do carro: casa-trabalho, trabalho-casa; o espaço é comum e exige negociações e consensos.


Durante o jantar, vê-se o telejornal; após o jantar assiste-se à novela. Depois, já é tarde: os miúdos estão deitados e, no outro dia, é preciso levantar cedo para enfrentar o trânsito. Ouvir música noite dentro está fora de questão. E, mesmo que se viva sozinho, há sempre a oposição dos vizinhos nas reuniões de condomínio: as portas que batem, os cães que ladram, o hifi que está alto...


A máquina do tempo moderno é o automóvel onde tempo e espaço não sofrem os efeitos da lei da relatividade. Dentro do carro há tempo de mais e espaço de menos: a solução é aproveitá-los o melhor possível, ouvindo trovas ao tempo que passa num sistema car-audio que faça desaparecer os limites da exiguidade do espaço.


Para o provar a Pioneer reuniu 50 jornalistas europeus na sua sede em Antuérpia onde exibiu a colecção Primavera/Verão 2003 de sistemas car-audio, que pretende dar corpo ao novo lema: sound.vision.soul, porque, como diria Pessoa, tudo vale a pena quando a alma não é pequena, pois quanto ao som e à visão, a Pioneer provou que está atenta às necessidades do mercado.


A Pioneer tem consciência que o segredo das vendas reside na qualidade dos vendedores e da sua capacidade para auscultar e resolver os desejos dos consumidores. Ao contrário do «feed-back» acústico, o «retorno» dos que estão em contacto com o público é fundamental. Assim concluiu que o design e a funcionalidade do «rádio» do carro é tão ou mais importante que a qualidade do som. Mais ainda se o design for personalizado, adequando-o a diferentes necessidades e grupos etários. Mais atractivo e barato para os jovens, mais sóbrio para os que já ultrapassaram a fasquia dos quarenta. Eu, que me enquadro neste último grupo, fiquei encantado com a sobriedade «high-tech» do modelo DEH-P77MP, um protótipo com painel em alumínio sólido que me deixou com água na boca. Os mais jovens irão porventura preferir a «pirotecnia» luminosa de modelos mais atrevidos e baratos como o DEH-1500R, o DEH-P3500MP, com leitor-MP3 incorporado, ou o DEH-P5500MP (MP3 e WMA), enquanto aspiram (e suspiram!) a possuir o topo de gama DEH P6500R, com igualização automática preprogramada EQ-EX e nivelador de compensação do ruído exterior, ecrã de luz orgânica, que permite personalizar o mostrador com «screen-savers» activos, e plataforma de controlo de equipamentos externos, como rádio-DAB, leitor-DVD e sintonizador TV-satélite para entreter os miúdos no banco de trás. Se não gostar dos gráficos 3D ou do «screen-saver», pode fazer o «download» de outros por meio do PC-Link. Simples.


Na base desta «oferta ampla», está a necessidade imperiosa de fazer frente à actual política dos construtores de automóveis de estabelecerem contratos com fabricantes de «car-audio» avulso (OEM) que colocam o comprador perante o facto consumado. Assim, a nova colecção «car-audio» da Pioneer abre duas frentes de batalha: tentar provar que pelo mesmo preço faz melhor e que faz melhor a qualquer preço.
Todos os novos modelos para 2003 integram, além do poderoso amplificador Mosfet 50x4, a tecnologia D4Q, que combina as vantagens da universalidade de um andar de entrada analógico com processamento digital ao nível do estado da arte. O algoritmo foi testado com sucesso em 20 cidades da Europa (Lisboa não consta na lista). D4Q «digital for quality» é a solução digital de transição compatível com o FM, enquanto a DAB, a rádio digital, marca passo por toda a Europa. Digamos que substitui a DAB interinamente sem pretender ocupar-lhe o lugar no futuro. Se é que a DAB alguma vez vai ter futuro...


A tecnologia D4Q tem alegadamente (terei de comprovar isso no terreno) as seguintes quatro vantagens principais para resolver outros tantos problemas que afectam a qualidade de som dos autorádios:


. Elevada sensibilidade para «apanhar» mesmo as estações com sinal mais fraco, que são muitas vezes as que mais nos interessam, como o caso de Luna. Também nas grandes cidades, nem sempre é fácil escolher a maçã boa de um cesto de estações de rádio podres ao monte umas em cima das outras...


. Baixo ruído «multipath» para combater os «fantasmas» (que não os há só na televisão), resultantes dos reflexos do sinal nos prédios, montes e vales, seleccionando sempre o sinal mais forte e ignorando os «ecos» que chegam à antena com desfasamentos temporais.


. Alta resistência às interferências, cancelando o sinal de estações adjacentes não desejadas directamente à saída da antena antes que chegue ao modulador FM - e não por filtragem posterior como sucede com a maior parte da concorrência e que nos obriga muitas vezes a comutar para mono para evitar o ruído.


. Transição suave de RDS, mantém a sintonia fina sem sobressaltos entre diferentes emissores de uma mesma estação em viagens longas.



Todos os novos modelos estavam em exibição em expositores activos, mas foi a demonstração das potencialidades de modelos anteriores da Pioneer montados no carro campeão da Europa de «Car-Audio» e, em particular, num Mercedes LM400 todo-o-terreno, que mais me agradou. As colorações próprias do som dentro de uma habitáculo adverso como é o espaço confinado de um automóvel não foram suficientes para ofuscar a claridade, poder, presença e estabilidade desta excelente instalação.


A pièce-de-résistence desta deslocação foi, contudo, o teste comparativo entre matrizes em MP3 e WMA a 64Kb/s e 128kb/s, no auditório do laboratório da Pioneer, com a reprodução a cargo de um «autorádio» DEH-P8400M. As limitações do MP3 a 64Kb/s eram demasiado óbvias, soando os cantores como se estivessem debaixo de água. A WMA é a nova esperança da parceria Sony/Vivendi para fornecer música paga através da internet (pressplay.com). Apesar da evidente superioridade da WMA (um novo algoritmo de compressão digital), não creio que os internautas abandonem o conforto da «borla» proporcionado pelo formato rebelde MP3. Na dúvida, a Pioneer oferece as duas soluções num mesmo modelo.


De destacar o facto de os técnicos da Pioneer utilizarem um par de Colunas Wilson Audio Cub com cablagem Transparent Audio como referência para o «voicing» das colunas de som «in-car». Ou sabiam que na comitiva de especialistas europeus em «car-audio» ia um audiófilo português puro e duro?...