2003

Doce Mentira




A razão tenta travar-nos: está ultrapassado, gasta demasiada energia, é frágil, tem uma saúde débil, fica «em brasa» por dá cá aquela palha, distorce a realidade...



Mas o coração só vê o envolvimento emocional, a musicalidade, a doçura da voz e aquela auréola luminosa que brilha no escuro como um fogo que arde sem se ver. À memória vêm os dias felizes que passámos juntos, a música preenchendo cada espaço da alma num quente aconchego de lareira acesa, a casa habitada pelos melhores intérpretes, os discos sucedendo-se num não querer mais que bem querer.


A razão diz-me que os amplificadores a válvulas são falsos. O que parece doçura não é afinal mais que amarga distorção harmónica: a verdade nunca se mostra na sua nudez original, mas antes envolta num manto diáfano de coloração eufónica. Já houve quem, tendo-os analisado a frio e a quente, tenha concluído que as válvulas «pintam» a realidade musical com os olhos da loucura difusa de Van Gogh, a disforme extravagância de Dali, a desintegração formal de Picasso, a subtileza cromática de Matisse, a luminosidade crepuscular de Turner.


Contudo, ao traço definido e metódico, mas frio, do transístor, prefiro mil vezes a mão trémula do pintor de vácuo guiada pelo ardor da paixão; à precisão matemática dos ângulos e das perspectivas, prefiro a convivência caótica das linhas e a ambiguidade das sombras.


Com uma condição: do aparente caos de formas e cores deve nascer um objecto artístico. A Arte não tem de ser a própria natureza ou a sua imitação fiel. A reprodução exacta está limitada pela realidade. A Arte não.


Ouvir um amplificador a válvulas tem sobre nós o efeito catártico de uma tragédia grega; a acção balsâmica do riso comedido da comédia clássica.


A piada, escreveu Kant, é uma forte expectativa que se desvanece no próprio acto de rir. A comédia não: ensina, faz pensar, perdura na memória. Neste contexto, há por aí muito amplificador que não passa de uma piada de mau gosto.


Os amplificadores a válvulas não são perfeitos. Mas ouvi-los dissipa a angústia de termos de viver com o pecado original, e ajuda-nos a aceitá-los como apenas mais uma idiossincrasia que decorre do facto de sermos apenas humanos e - tal como eles - imperfeitos.


A audição dos amplificadores a válvulas produz em nós uma indefinível sensação de bem-estar, que tem tanto de emocional como de física: a ilusão de presença, de espaço e principalmente de profundidade do palco sonoro é tão real, tão palpável, que não pode ser apenas ilusão. A riqueza harmónica confere ao som um corpo que, para utilizar um chavão dos críticos de vinhos, quase se pode «mastigar». Na prova, as válvulas «sabem» a fruta fresca: ameixas, com o toque exótico da canela, os taninos arredondados...


Os espíritos mais racionalistas dirão: sim, mas isso não passa de um truque resultante da inteligente manipulação da distorção harmónica, como os testes laboratoriais podem provar.


Não refuto o poder da ciência para desmistificar as crendices que rodeiam o mito da superioridade das válvulas sobre os transístores. Mas gostava que me apresentassem provas laboratoriais dos efeitos benéficos do estágio do vinho em pipas de carvalho francês. E, contudo, elas existem: basta provar...


Na audição de «When I look in your eyes», o amplificador a válvulas despiu Diana Krall com luvas de pelica, revelando coisas que eu nunca tinha ouvido antes nas outras mil vezes: a captação «em cima», num «close-up» obsceno, que faz Diana soar maior-do-que-a vida: a orquestra gravada numa acústica diferente parece ter sido adicionada posteriormente, como quem barra com creme um bolo já feito; o saxofone entra de rompante na mistura para logo o engenheiro lhe baixar o som a meio de uma frase.


Tudo isto é evidente mesmo no rádio do carro. Não é preciso, pois, um grande amplificador para revelar o que já se sabia: que não há bela sem senão. Mas só as válvulas nos transmitem a extrema sensualidade das bolhinhas de saliva rebentando nos lábios doces de Diana Krall; ou nos permitem identificar o amplificador (também a válvulas) da guitarra de Russell Malone, cuja interferência RF (uma estação de rádio próxima?) se ouve distintamente no canal direito na abertura de «When I look in your eyes»...


José Victor Henrique in DNA, Junho de 2003