2003

Conto De Natal



Em 1984, assisti em Paris à demonstração das únicas colunas de plasma do mundo capazes de reproduzir todo o espectro áudio: as Toltèque. A dimensão, o peso, o preço e a baixa eficiência mataram o projecto à nascença. É o que acontece quando o homem ousa roubar o fogo dos deuses: cai em desgraça e serve de mote a tragédias literárias.
Toltèque full range de plasma


O altifalante de plasma integral era mais uma tentativa do incansável aprendiz de feiticeiro para dominar as forças da natureza; ou, neste caso, a forma como a natureza produz som. O efeito de «corona» também conhecido por «arco cantante» é - à escala humana - o «som do trovão»: em dias de tempestade é assim que o relâmpago produz o som que em criança nos fazia esconder a cabeça debaixo do travesseiro e rezar as ladainhas ensinadas pela avó materna para que passasse depressa.


Produzir som implica movimentar ar. Para isso utilizam-se altifalantes: de papel, de plástico, de fibras várias. Todos este materiais têm colorações acústicas próprias quando vibram. Durante dezenas de anos, procurou-se um diafragma desprovido de «cor» e de massa. As colunas electrostáticas servem-se de membranas ultrafinas que se aproximam deste desiderato. Mas o ideal seria colocar o ar em movimento com o auxílio de apenas... ar. Depois do fracasso das Toltèque (regressaram à opção inicial do princípio electrostático), por enquanto só é possível movimentar, por meios puramente electrónicos, isto é, sem acoplamento mecânico, o ar suficiente para produzir sons agudos. O tweeter de plasma não tem diafragma mecânico, logo não tem massa, nem distorção, nem colorações de qualquer tipo: é o tweeter perfeito - e custa uma fortuna.


Só passados 20 anos, ouvi de novo em Frankfurt colunas que também utilizam plasma para reproduzir som: as Lansche Contatto e as Acapella Triolon. Transcrevo a descrição que fiz da audição das Triolon ocorrida no HighEnd Show 2003:

«Acapella Triolon Excalibur, com amplificação Unison Mystery e gira-discos Clearaudio Anniversary na fonte: que velocidade, que ataque, que definição! O tweeter de plasma brilha no escuro como o olho do Ciclope mítico. Até arrepia! Ouvir «Écloga para Flauta e Percussão», de Teruyuki Noda, em LP RCA Direct Master, é uma experiência arrasadora para os sentidos...».


Lansche Contatto c/ tweeter de plasma ionizado


O «tweeter» de plasma brilha no escuro como o relâmpago no céu, com a estranha tonalidade da incandescência. Uma fonte de alta tensão dentro da unidade produz um arco constante (uma espécie de chama dançante viva e brilhante) que é modulado pelo sinal musical, fazendo variar o número de electrões dentro do arco. Esta variação produz som ao colocar em movimento as moléculas de ar circundantes. Para um leigo o que se vê é o que se ouve: um som luminoso e puro como só é possível na natureza.

E contudo, nunca me senti confortável em frente das Triolon. Reparo agora que inconscientemente utilizei termos como «ciclope», «arrepia», «arrasador». Não é só a envergadura física das colunas que intimida com as enormes cornetas ameaçando engolir-nos para dentro do labirinto sem fim dos nossos pesadelos. Tenho sempre a inquietante sensação de estar a ser observado, como se elas tivessem vida própria e aquele olho maléfico me espiolhasse os sentimentos mais íntimos, preparando-se a cada momento para me trair, uma vez entorpecidos os sentidos pela luz/voz melíflua de computador HAL em «2001, Odisseia no Espaço».


Ou talvez fossem os medos de infância, que, vindos das profundezas do ser, trazem à superfície o pavor do relâmpago divino, a que se seguia o sonoro trovão, num tempo contado de olhos fechados até dez, depois vinte... já vai longe... longe: «Deus estava zangado com os meninos hoje, por se terem portado mal...», era a receita infalível da minha avó para nos sentar a todos num canto em bonançoso (e receoso) silêncio que se seguia à tempestade, condição sine qua non para ser servido o nosso lanche e o chá dela, sorvido em pequenos goles ruidosos ao som de um velho rádio a válvulas. Ao contrário do «tweeter» de plasma, o som daquele rádio acalmava-me: adormecia, com a cabeça coberta por uma manta de retalhos, a sonhar com o Natal que se aproximava. Foi a melhor prenda que ela me deixou - ainda o tenho.


O Menino Jesus foi simpático comigo: hoje posso ouvir os melhores equipamentos de som do mundo. Mas não trocava o velho rádio a válvulas da minha avó por umas colunas Triolon...