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Azzolina Quark – O Mistério de Azzolina

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Azzolina Quark - Breve introdução em video por JVH

A Azzolina Audio é uma marca boutique de produtos audiófilos de nicho, fabricados em Portugal, tais como colunas de corneta e amplificadores a tríodos single-ended. Recentemente, lançou a monitora Quark, que pretende agitar o mercado, e conta já com o apoio firme da Imacústica, com distribuição exclusiva em Portugal.

Ouvi as Quark pela primeira vez na Imacústica–Lisboa, em audição informal, alimentadas por um Jadis i300. Logo ali, percebi que se tratava de algo especial. Assim, levei um par para casa para uma análise mais cuidada e descobri que as Azzolina Quark são mais do que aquilo que os olhos veem.

Charles Edward Azzolina-Michlin

Por isso, decidi desvendar os mistérios de uma coluna aparentemente “elementar”, tal como a partícula que lhe dá o nome. À medida que avançava no teste, percebi que a Quark não é só mais uma monitora compacta; é uma verdadeira tese de mestrado em Eletroacústica, desenvolvida ao longo de 25 anos por Charles Edward Azzolina-Michlin, um americano do Texas, nascido numa família ligada à música, piloto de linha aérea e instrutor, apaixonado por áudio, especialmente por colunas de corneta e amplificadores SET (single-ended).

A Quark não é apenas mais uma monitora compacta; é uma verdadeira tese de mestrado em Eletroacústica.

Tudo começou como um hobby que evoluiu depois para um pequeno negócio, gerido em paralelo com a sua carreira aeronáutica. Em 2016, a família mudou-se para a França. Em 2021, fixou-se em Portugal, onde Charles Azzolina vive e trabalha agora — no meio das vinhas de Amarante — com a sua esposa Camila, uma designer e arquiteta brasileira, e Joabe, um especialista em CNC e carpintaria.

À primeira vista, a Quark — custa 5000 euros/par — é uma monitora elíptica compacta, na tradição da Sonus Faber, com painéis laterais em madeira de bétula natural e o topo, base e defletor (baffle) em resina sintética rígida reforçada com fibras longas de madeira. Tem um único altifalante full-range e um pórtico reflex frontal de boca larga com um tubo invulgarmente curto.

Quark lifestyle photo by JVH/Photoshop

Quark lifestyle photo by JVH/Photoshop

Fabricado em Portugal

E esta foi a primeira grande surpresa: a Azzolina Quark, apesar do nome invulgar, é orgulhosamente fabricada em Portugal. A segunda foi perceber que Charles Azzolina não poupou esforços para criar uma pequena monitora com algumas das virtudes das grandes cornetas — velocidade, dinâmica, sensibilidade —, mas sem as desvantagens do tamanho, do custo e do baixo WAF.

A Quark tem uma sensibilidade de 92 dB (1 W/1 m) e uma impedância nominal estável de 8 ohms, sendo o par ideal para amplificadores SET de baixa potência (8/10 W). E, tal como as boas colunas de corneta, proporcionam aquela sensação única de se estar a ouvir som “diretamente da fonte”.

Música pura e sem filtros

A Quark utiliza um único altifalante de banda larga, idêntico ao Tang Band W-5 1611 SAF, com bobina suspensa, cone de papel tratado de 5 polegadas, suspensão de butileno invertida e um faseador de alumínio revestido a cobre para melhorar a dispersão. 

Nota: Segundo Charles Azzolina, o altifalante é fabricado por encomenda na Alemanha, com anel reforçado e manga de cobre no eixo do motor para reduzir a indutância da bobina e a distorção harmónica. 

E funciona sem qualquer crossover (filtro divisor). Nem mesmo um filtro BSC! 

Foi aqui que comecei a ficar intrigado.

Charles Azzolina recusou-se a comprometer a sua busca por um som puro e não filtrado, mantendo o sinal o mais direto possível, sem filtro divisor ou de compensação (BSC).

Painéis (baffles) estreitos (o da Quark tem apenas 18 cm) são suscetíveis a perdas provocadas por difração de −3 a −6 dB centradas nos 675 Hz e até 2 kHz, que vão depois expor a resposta da gama média-alta por comparação, tornando o som brilhante. Este desfasamento é normalmente corrigido com uma rede BSC (Baffle Step Compensation), que consiste regra geral numa resistência não indutiva (2,7 ohms) e uma bobina de núcleo de ar de (0,68 mH) em paralelo, montadas em série com o altifalante.

Charles Azzolina recusou-se a comprometer a sua busca por um som puro e não-filtrado, mantendo o sinal o mais direto possível, sem filtro divisor ou de compensação (BSC). Porque os filtros também afetam a sensibilidade e a dinâmica, logo a espontaneidade do som; além da impedância, o que iria tornar as Quark mais difíceis de alimentar por amplificadores SET recomendados.

Quark lifestyle photo - New York -  by JVH/Photoshop

Quark lifestyle photo - New York - by JVH/Photoshop

Sintonia Bullock Vintage

Charles Azzolina também tem consciência de que a carga reflex é um mal necessário, pois, ao reforçar os graves, introduz colorações e compromete a resposta de impulso, à qual confessou ser particularmente sensível. Mas, numa coluna com um único altifalante e tão pequeno, não havia outra solução para poder obter a resposta especificada de 35–21.000 Hz. Por isso, optou por manter o grave sob rigoroso controlo, usando um alinhamento Bullock Vintage com um pórtico frontal reflex de tubo curto e boca larga.

Com as dimensões externas de 18 × 30 × 37 cm, e calculando que os painéis têm 12 mm de espessura, o volume interno ronda os 11 litros. Assim, se aplicarmos a fórmula de Helmholtz a um tubo de 10 cm de diâmetro e 7 cm de comprimento, obter-se-ia grosso modo uma frequência de sintonia invulgarmente alta (67 Hz).

A boca do pórtico da Quark é alargada (flared wide mouth) e o tubo afunila um pouco, pelo que o comprimento acústico efetivo é maior do que o comprimento físico, por efeito da correção de extremidade (end correction), a que se junta a massa/resistência acústica do “filtro” perfurado. Na prática, tudo isto pode fazer descer a frequência de sintonia para a zona dos 45 Hz. A sala fará o resto, em função da distância à parede frontal.

Nota: este alinhamento do pórtico pode considerar-se BB4 (Butterworth de 4.ª ordem), como confirmado por Charles Azzolina, com graves rápidos, secos e articulados e baixa turbulência.

Assim, as Quark podem ser colocadas, por tentativas, relativamente perto da parede frontal para reforçar o grave. Comece a 25 cm da parede e afaste-as em incrementos de 3–5 mm: primeiro com ruído rosa e depois com música com conteúdo de grave.

 

Interior da câmara do sistema reflex. Na parte de cima, o filtro perfurado que divide a câmara do altifalante da câmara do pórtico reflex.

Interior da câmara do sistema reflex. Na parte de cima, o filtro perfurado que divide a câmara do altifalante da câmara do pórtico reflex.

Filtro acústico secreto

Charles Azzolina também menciona um “filtro acústico” não especificado (patente pendente). O filtro, que se pode ver se espreitarmos pelo pórtico reflex (ver foto em cima), separa a câmara inferior reflex da câmara superior do altifalante, controlando o efeito das ondas estacionárias com o mesmo comprimento de onda da frequência de ressonância do tubo (1,28 kHz), eliminando o efeito de "tubo de órgão".*

Creio que o filtro funciona segundo o mesmo princípio dos painéis MPP (filtros perfurados), que absorvem determinadas frequências, atuando assim como um filtro resistivo-reativo.

Na prática, funciona também como um ressonador de Helmholtz, podendo a frequência-alvo (centrada nos 1,28 kHz) ser ajustada por meio da variação do diâmetro dos orifícios para controlar a frequência de ressonância do tubo, que, atenção, é distinta da frequência de sintonia.

De outro modo, o efeito de "tubo de orgão" seria audível, especialmente porque Azzolina se recusa a utilizar espuma (ou outro material absorvente) para evitar o "som abafado" típico da maior parte das colunas que a utilizam. 

*Nota: o efeito de “tubo de órgão” nos sistemas reflex resulta de ondas estacionárias longitudinais de média frequência no interior da caixa, que excitam o ar no tubo na sua frequência de ressonância.

Nota importante: nos primeiros protótipos das Quark, as paredes internas eram esculpidas com facetas dispostas de acordo com proporções decrescentes para eliminar a periodicidade e dispersar os modos internos (veja o vídeo acima). No entanto, durante uma longa conversa no Zoom, Charles Azzolina disse-me ter chegado à conclusão de que os benefícios desse padrão irregular (quase anecóico ) não superavam as desvantagens da redução de rigidez estrutural e menor volume interno da caixa, e por isso desistiu dessa opção técnica nos atuais modelos de produção. Mas mostro-vos o vídeo na mesma, porque acho que é espetacular.

Ora, isto levanta a questão: como controla Azzolina agora as ondas estacionárias no interior da caixa?

Espiral de Fibonacci sobreposta à curvatura elíptica das Quark.

Espiral de Fibonacci sobreposta à curvatura elíptica das Quark.

Dimensões divinas

A forma elíptica é já por si uma parte importante da solução: as superfícies curvas são mais rígidas e vibram menos, e a ausência de paredes paralelas reduz os reflexos internos. Charles Azzolina também afirma que a caixa foi construída segundo a “proporção áurea”. Mas, aplicando a fórmula de Fibonacci (1,618) às dimensões de 18 × 30 × 37 cm, só a relação entre profundidade e largura se aproxima da Golden Ratio.

De facto, como se pode ver na foto, a espiral branca é uma verdadeira espiral áurea (logarítmica, crescendo à razão de φ = 1,618 a cada quarto de volta), mas não está completamente alinhada com a borda do tampo elíptico da Quark. Nota: admito algum erro de paralaxe da lente da câmara.

Contudo, em termos lineares, a relação entre as dimensões: 30 cm / 18 cm = 1,667 é muito próxima de φ = 1,618, com uma variação de cerca de 3%, provavelmente intencional, resultando numa caixa elíptica ligeiramente arredondada, que possui ainda melhores propriedades acústicas, ao provar ser ainda mais eficaz na redução da difração do que uma “espiral dourada” matematicamente precisa.

Seja como for, o ‘designer’ está de parabéns, pois tanto visualmente quanto acusticamente os resultados são realmente impressionantes.

 

O preço da magia

Quanto à dispersão do cone, não há como contornar as leis da física acústica: acima de 2 kHz, um cone de 5 polegadas torna-se direcional e o ângulo de dispersão estreita, tornando o som mais incisivo — especialmente quando não há um tweeter para aceitar o testemunho.

O faseador suaviza esse efeito, melhorando a dispersão até perto de 5 kHz — de forma bastante eficaz até —, mas não pode fazer milagres a partir daí. É por isso que eu não gosto de apontar as Quark para o ponto-de-escuta. As Quark soam melhor quando disparam em frente diretamente para a sala, resultando num ângulo de audição fora do eixo de 30 graus. E também acho que têm melhor desempenho quando ouvidas no campo próximo, como se estivéssemos num estúdio de mistura.

Nota: em alternativa, pode apontá-las acentuadamente para um ponto virtual à frente do ouvinte. Continua a ser audição off-axis, mas melhora o foco.

Combinação perfeita

As Quark foram concebidas para proporcionar um som ideal quando alimentadas por amplificadores de baixa potência SET/300B de 8–10 W, com os quais fazem uma combinação perfeita, tanto em termos de propriedades acústicas como elétricas.

  • A sensibilidade de 92 dB não requer alta potência.
  • O alinhamento Bullock compensa os graves naturalmente redondos e um pouco lentos típicos das válvulas 300B, por exemplo.
  • O relaxamento eufónico na zona de presença — outra característica bem conhecida das 300B — é equilibrado pelo ligeiro planalto na resposta das Quark entre 2 e 5 kHz, resultante do aumento da direcionalidade do cone nas altas frequências.
  • A alta impedância de saída dos SETs resulta numa atenuação suave acima de 12 kHz, domesticando efetivamente o agudo superior das Quark.
  • O anel e a manga de cobre no polo do motor reduz a distorção harmónica de 2ª e 3ª ordem, típica dos amplificadores SET, que os audiófilos adoram.
Quark + LAB12 Mighty SET (photo by JVH/Photoshop)

Quark + LAB12 Mighty SET (photo by JVH/Photoshop)

Quark + LAB12 Mighty

Os amplificadores de estado sólido também podem alimentar as Quark, mas o equilíbrio tonal será diferente — e não para melhor. A baixa impedância de saída e o alto fator de amortecimento da maioria dos amplificadores de estado sólido podem “secar” ainda mais o som de colunas sem crossover, como as Quark.

Quanto à Classe D, evite se puder *. Portanto, esteja preparado para levar para casa também um amplificador SET, como o Jadis 300B. Se já tem um, ligue-o a um par de Quarks, porque não sabe o que tem andado a perder.

*Nota: confesso que as liguei a um Eversolo Play (Classe D) baratucho e o som era bastante decente, embora um pouco seco.

Admito que não tenho um Jadis 300B — contradizendo toda a minha retórica —, mas tenho a segunda melhor opção: um LAB12 Mighty de 8 W (2 × EL34) a funcionar em modo tríodo, que também combina muito bem com as Quark.

E confesso que usei EQ paramétrica ligeira via Roon, mas não vou revelar os parâmetros, pois dependem da sala, da amplificação e do gosto pessoal. Antes de ajustar o EQ, experimente com a colocação. Ou melhor ainda: esqueça completamente o EQ e ouça as Quark “au naturel”. Com válvulas, claro! What else?

Nota: Brincando com os exageros de EQ, Charles referiu os novos componentes e software que permitem emular num amplificador de Classe D a distorção típica dos amplificadores a válvulas. Eu já escrevi aqui sobre algo semelhante.

O som das Quark

O famoso slogan de Fernando Pessoa “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” já está muito batido, mas espelha bem aquilo que se sente ao ouvir uma coluna sem crossover (e sem espuma no interior). Parece que soa “oca”. Mas depois são as outras que soam "amordaçadas". Contudo, o que mais impressiona é a velocidade de resposta. Com um único altifalante para reproduzir toda a música, o som surge-nos como um todo coerente — mesmo ouvindo fora do eixo e relativamente perto, como num estúdio de gravação.

Os graves são honestos: não são profundos nem cheios, mas são ágeis e surpreendentemente articulados. Os médios carecem da densidade e do peso de monitoras de maior porte. Mas as vozes, tanto masculinas como femininas, soam humanas, permanecendo claras e sem a lama das colorações de caixa. Os agudos oferecem uma lufada de ar fresco da montanha. Com algum brilho matinal que as válvulas filtram como um par de óculos Polaroid.

 

Os agudos oferecem uma lufada de ar fresco da montanha. Com algum brilho matinal que as válvulas filtram como um par de óculos Polaroid.

Acima de tudo, o tempo e o ritmo são excelentes, e a reprodução de transitórios é quase viciante. Não foram concebidas para as explosões do cinema em casa; destinam-se àqueles que valorizam a textura, os detalhes e aquela sensação de “verdade musical”. E o facto de a caixa desaparecer, em vez de cantar com a boca cheia de espuma, ajuda muito.

Se gosta do charme romântico dos amplificadores SET, mas está limitado pelo espaço, orçamento ou uma esposa tolerante para o deixar instalar colunas de corneta na sala de estar, as Quark foram feitas à sua medida.

Viver com as Quark

Dado o baixo WAF (fator de aceitação conjugal) dos altifalantes de corneta, as Quark são o sonho de qualquer esposa de audiófilo: pequenas, bonitas e elegantes, montadas em tripés de salto alto e sem necessidade de serem colocadas no meio da sala. No entanto, os cantos devem ser evitados. Assim como colocar um vaso de plantas em cima das Quark…

Vá ouvir as Azzolina Quark na Imacústica com um Jadis 300B, ou outro bom amplificador a válvulas (a tríodos, de preferência). Mas atenção: as Quark não se limitam a impressionar. Prendem o ouvinte! Como me prenderam, a mim.

Para mais informações, por favor contate:

IMACUSTICA

AZZOLINA AUDIO

Azzolina Quark cover copy 2

Quark lifestyle photo by JVH/Photoshop

Quark lifestyle photo - New York - by JVH/Photoshop

Interior da câmara do sistema reflex. Na parte de cima, o filtro perfurado que divide a câmara do altifalante da câmara do pórtico reflex.

Espiral de Fibonacci sobreposta à curvatura elíptica das Quark.

Quark + LAB12 Mighty SET (photo by JVH/Photoshop)


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