2001

Musical Fidelity Nu-vista M3 Fidelidade Musical




A Musical Fidelity tem uma estreita relação com esta minha actividade literária «à volta de», mais do que «sobre», a alta fidelidade - os aparelhos são o pretexto e não o objecto da escrita. O que começou por ser uma forma agradável de passar o tempo, ganhou folgo quando, por puro diletantismo, enviei para um concurso da revista HifiNews/RR uma crítica ( publicada em Março de 1986) à qual, para minha grande surpresa, foi atribuído o primeiro prémio: um amplificador Musical Fidelity A1: um amplificador integrado que parecia um grelhador de sardinhas - e aquecia como se o fosse, mas tinha um som saboroso e gordo de «pinga no pão».


Michaelson afirma agora ter concebido o amplificador integrado perfeito.Ou quase: tomei nota de meia-dúzia de coisas que considero menos bem conseguidas - se é que o sapateiro pode ir além da chinela -, mas naquilo que realmente interessa - a qualidade do som - tive que me render à evidência, e tiro-lhe o chapéu: o Nu-Vista, assim chamado porque utiliza «válvulas» do tipo «nuvistor» no primeiro andar de ganho, é um notável amplificador integrado, com tanto de poderoso (será por isso que tem a alcunha de M3 como o BMW?) como de gracioso; tanto de transparente (que transparência!, my God) como de harmonicamente correcto (chega a ser deslumbrante a riqueza de nuances e pormenores), qualidades a que não deve ser alheio o facto de Michaelson ser músico clássico (toca clarinete) e é intérprete de Mozart.


O objectivo inicial era construir 500 exemplares (e apenas 500!) de um amplificador integrado, duplo-mono exclusivista (só dois chegaram a Portugal); neutro ao ponto de não evidenciar qualquer tipo de coloração ou distorção audível; com uma banda passante capaz de fazer justiça aos 100kHz do Super Audio CD (tem, aliás, uma entrada específica para SACD); silencioso e com um mínimo de feed-back; à vontade para alimentar qualquer tipo de coluna com os seus 275W/8 e 40 amperes de corrente de pico.


A fonte de alimentação massiva foi colocada numa caixa à parte para eliminar qualquer tipo de interferência. Chegou-se ao ponto de alimentar por meio de cabos próprios (fornecidos com o aparelho) a secção de preamplificação e os andares de amplificação direito e esquerdo. O nosso amigo Antony Michaelson não gosta de misturas.


Além dos tais «nuvistor», que são componentes raros e em vias de extinção (não se preocupem a MA tem em stock um par para cada um dos exemplares vendidos), a principal característica do M3 é a regulação por «choke» da fonte de alimentação (uma bobina que filtra o ruído provocado pela rectificação da corrente alterna em corrente contínua normalmente associado com grão no agudo e um «véu» electrónico nos registo-médios).


Em termos estéticos o M3 tanto pode ser visto como um modelo do mais puro «kitsch» como um amplificador high-end com «dentes de ouro». Tudo o que é dourado, é ouro de lei de 24K!. Nada de pechisbeque para encher o olho. Não vale o peso em ouro - o resto é alumínio - mas quase. A construção geral externa e interna é soberba. Quer se goste, quer não, a qualidade do produto é inegável.


Os botões do volume e do selector de fontes são enormes e redondos com os olhos do robô poliglota da Guerra das Estrelas. E são igualmente agradáveis de utilizar - suaves e precisos. Pode, claro, optar pelo controlo remoto: simples, pequeno e de plástico foleiro.


Os bornes dos terminais para os cabos de coluna são igualmente dourados e enormes - tão grandes que os parafusos de enroscamento não aceitam forquilhas normais - só cabos nus! Mas aceitaram bananas WBT (proibidas na nossa querida UE). Aqui para nós: o Reino Unido faz parte da UE, ou é só o Michaelson a mostrar quem manda? E uma curiosidade: nas saídas (bornes) o positivo (vermelho) é em baixo; nas entradas (RCA) o positivo é em cima. Mais uma idiossincrasia, Antony? Já agora, por uma milena exigia-se entradas balanceadas e um inversor de fase por controlo remoto.


E termino o lançamento de farpas com duas críticas bem-intencionadas: em repouso um sopro suave é audível através das colunas (apenas com o ouvido encostado) e aumenta à medida que o potenciómetro avança (piora na entrada phono); tendo ligado apenas um leitor-SACD à entrada respectiva, era possível ouvir música (embora a um nível baixo, claro) mesmo seleccionando outras fontes de entradas de linha não-utilizadas.


Eu sei que a ideia é interferir ao mínimo com a pureza do sinal áudio, eliminando «buffers», «shunts», condensadores de acoplamento e outras panaceias, mas ... noblesse oblige, mon chèr.


Posto isto, o Musical Fidelity NU-VISTA M3 é, de facto, essa maravilha que o Ken Kessler (Hi Fi News) e o Michael Fremer (Stereophile) dizem ser?


Com um leitor-SACD Sony DVP9000ES a dar-lhe música e um par de Wilson Audio System 6 na outra ponta de uns cabos Siltech, vivi feliz durante uma semana. Não é o mesmo que um Krell KTC e um par de monoblocos FPB 250Mc - falta-lhe, não a força, mas a autoridade dominadora da «máquina de guerra» americana. Chamem-lhe «slam», «wallop», «tomates», o que quiserem. É como comparar um carro de seis cilindros com um carro de quatro cilindros, embora o M3 tenha mais «velocidade de ponta» (275W contra 250W). A comparação é, contudo, injusta: só o KTC custa o dobro do M3.


O circuito NU-VISTA garante ao M3 uma transparência única e uma riqueza de pormenor que só experimentei com amplificadores Chord. Têm, aliás, muito em comum: o mesmo grave tenso e articulado; a mesma resposta pronta com soluções micro e macro dinâmicas que não cessam de surpreender o ouvinte. No agudo superioriza-se até: é de uma graciosidade e subtileza notáveis, sem grão ou qualquer outro artefacto electrónico para nos estragar o prazer da audição. Os registos médios soam, numa primeira análise, um pouco secos, despidos (NU?), mas cedo nos apercebemos que se trata de uma opção consciente pela neutralidade pura, a raiar o fundamentalismo acústico. Como contrapartida, a precisão da focagem e a individualização de naipes e timbres é perfeita em toda a dimensão, melhor, em todas as dimensões, do palco sonoro, com o negro do silêncio a contrastar com a claridade ímpar dos sons prenhes de detalhes ínfimos. Quando muito instado (o M3 nunca dá parte de fraco), instala-se uma vaga sugestão de dureza que cedo se esquece face à musicalidade reinante em toda a extensão do espectro audível: das profundezas oceânicas dos graves às alturas celestiais onde se cantam hosanas à perfeição divina dos agudos.


Se, tal como eu, é um amante fervoroso do estéreo em dois canais, e conseguir apanhar um M3 (são raros e mais difíceis de importar que os pandas chineses), pode ter a certeza que «integrados» com melhor som só os há (ainda) mais caros - e mesmo assim não abundam por aí. Tente na Interlux, em Lisboa.


E, por ser verdade, declaro que o amplificador integrado NU-VISTA M3 é um produto «high-end».