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Delfin Yanez — O Sócrates da era digital

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Na Delaudio também há colunas, mas não são de mármore. E os ‘discípulos’ são bem-vindos – a porta está sempre aberta. Com uma ressalva: não venham ouvir sons, venham tentar compreender a música.

A Delaudio é a academia socrática de Delfin Yanez. As estantes de discos fazem de biblioteca; os sistemas de som permitem avaliar a validade dos seus argumentos. E os ouvintes são todos convidados a fazer algo aparentemente simples, mas cada vez mais raro: prestar atenção.

Vejam bem a fotografia. Delfin Yanez está sentado sobre um subwoofer, com uma mão suspensa no ar, como se regesse uma orquestra. Não precisa da túnica de Sócrates. O polo e as jeans não afetam a postura do mestre, que procura transmitir aos outros aquilo que passou a vida a descobrir.

A comparação com Sócrates é talvez excessiva. Mas, de facto,  julgo descortinar algo de socrático no modo como uma audição, dirigida por Delfin, pode pôr em causa aquilo que julgávamos saber, mesmo quando pensamos que conhecemos bem o disco.

Tempo é substância

Ao longo dos anos, tenho escrito sobre esta preocupação quase obsessiva de Delfin: o tempo e a sua relação com certos eventos musicais — o ataque e a duração de uma nota, ou o silêncio que os separa e lhes dá sentido, por exemplo. (ver em Artigos Relacionados)

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Em Delfin Yanez — o tempo e o modo, descrevi precisamente essa hierarquia de valores. Para ele, um sistema modesto que preserva as relações temporais transmite melhor a música do que um super sistema high-end que as perturba. O sistema é um intermediário inevitável entre nós e os músicos. Não deve interferir no processo de audição; deve proporcioná-lo.

Podemos admirar o brilho de um violino, a extensão de um contrabaixo ou a dimensão de uma orquestra. Mas, se perdermos a relação entre eles, ficamos apenas com uma coleção de sons avulsos. Assim como podemos reconhecer todas as palavras de uma frase e não perceber nada do que está escrito.

O silêncio não é a ausência de som: é expectativa, suspensão, respiração.

 

Na filosofia de Delfin, o silêncio é a pedra de toque; perdoem-me o jogo de palavras. O silêncio não é a ausência de som: é expectativa, suspensão, respiração. Paradoxalmente, a música precisa do silêncio para se fazer ouvir.

O relógio digital

É aqui que entra o CD. E, com ele, o master clock.

Delfin foi um dos mais persistentes defensores da ideia de que o disco compacto tinha sido julgado (e condenado) antes de se explorar devidamente o seu potencial.

A sua defesa da superioridade do CD sobre o LP, quando reproduzido num sistema com um relógio de referência, decorre dessa convicção: o problema não reside no que o disco guarda, mas no que o sistema consegue ir lá buscar no devido tempo.

Em 2015, a propósito do relógio desenvolvido por Vasco Soares, registei esta confissão de Delfin: “Já não consigo ouvir CDs sem o relógio”.

A frase diz muito sobre a importância que ele atribui à precisão temporal na reprodução digital. É uma convicção baseada nas suas audições, não uma garantia de que adicionar um relógio externo melhora qualquer leitor ou DAC.

Também convém distinguir o tempo, enquanto forma de expressão dos músicos, da temporização eletrónica da conversão digital. São coisas diferentes. Na filosofia de Delfin, porém, a segunda deve preservar a primeira: a técnica tem de permitir que a intenção artística dos músicos chegue ao ouvinte incólume.

O relógio não ensina o pianista (Horowitz) a tocar. O que Delfin quer é uma eletrónica que não nos impeça de compreender como o pianista tocou. A sua arte. A sua técnica.

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No banco dos réus

Se o relógio ocupa um lugar de honra nesta academia, já certas remasterizações sentam-se no banco dos réus.

A desconfiança é antiga. Nas audições que relatei a propósito do Roksan K3, Delfin já preferia discos correntes a reedições anunciadas como remasterizações de qualidade superior.

E, anos depois, continua a procurar primeiras edições em CD em sites de segunda mão, comparando gravações e interpretações.

O que está em causa é o respeito pelo testemunho original. Uma remasterização que comprime o sinal, arredonda os ataques e altera os equilíbrios dinâmicos pode tornar a música mais espetacular, mas também menos expressiva.

Quando o pianissimo se aproxima do fortissimo, o teto dinâmico baixa e o que era surpresa deixa de surpreender.

 

Segundo Delfin, o crime consiste em substituir a intenção musical original por um critério de impacto comercial. Vende-se o mesmo disco, agora de forma mais ostensiva, e chama-se progresso ao que ele considera ser uma tragédia grega.

Nem todas as remasterizações cometem esse crime de lesa-música. Recuperar uma boa matriz e trabalhá-la com critério pode trazer benefícios. O alvo da sua crítica é a intervenção que modifica a expressão sob o pretexto de a melhorar.

Uma gravação também é um documento histórico. A arte da restauração exige conhecimento e critério. Lembram-se de Cecilia Giménez, a senhora espanhola que tentou restaurar o Ecce Homo de Borja e deixou Cristo irreconhecível? Delfin, que também é espanhol, prefere um CD original riscado a um CD remasterizado pelos ‘Gimenez’ americanos.

A Europa de ouvidos atentos

É neste contexto que se enquadra a preferência de Delfin por masterizações europeias em detrimento das americanas. Na leitura que faz das edições europeias, julga encontrar mais respeito pelos equilíbrios tonais e dinâmicos e pela continuidade do discurso musical; nas americanas, critica a tendência para privilegiar o efeito imediato.

É uma convicção sua, que deve ser discutida disco a disco. Nem a geografia certifica a qualidade de uma masterização, nem a fama do engenheiro pode substituir a audição. Tenho discos fabulosos de origem americana.

Gira-discos Takumi de Ric Stoet.

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Um mestre não sabe tudo

E eis que surge um gira-discos nesta história, o que torna o retrato mais interessante, até por ser contraditório. No Hifishow de 2026, assinalei a surpresa de encontrar o grande defensor do CD novamente rendido aos encantos do LP com o gira-discos Takumi.

Não apaga o que Delfin defendeu durante anos. Mostra um espírito aberto, disposto a conceder uma brecha na sua convicção. Um mestre que já aprendeu tudo transforma a escola num museu.

A palestra termina invariavelmente com a audição de discos selecionados no seu sistema de referência, onde pontificam as enormes Monitor Audio PL500 II.

Quando uma vez relatei a súbita passagem de La Fanciulla del West para os Deep Purple, a preocupação de Delfin era provar a nossa capacidade de seguir diferentes narrativas: compreender o que a interpretação nos conta e sentir vontade de continuar a ouvi-la. Puccini e o rock podiam assim partilhar a mesma sessão, apenas porque a exigência é a mesma.

Desta vez, os protagonistas eram outros: o Peer Gynt, de Grieg, e os U2, que teceram uma tapeçaria gigante na parede de fundo.

É essa ideia que Delfin procura transmitir a quem se senta à sua frente. Não é preciso conhecer a partitura, dominar a eletrónica ou possuir uma fortuna em equipamento. É preciso disponibilidade para ouvir, comparar e, se for o caso, reconsiderar.

A fotografia apanha-o nesse papel: a mão acompanha o raciocínio, os discos aguardam a sua vez, as colunas estão prontas para a demonstração.

Sócrates fazia perguntas aos cidadãos de Atenas e dava as respostas. Delfin coloca um disco e deixa que sejamos nós a dar as respostas.

Deixe-se surpreender: vá ouvir as novas Monitor Audio Silver no auditório da Delaudio. E não saia sem ouvir o Peer Gynt, ‘Hunted by Trolls’, de Neeme Järvi e da Gothenburg Symphony Orchestra, no sistema de referência. Atenção: esta audição pode abalar as suas convicções audiófilas.

Delfin Yanez Capa

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