2004

Emails 21: Stradivari No Meridien, Em Lisboa



Audiófilos de todo o mundo, uni-vos!...


Subjectividade objectiva

Parabéns à Imacústica pela realização do evento e o excelente resultado alcançado, quer pelo ambiente acolhedor, quer pelo que pudemos ouvir. Não é fácil colocar uma coluna genuinamente full-range a tocar numa sala de hotel: e que bem elas tocaram (!). As Stradivari têm um potencial assombroso. Tantos anos de expectativa colocavam a fasquia bem alta relativamente à mais recente realização de Franco Serblin. Não tenho dúvidas em afirmar que se trata de uma das melhores colunas que alguma vez ouvi: a clareza e transparência estão ao nível do que já ouvi de melhor em painéis, mas com uma tensão que só uma coluna de caixa pode conseguir e com um carácter 'não-obstrusivo'. As Stradivari 'deixam passar tudo': os mais pequenos espaços intersticiais da música são revelados com um detalhe quase 'obsceno'. Destaque ainda para a notável coerência e integração: os drivers não se ouvem e falam a 'uma só voz'. Dinâmicamente são fenomenais, não apresentando qualquer tipo de congestão ou compressão. Dito isto, o que mais me desagradou foi tratar-se de um som 'hiper-realista' em alguns sentidos. Desde logo na escala física que era, com frequência, 'larger than life'; por outro lado, era como uma daquelas fotografias hiper-contrastadas, sem dúvida um efeito 'espectacular', mas que percebo como 'artificial', faltando 'organicidade' às texturas das vozes e instrumentos. Devo, porém, acrescentar que estas me parecerem - pelo que conheço deles - ser características imputáveis aos Krell (contraste,grandeza, espetacularidade, 'slamm', 'wallop', 'balls'), coadjuvados pelos Transparent Reference XL. Julgo que o que se ouviu no Meridien traduziu em muito o carácter dos Krell e Cia ... e que melhor elogio se pode fazer a uma coluna que o de permitir passar o carácter do que está a montante? A palavra que mais ouvi em relação ao som foi 'realismo'. Eu não senti isso. Nunca, em nenhuma circunstância, me esqueci que era de um sistema que se tratava - superlativo, mas um sistema. Não quero parecer excessivamente crítico: o que se ouviu estava a um nível altíssimo. Os meus reparos têm a ver com a minha opinião pessoal e com aspectos aos quais sou particularmente sensível. Em relação aos aspectos aos quais fiz reparos, recordo a tangibilidade do espaço,instrumentos, intérpretes e a correcção espacial (dimensões relativas) e a tal organicidade das texturas que ouvi com o Ongaku, como sendo a minha referência absoluta. Reconhecendo a minha subjectividade, não creio que o Ongaku fosse mais 'realista' ... com ele havia limitações dinâmicas, de controlo no grave (aspecto que também não era famoso, mas por outros motivos e facilmente compreensíveis tendo em conta a extensão das Stradivari e tratar-se de uma sala estranha à Imacustica) e na dimensão máxima da escala espacial que era capaz de reproduzir. Todos os sistemas nos contam mentiras. Pecam por adição e subtração. Os sistemas com os quais convivemos melhor são aqueles cujos pecados menos influem (ou mesmo intensificam, há que reconhecê-lo) o nosso prazer de audição.

João Jarego

Uma paixão antiga

Desde que 'pousei' os meus olhos numas Sonus Faber pela primeira vez (1997, DIGISOM, Portas de Sto Antão), o meu coração ficou arrebatado (de tal forma que gastei no mesmo momento uns inimagináveis 160 cts numas Concertino). Desde aí, sempre que visitava a DIGISOM (ou a casa do JP) e podia ouvir as Guarneri, derretia-me mais um pouco... Assim a curiosidade era muita para ver (porque os meus olhos também ouvem) e ouvir as Stradivari. O aspecto impressiona pela invulgaridade do design e impressiona pela qualidade 'exquisit' das mesmas. Quanto ao som... eu nunca soube empregar a contexto os termos usuais no vernáculo audiófilo e, por isso, a tentativa da tradução das emoções que sinto quando ouço algum sistema é o melhor comentário que posso fazer. E aqui as Stradivari conquistaram-me. O seu poder arrebatou-me, ao mesmo tempo que de uma forma antagónica comparada p.ex com umas Wilson, a sua 'souplesse' me mantinha agarrado música após música. Recordo, em especial numa faixa de um CD do Rui Borges com um trecho de Tango, da capacidade de captar os pormenores - a melhor que já alguma vez ouvi, de tal forma que me pôs 'borboletas no estômago'. Conseguem fazer parecer tudo de tal forma simples, natural e real (ao contrário do que o meu amigo Vermeer achou) que senti amiúde que podia de facto fechar os olhos e estar ao vivo com os intérpretes. Em suma, as melhores colunas de som que já ouvi, ainda por cima em ambiente hostil - para mim ouvir música é um acto intimista... Resta-me o consolo de pensar que se pudesse almejar a sua aquisição, por certo poderia também dar-lhe o espaço que elas merecem e necessitam... Não sendo assim, as Guarneri sempre cabem na minha sala e o seu aspecto é mais consentâneo (já dizia a raposa: «... estão verdes...'). Last but not least, a simplicidade da realização do evento, o pormenor do vinho (excelente) e da simpatia da família Dias rematou com o melhor ponto este fim de tarde.

Ricardo Pinto

Melhor que Watt Puppy 7

Eu não tenho muita queda para reviews, mas achei que a sala fazia muitas ressonâncias abafando os médios, que tinham um ligeiro eco metálico, por outro lado os agudos estavam um pouco abafados para o meu gosto. Cheira-me que a culpa seja dos cabos Transparent, mas totalmente limpos e sem grão... Quanto ao som LPs versus CDs, tinha LPs e CDs, não estive com atenção para identificar SACD, tinha bons e piores dos dois lados... Em conclusão, achei o timbre muito rico, como gosto, provavelmente, tentando ultrapassar as condições da audiçao, prefiro estas colunas às Watt/Puppy 7...

António Melo Ribeiro

A quadratura do círculo

A Sonus Faber Stradivari foi a melhor coluna que ouvi até hoje. A ÚNICA que até hoje me transmitiu paz. Porquê? Porque não ouvi senão música. Em toda a escala. Daí que o meu cérebro não foi obrigado a descodificar o que falhava, motivado por um qualquer desconforto. Ao contrário. Não procurou o médio, o grave ou o agudo, nem tão-pouco o metálico, o quente ou a velocidade: a coisa simplesmente fluia sem mácula. E, quando assim é, tudo faz sentido.A ter de as descrever de forma mais objectiva, diria que fazem a quadratura do círculo. Dão-me o que as Guarneri tão bem fazem e também o que elas não podem fazer. Mas isso, como dizia, pouco importa. Porque estas colunas, como nenhumas outras, transmitem música. Transmitem paz. Soberbas! As Stradivari têm a capacidade (ímpar) de nos fazer viajar, oferecendo música. Música. Na linha do que escreve António Damásio (Cf. 'Le Voyage Magnifique', Schubert por Maria João Pires): '(...) o cérebro trata as mensagens musicais como se elas viessem do coração e não do ouvido. Esta música (referindo-se a Schubert) apropria-se da transmissão e chega ao cérebro não somente enquanto som, mas também como sentimento puro.' Daí que qualquer análise mais terrena falhe em caracterizar aquilo que vivenciámos ontem e que se situa, retomando o mesmo autor '(...) bem longe do quadro mundano da experiência.' Franco Serblin demonstrou a sua tese de que as Sonus Faber são instrumentos musicais e não outra coisa.

Tiago Machado