2012

Audioshow 2012 – Parte 1: A Tribo Audiófila



 


 


Porta de acesso às 'cavalariças' do Pestana Palace    


Quando Ajasom, Imacústica e Ultimate, logo três dos principais importadores de highend nacionais me informaram que iam estar presentes no Audioshow 2012, tendo optado, pasme-se!, por “montar a tenda” nas cavalariças do Pestana Palace, pensei: a crise está aí para ficar, é certo, mas não será isto passar “de cavalo para burro”?  


O Audioshow tem andado em bolandas, ao longo dos anos, com a mala às costas, de hotel para hotel, uns melhores que os outros, sendo que as referências extremas, positiva e negativa, terão sido respectivamente a “Escola” e a “FIL”.


Mas demonstrar equipamento highend de milhares de euros onde antes dormiam cavalos é tomar-nos a todos – a nós audiófilos – por burros!


Acontece que in illo tempore parece que os cavalos eram mais bem tratados que os criados que deles tratavam, e o edifício das “cavalariças”, que é hoje o “Centro de Conferências” do Pestana Palace, tem tanta dignidade como o mais visitado dos nossos museus – o dos Coches. Ao pé da “cavalariça” dos puros sangue Alexia, da Wilson Audio, eu moro numa barraca...  


 



Imacústica: sala de demonstração das Wilson Audio Alexia


Tudo se conjugou, portanto, para que o mais famoso certame nacional de áudio fosse um sucesso de público: o luxo das instalações, o tempo chuvoso a convidar a ouvir música confortavelmente instalado em fofos sofás, a qualidade e exclusividade de alguns dos equipamentos demonstrados; e, claro, o facto, óbvio, da decisão política da “entrada gratuita”.


É verdade que sempre foi possível arranjar convites através dos distribuidores presentes, mas desta vez bastava imprimi-los e levar a família toda.  Et pour cause vi muita gente nova. E aqui “nova” não significa apenas jovem, vi “outra gente” além da rapaziada audiófila do costume: os caçadores de catálogos, os bloguistas, os especialistas da “boca” fácil e do juízo pronto ao primeiro acorde.


Muitos casais jovens e sonhadores, outros na idade  da razão audiófila, e muitos com filhos também, que, por certo, teriam preferido um programa bem diferente. Ao meu lado, um miúdo dos seus doze anos reclamava junto do pai, porque não havia “cinema”. Outro, mais velho, comentava com os amigos que havia “poucos” subwoofers. Felizmente, pensei eu.


E ouviu-se muita música de qualidade, sobretudo clássica, e não apenas os discos que soam bem até com um rádio de pilhas. Houve mesmo quem “arriscasse” para além do que seria “razoável”, com ópera, canto lírico e a “assassina” Carmina Burana! Not for the fainthearted... 


Só lá estive na Sexta e no Domingo, no Sábado fiz gazeta: multidões não ligam com audições. Muito menos com gravações. Mas não ouvi os Eagles, nem a Diana Krall ou Jazz At The Pawnshop. Fiquei com a ideia feliz de que os disc jockeys de serviço estavam a passar a música que eles próprios gostam de ouvir, quando recebem os amigos lá em casa.


 

Sala de estar do Pestana Palace


Creio também que, muito inteligentemente, a tribo audiófila aproveitou o dia chuvoso para propôr um programa diferente e resolveu levar a família toda na tentativa de os converter à religião do deus som e aos rituais pagãos da audição. E a missa cantada correu bem. As pessoas sairam com a cara lavada (pela chuva) e a alma pesada (pelos preços). Mas houve negócios apalavrados, consta, porque o maior obstáculo estava ultrapassado: convencer a cara metade que a perenidade do todo é melhor que a caducidade das partes, entendendo-se por todo, um bom sistema de som para toda a vida; e, por partes, a viagem única de uma vida a Florença e Veneza (o Pestana Palace bate os melhores hotéis de Veneza). Ainda que tivessem ouvido por lá também sistemas ao preço de umas férias na Caparica...


Bom, nem tudo correu bem. O Hificlube não morre de amores pela organização, toda a gente no meio o sabe: são contas de outro rosário que ficam para a minha autobiografia. Mas ninguém me pode acusar de ser injusto nas avaliações do bom trabalho feito ao longo dos anos por JG. Tendo lido e ouvido muitas críticas, a este e aos outros audioshows,  sou o primeiro a reconhecer que nunca é possível agradar aos troianos, já que, nos tempos que correm, os gregos já nem contam – e nós estamos a seguir na fila, o que terá desmotivado alguns distribuidores de marcar presença: apenas 17 salas no total, 5 das quais nas “cavalariças”.


E houve filas para entrar. E corredores apertados. E escadas para subir, porque o único elevador nunca se tinha visto em tais apertos e era desperantemente lento. E salas com acústicas malignas. E gente que falava, sentada, de pé, que entra, que sai, que comenta, elogia, critica. Mas se até em Las Vegas, é assim...

E a chuva miudinha que molhava “tolos” quando se atravessava para “o outro lado da rua”. E até queixas – não sei se justificadas - de falta de sensibilidade das recepcionistas que obrigaram um repórter acidental, acompanhado de uma criança de 5 anos, a voltar para trás à chuva, porque se tinha esquecido no carro dos bilhetes, que todos tinham no bolso e ninguém exigia.   Por mim, não tenho nada a apontar à organização, que nunca me exigiu o “bilhete”, cumprimentaram-me, sorri e sorriram-me; muito menos aos distribuidores e amigos, e claro, é sempre um prazer ver, rever, conhecer e reconhecer muitos dos meus leitores: Você é que é o JVH? Pois sou, há 62 anos com 40 de hifi!...


 
JVH com António Flórido (Estereofonia.net): amigos audiófilos desde os tempos da Imasom


Assusto-me já, quando dou comigo acontar aos jovens a história da minha vida audiófila, como se estivesse no banco do jardim a tentar impressionar o meu interlocutor acidental: fui colaborador da Imasom, co-fundador da revista Audio, escrevi nos 3 principais jornais diários: Correio da Manhã, Público e DN, em várias revistas nacionais e internacionais, sempre sobre hifi, e hoje sou editor do HIFICLUBE.NET, um conceito criado pelo meu filho Pedro Henriques, que é hoje a mais internacional das revistas online sobre áudio highend em língua portuguesa, e comemora o 10º ano de publicação, estando em vias de apresentar uma imagem renovada, num site com design moderno e funcional.


Apesar de todo este saber de experiências feito, continuo a ter a capacidade de me surpreender, de me emocionar até e, de uma maneira geral, gostei do que vi e ouvi no Pestana Palace. Seria difícil fazer melhor em tão pouco tempo. E eu sei do que falo.


 
JVH em accção, captando som e imagem para mais tarde recordar
(foto cortesia de Fernando Salvador - hi-fi.ebox.pt)
 
E também gostei do que aprendi, conversando com aqueles que, querendo saber mais sobre o fenómeno áudio, acabam afinal por me ensinar sempre algo de novo.
É por isso que esta Parte 1 da Reportagem é dedicada à tribo audiófila, composta por todas as pessoas que se cruzaram comigo: as que me conhecem há muito anos e mesmo aquelas que não sabem quem eu sou – nem querem saber and couldn't care less...


 
Ó gente da minha terra, é meu e vosso este fado, tenho o destino traçado por esta paixão pelo áudio 


Pois eu quero saber quem são todas as personagens deste conto de fadas audiófilo cuja acção teve lugar num palácio de Lisboa! Quais os seus interesses, motivações. Saber por que estavam presentes no lugar certo à hora certa e foram filmados pela minha objectiva indiscreta.


Mandem emails, apareçam no Facebook, no Twitter, visitem o Hificlube.net, partilhem esta reportagem com os amigos, pois são vocês os verdadeiros protagonistas desta história.


Foi assim que eu comecei, e não me arrependo nem por um instante de todo o tempo que passei por esse mundo fora em busca do Graal Sónico, algo que nunca encontrarei, porque sei que a perfeição na reprodução electrónica de música não existe. Mas será que não existe mesmo? É isso que vamos ver na Parte 2 desta reportagem a publicar em breve (stay tuned).


Não sei o que os poucos hóspedes do Pestana Palace terão pensado dos inesperados (e ruidosos) vizinhos do 3º andar. Mas eu fiquei com vontade de me hospedar lá, com a Leonor, numa noite mansa de Lua cheia, num quarto com vista sobre a cidade branca e o Tejo lá em baixo correndo cor de prata para o mar salgado.


Sabiam que o barulho das ondas é bom para “queimar” colunas de som? Talvez assim não seja preciso morrer e voltar para buscar os instantes que não vivi junto ao mar...