2002

Ouro Sobre Azul



No Especial/Las Vegas 2000, de 5 de Fevereiro, publiquei uma foto do protótipo de leitor-DVD-Azul da Pioneer, cujas características técnicas eram já idênticas às do actual Blu-ray. Chamava-se, então, HD DVD, numa clara referência à capacidade para registar televisão de alta definição. No ano seguinte, a Philips e a Sony juntaram-se à Pioneer e revelaram os seus próprios protótipos, todos basicamente semelhantes, agora já designados por DVD-Blue, numa referência à cor azul do laser utilizado no captador óptico. Este ano, no stand da Pioneer, o DVD-Blue lá estava, com um design ainda mais sofisticado e caixa de cor azul-eléctrico, mas já com a designação Blu-ray.

A adopção do nome Blu-ray, a lembrar uma banda-desenhada de ficção científica, não é apenas uma opção comercial ditada por imperativos de marketing. O Blu-ray não está aprovado pelo DVD-Forum, pelo que não está autorizado a ter «DVD» no apelido. Por outro lado, o consórcio que o apoia exime-se assim ao pagamento da respectiva taxa de utilização de designação comercial.


O Blu-ray é uma ameaça mortal para o actual DVD, o formato de maior sucesso na história da electrónica de consumo. Por isso, o consórcio avança pé ante pé para não afugentar a galinha dos ovos de ouro.
O laser-azul, que por acaso até é de cor violeta (405 nm de comprimento de onda), mata que se farta. A capacidade para registar/gravar/ler 27GB de informação num único lado de um disco com as mesmas dimensões do DVD (12 cm) acaba com a necessidade de se ter de comprimir o som e a imagem para meter o Arco da Rua Augusta na Betesga.


Não admira que ninguém queira ficar de fora. Ao contrário da guerra dos três formatos DVD-RW, todos entraram para o comboio ainda na estação: Hitachi, LG Electronics, Matsushita, Pioneer, Philips, Samsung, Sharp, Sony e Thompson. Les beaux esprits se rencontrent: desta vez, não houve zangas de comadres. E compreende-se: estamos no limiar de uma revolução só comparável à da difícil transição para a televisão de alta definição nos E.U.A.


Nós por cá, todos bem. Quando vejo por aí pessoas encantadas com a qualidade da imagem do DVD, em boa verdade vos digo: vocês nunca viram nada! A resolução é de tal ordem que a bela Andreia, pivot da RTP1, teria de despedir imediatamente a maquilhadora que passa a vida a esborratar uma das caras mais bonitas da televisão. Em HDTV, vê-se tudo! Ao ponto de a pivot (já entradota) do famoso programa da televisão americana, «Good Morning, America», se recusar a deixar-se filmar em alta definição, embora seja este o formato de grande parte das reportagens de exteriores. A senhora quando se viu na televisão ia morrendo. Acontece-me o mesmo quando o espelho da casa de banho dos hotéis está fortemente iluminado com luz fluorescente: um tipo até desanima quando se levanta de manhã e se olha ao espelho...


E não é só a capacidade do disco Blu-ray que cativa a indústria de electrónica, mesmo sabendo-se que pode ir até aos 50GB num disco de dupla face. O que significa que, no limite, se podem vir a registar 24 horas de video VHS ou 4 horas de video de alta definição. É antes de mais nada a incrível velocidade de acesso e de transferência de dados: qualquer coisa como 36Mbps, o que permite a fantástica possibilidade de registar imagens em directo transmitidas por uma estação de televisão e simultaneamente editar imagens obtidas por uma câmara de video. Se juntarmos a isto um sistema anti-cópia intransponível, com base num ID matricial, o Blu-ray é ouro sobre azul para as produtoras de conteúdos e de filmes. Para não falar nas aplicações informáticas. Os actuais jogos de computador são uma brincadeira de crianças comparados com o que está para vir. Claro que o Blu-ray não é compatível com nada a não ser ele próprio. Dentro de cinco anos (?), talvez menos, vai ter de recomeçar a sua colecção de filmes, discos e jogos outra vez. Maravilhoso mundo novo, este...