2002

Crème De La Crème



Rádio nostalgia


Andy Warhol teria gostado do Tivoli One. O som é monofónico e a sintonia é manual e analógica: roda-se um botão, que por sua vez faz girar um disco, que aponta a frequência seleccionada como um relógio marca a hora: a luz-piloto cor de âmbar ilumina-se em pleno para indicar que se «apanhou o posto», sossegando-lhe finalmente o sopro de ruído rosa. O Tivoli One utiliza a tecnologia de ponta dos telefones celulares e descobre estações de rádio nos cantos mais recônditos do espectro com a precisão de um cão de caça. Embora monofónico, ou talvez por isso, o som resultante é doce, cheio, natural. As vozes masculinas soam no limite do «dó de peito». E a carga emocional, sensualidade, presença e doçura do som torna a voz das locutoras macia e roliça como a de madonas renascentistas de peito farto. Ah!, e os pianos, que riqueza harmónica...


O Tivoli One parece um rádio do tempo da minha avó, e vem montado numa adorável caixinha de madeira, igualzinha as que o meu avô, que era carpinteiro, construía com paciência de santo, os óculos grossos caídos sobre a ponta do nariz, enquanto assobiava modinhas do tempo dele. Chamava-se Maurício, o meu avô, e eu adorava recolher as aparas com o cheiro a resina da madeira fresca acabada de cortar..

Distribuidor: Esotérico.


«Warm-up»

O Mc Intosh C2200 ilumina-se e ilumina-nos.
Iluminam-se os «olhos azuis» do mostrador e o coração de ET no seu interior. Ilumina-nos o som, com aquela «luminosidade» única, fruto da perfeita restauração harmónica do registo original só possível com a tecnologia de vácuo

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A dinâmica musical revelada pelo C2200 é muito rara, mesmo no meu vasto universo de análise: os músicos saltam do palco com inusitada alacridade, conferindo um entusiasmo contagiante ao processo musical que parte de um patamar de silêncio fantasmagórico: nunca ouvi um amplificador a válvulas tão silencioso. Ou talvez porque a dinâmica está aqui intimamente associada à integridade harmónica.


Adequei a tonalidade ao meu gosto pessoal, «cortando» mui ligeiramente os agudos, como quem «corta» um uísque (bourbon?) velho de 50 anos com um pouco de água «to bring out the flavour in it». Heresia das heresias!, até os controlos de tonalidade (graves e agudos) cumprem aqui correctamente a sua função. Outros há que soam a água com lixívia em uísque marado.


A palavra «warm-up» ilumina-se no mostrador durante 30 segundos, enquanto o filamento das válvulas aquece, tempo durante o qual o prévio está inactivo para evitar ruídos de comutação. Só depois se percebe que «warm-up» é parte de uma mensagem subliminar mais ampla: «Let me warm you up, baby!».


Vou sentir saudades desta chama que arde (quase) sem se ver para nos aquecer a alma com o conforto da música reproduzida no limite da perfeição.


Nota máxima para a beleza (retro), ergonomia (actual) e musicalidade (eterna) do preamplificador McIntosh C2200. O preço, nestas circunstâncias, não passa de um mero detalhe. Tenho visto na imprensa publicidade a relógios bem mais caros. Como se no preço estivesse incluída a possibilidade de parar a marcha inexorável do tempo que nos resta para a morte. Antes viver o resto da vida com um McIntosh C2200.

Distribuidor: Videoacústica

Ao ritmo do coração

A música não são apenas notas, são pausas também. O conversor digital/analógico Chord DAC64 respeita-as religiosamente. É este respeito pela verdade que determina o ritmo e a dinâmica da música, a respiração ora pausada ora ofegante em função das solicitações do caminho do sinal.


Notas? Sons? Frequências? Qualquer computador identifica uma voz humana pela análise do espectro. Mas pode ele adivinhar nas pausas, nos silêncios: o amor, a felicidade, a angústia, o ódio, o medo, a raiva, a dor? É com o coração e não com o ouvido que as mães reconhecem o choro dos filhos na maternidade..

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O Chord DAC64 tem esse dom raro de reproduzir a luz interior que emana dos próprios intervenientes envolvidos no processo musical em curso, como uma aura de santidade (só detectável pelos iniciados), que os individualiza física e espiritualmente ao revelar-nos os seus sentimentos mais íntimos. Convém não confundir a discreta claridade que inunda o palco sonoro com falta de transparência. Esta é uma claridade morna de fim-de-tarde, que confere corpo e volume às formas ao prolongar as sombras dos harmónicos, como num quadro de El Greco.
Descobre-se com prazer que na natureza não são afinal os sons que contam mas antes a sua carga emocional. Ou, parafraseando um cartaz que vi recentemente no «Ground Zero» em NY: «o carácter humano não se mede pela grandeza do feito (técnico, neste caso), mas pela grandeza do coração».


O coração do Chord DAC64 é do tamanho do mundo

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Distribuidor: Alfida, V.Castelo, telef. 258 80 15 80 (em Lisboa, pode ouvi-lo sem compromisso na «Absolut», telef. 21 355 27 10)

X-Files


O FPB 400cx é um dos três modelos de amplificador estéreo da nova Série-X, apresentada pela Krell, em Janeiro de 2002, em Las Vegas. Mantém o ar feroz sob a armadura metálica e negra, com os flancos protegidos pela muralha de lâminas afiadas dos dissipadores. Logo que a batalha da música começa, é fácil perceber que esta muralha não se irá desmoronar como a de Jericó, por muito alto que o inimigo grite: os 400W/8 declarados dobram na razão inversa da impedância até atingir os 1600W/2 ómios, assim a corrente de sector resista a este autêntico sorvedouro de energia...


Com um leitor-CD/pré/processador Krell KPS25c a atacar o FPB 400cx, através de cabos CAST; e umas Martin-Logan Odyssey na outra ponta de uns cabos Nordost Valhalla, terei obtido o melhor som que alguma vez agraciou estes ouvidos no seu habitat natural. Dos contrastes dinâmicos à pureza dos timbres; da velocidade de resposta a transitórios ao esmagador poder das massas orquestrais; da precisão cartográfica da imagem estereofónica, que nos permite mergulhar na profundidade do palco sonoro como se guiados por um GPS, à sensação de presença palpável, tangível, só possível nos fenómenos paranormais, tudo se conjuga para que o Krell FPB 400cx seja o primeiro grande amplificador estéreo a transístores a justificar a minha nota máxima neste início de século.

Distribuidor: Imacústica