2003

Ces 2003, Las Vegas: A Outra Face Da Lua



A magia da Internet permite hoje fazer uma reportagem sem sair da redacção. Mas para descobrir espécies verdadeiramente raras é preciso ir lá e procurar em áreas onde o longo braço das multinacionais não chega. O que atrai a grande imprensa é a electrónica de massas. Aos audiófilos interessa mais a «electrónica da massa» - da propriamente dita, a avaliar pelos preços loucos de alguns dos modelos em demonstração; e da outra, da cinzenta, porque o «HighEnd» exige esforço, cultura e muita leitura para se poder compreender a gíria, os rituais e os alegados objectivos: atingir a perfeição na reprodução de música gravada ainda que por caminhos nem sempre os mais racionais.
É no Alexis Park, o Jardim do «HighEnd», e em especial no «The Show», um certame paralelo «underground», que se realizou este ano no Hotel San Remo, e vai ganhando adeptos entre os puristas, que se encontram os espécimes mais raros capazes de surpreenderem até este vosso «globetrotter» do áudio. Quando pensava que já tinha visto e ouvido tudo o que a imaginação fértil da indústria áudio artesanal engendra, ano após ano, para atrair os que ousam fugir da uniformidade imposta pela globalização tecnológica, eis que tenho a sensação de ter viajado no tempo ao entrar numa caverna mágica onde magos e duendes-artesãos parecem ter como único desígnio preservar para as gerações vindouras o que de melhor a indústria áudio produziu no planeta Terra no século passado.
Neste contexto, o Alexis Park é uma zona de transição entre a «Feira» (ver Parte 1) e «The Show»: há ainda muita fonte digital e muito processador multicanal mas em vez da abordagem puramente comercial própria das feiras temos aqui o fenómeno áudio visto por uma perspectiva cultural. No Alexis, não nos é oferecido à chegada, por uma menina privilegiada por Deus, um saquinho com «press-releases» e «cd-roms» sobre as vantagens da tecnologia digital Y em relação à X, velha de seis meses, que, sendo iguais para todos, tendem a uniformizar também a escrita: diz-me que «press-releases» te deram, dir-te-ei o que vais escrever sobre o assunto. Na feira, impera a simpatia «plasticoprofissional»; no Alexis, é o próprio projectista, por vezes com meia-dúzia de cervejas o bucho, que explica pormenorizadamente a alteração ínfima que permite ao seu «novo» amplificador ou coluna de som ter um som diferente e uma personalidade própria. O importante é a empatia pessoal entre fabricante e visitante, entre guru e fiel. A conversa flui ao sabor do tempo. E não é raro o guru apontar num caderninho críticas e ideias sugeridas pelos fiéis. As pessoas conhecem-se quase todas das peregrinações anteriores e param para conversar quando se encontram: bebe-se um copo na esplanada junto à piscina, comenta-se, discute-se, critica-se, sugere-se.
É também assim que eu entendo a alta fidelidade, uma paixão comum que une pessoas do mundo inteiro com um mesmo objectivo: atingir o Nirvana acústico, encontrar o Graal sónico - o negócio está sempre subjacente, mas é secundário.
No «The Show», atinge-se um patamar de aperfeiçoamento superior. Aqui é do espírito da música que se trata, o chamado progresso tecnológico é, em muitos casos, irrelevante: o melhor som que ouvi no San Remo foi a partir de umas colunas de corneta da Siemens concebidas há 50 anos. As salas observam o escuro próprio da meditação metafísica, e o guru está lá dentro sentado com os fiéis em redor, ouvindo música em silêncio religioso. O guru não pretende convencer ninguém: ele sabe que atingiu a (sua) perfeição, cabe aos outros segui-lo ou não. Vender ou não vender não é a questão - aliás, muitas das peças são únicas ou feitas por encomenda: a questão é a fé, a crença. Quem não acredita na magia das válvulas nunca entrará no reino dos sons. E às críticas respondem com a Bíblia: perdoa-lhes, Senhor, porque eles não sabem o que dizem...