2005

Crème De La Crème




O meu universo de testes é muito limitado: só testo no meu estúdio, ou faço audições em terreno alheio, ao que quero, quando quero e como quero, depois de uma pré-selecção rigorosa, e apenas se isso me der prazer. Sou um amador na verdadeira acepção da palavra: amo o que faço. Assim, por paradoxal que pareça, os meus “melhores do ano” não o serão de facto, em termos absolutos ou sequer relativos. São aqueles que, ao longo do ano, me deixaram uma memória auditiva ou visual indelével, e cujo desejo de os voltar a ouvir (ver) é recorrente, mesmo sob pena de me esquecer de outros igualmente bons. De repente, apetece-me tê-los comigo, como às pessoas de que gostamos, para os montar, afinar, escutar de novo, comparar e amar; ou então sinto um forte desejo de os possuir. Definitivamente. Hélas, isso nem sempre é possível na minha área específica, porque se trata muitas vezes de produtos raros e caros, quando não mesmo inacessíveis, e o desejo tem os limites que a razão impõe. Por vezes, sinto-me como o astronauta, o explorador ou o alpinista que atinge picos acima do que pode a força humana, apenas para poder dizer com orgulho: estive lá! e contar aos outros como foi. Atingir o objectivo não tem sempre de significar posse. E isso é tanto verdade para a escrita como para a leitura: quem lê crítica de áudio apenas com o objectivo de comprar fica reduzido às suas próprias limitações económicas. Ora os sonhos não se compadecem com os limites da realidade. É assim com a vida, é assim com a arte, a ciência, a técnica. Deixe que os meu artigos sejam as velas da caravela dos seus sonhos audiófilos e navegue por sons nunca dantes navegados sem destino definido. Se não chegar a bom porto a viagem vale por si. Na semana seguinte, parta para outra.


Já tive a tentação de escrever com ironia no final de alguns artigos: não experimente fazer isto sozinho em casa, a exposição ao som highend é altamente viciante. Por vezes, contudo, fico tão surpreendido com a relação qualidade/preço de certos produtos áudio e vídeo que me pergunto se a busca do Graal não será afinal uma viagem sem fim. Achei pois mais interessante estabelecer um porto de partida (acessível) e um porto ideal de chegada (o pico inacessível ao comum mortal) e preencher as etapas intermédias com prazeres diversos que alegraram o meu ano de 2005 sem juízos comparativos de valor relativo ou absoluto apenas de amor. Os leitores podem navegar no sonho relendo os artigos respectivos na minha página, ou nas folhas amarelecidas do DNA/DN Música que escaparam do lixo e servem agora para embrulhar ramos de flores ou castanhas quentes em cones fumegantes no Inverno da sua vida editorial.



PORTO DE PARTIDA: DENON S-101 SMARTLIFE

O Denon S-101, da série SmartLife, é leitor-DVD/CD (MP3,WMA), sintonizador (AM/FM/RDS), amplificador (50W c/), processador (Dolby Digital, DTS) e tem um subwoofer activo (100W) e dois satélites de design atraente fabricados num composto de metal e plástico, que podem ser colocados sobre elegantes suportes próprios, na estante ou até na parede (ficam a matar ao lado do plasma ou do LCD). E é tão intuitivo na utilização, na montagem e na afinação que, de facto, vai sentir-se inteligente só por o ter comprado. Oferece-lhe “surround” virtual com apenas duas colunas! Preço: cerca de 1 300 euros.



PORTO DE CHEGADA: KRELL EVOLUTION+WILSON ALEXANDRIA




O sistema de amplificação Krell Evolution (126 000 euros) é a opera magna de Dan D'Agostino. Terão sido vendidos até agora apenas dois exemplares em Portugal. O mesmo se pode dizer das colunas Wilson Audio Alexandria (145 000 euros), consideradas pela crítica internacional como as melhores do mundo, ponto final, parágrafo.



PORTO DE HONRA


A menção honrosa vai para todos os outros equipamentos de áudio e vídeo que testei em 2005 e com os quais poderia viver sem me arrepender no dia seguinte ou precisar de os comparar constantemente para provar a mim próprio e aos outros - uma das angústias existenciais dos audiófilos - se a minha é melhor que a deles...
As colunas sinobritânicas Monitor Audio RS1, as francesas JM Lab Profile 908, as italianas Sonus Faber Domus Concertino e as austríacas Vienna Acoustics Haydn Grand; os amplificadores sinoholandeses a válvulas Prima Luna Prologue One, os sinoalemães Vincent SV-236, os alemães de raça pura Audionet PreG2/AMPII e o japonês Denon PMA-SA1. Convivo agora com o Advance Acoustics MAP 407, um amplificador integrado sinofrancês de 200W, que é a grande surpresa do ano. E descobri com o IsoteK Titan que filtrar a electricidade que a EDP nos serve é essencial para a saúde do som. A Sony com os auscultadores MDR-SA5000 devolveu-me o prazer das audições intimistas. E não me fiz rogado para ir ao cinema em casa com o fabuloso conjunto DVD-A1XV/AVC A1XV, o representante máximo da tecnologia AV japonesa; ou o leitor-Universal alemão Acoustic Arts I com os cinco canais de som “surround” amplificados pelo italiano Pathos. Finalmente a experiência do som/imagem total do escocês Linn Classik Movie e do projector LCD Hitachi PJ TX200. O espaço que resta não chega para descrever o muito que vi e ouvi nas feiras de Las Vegas, de Munique e no audioshow de Lisboa. Mas ficam as sugestões para o Pai Natal: pode fazer os leitores de “Sons” felizes com qualquer um destes presentes no sapatinho...


Pela minha parte vou passar o Natal com Audio Research CD7, Advance Acoustics MAP407 e Martin Logan Summit...