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Esotérico: regresso ao futuro+follow-up

Regressei ao futuro, a um lugar onde fui feliz no passado. Foi em casa de João Cancela, em Loures, que ouvi o meu primeiro sistema audiófilo, tinha ele então um amplificador Threshold Stasis, de Nelson Pass (que depois comprei), e umas colunas Étude que, tal como as Utopia actualmente, já na altura permitiam afinação “a gosto”.

João Cancela cumpriu agora um sonho antigo: a Esotérico, Consultores de Som tem finalmente condições óptimas de audição dos equipamentos que distribui, nas duas salas concebidas de raiz por Marcelo Tavares, cuja obra de arquitectura acústica de interiores veio revolucionar o panorama audiófilo nacional.

Alberto Silva, que em boa hora assinou contrato pela equipa da Esotérico, e que “imortalizei” num artigo publicado no DNA (ver caixa: Artigos DNA), foi o demonstrador de serviço.

João Cancela encontrou finalmente o ponta-de-lança que lhe faltava. Alberto sabe e gosta do que faz e movimenta-se bem na área. É meticuloso, escrupuloso e (talvez demasiado) exigente consigo próprio. Por isso, só me abriu as portas dos novos auditórios, quando ficou satisfeito com os resultados acústicos.

As dificuldades e as vicissitudes foram muitas, segundo me relataram, mas eis que uma vez mais Marcelo Tavares “came to the rescue” (há por aí quem pense que um estúdio de audição é um estúdio de gravação ou uma discoteca) e voltou a surpreender-me pela positiva.

As obras de Marcelo Tavares têm assinatura acústica, tal como muitas das mais famosas salas de concerto do mundo. Nem envolvem o ouvinte num largo amplexo de reverberação de catedral, mais adequada à elevação do espírito e ao castigo do corpo; nem o “atabafam” naquele abraço claustrofóbico de austeridade sonora das câmaras anecóicas que, de tão “surdas”, nos ensurdecem com a violência do silêncio.

Os auditórios de MT não oprimem nem suprimem sons, redimem-nos, aproveitando dos reflexos secundários apenas os que contribuem para o nosso bem estar auditivo, criando ao mesmo tempo um ambiente estético e profissional de génese doméstica, que nos faz sentir confortáveis.

No dia em que que todos os distribuidores tiverem auditórios deste nível (sobretudo os que apoiam o projecto Hificlube.net que, por imperativo ético e comercial, são aqueles que apoiamos também) serei um homem feliz, porque estes espaços nobres dedicados são um contributo fundamental para a qualidade do meu trabalho, tanto fotográfico como sonoplástico e de análise, pois permitem-me exercer o míster de “criticar” sem ter de carregar o piano: a minha coluna (a vertebral) agradece.

Ao mesmo tempo, os bons auditórios são também um contributo importante para revelar as qualidades e potencialidades dos sistemas divulgados e testados no Hificlube.net, ao disponibilizar ao leitor as mesmas condições de audição do crítico, eliminando uma importante variável da equação acústica: a minha sala.

Como se a selecção musical, a experiência auditiva, o modus operandi e o gosto pessoal não fossem já factores mais do que suficientes de polémica e controvérsia.

Embora eu defenda que a crítica é tanto mais isenta quanto menos o “gosto” interferir na opinião técnica expressa. Deixemos o “gosto” ao gosto de cada um – menos do crítico, que deve deixar bem clara a razão da sua preferência e separar o que é pessoal do que é factual.

Os meus “gostos” ficam do lado de fora da porta quando estou a trabalhar. E só os deixo entrar, quando finalmente “arrumo a ferramenta”, e me posso sentar como ouvinte para apreciar o que acabei de analisar como crítico.

Auditório 2: Focal/NAD

Alberto Silva optou por apresentar primeiro um sistema perfeitamente acessível, com um preço total na ordem dos 4000 euros, composto por um NAD CD 546 (€500), Receiver NAD 758 ( €1000) e as colunas Focal Aria 926 (€1800) Nota: preços aproximados. Os amplificadores a válvulas da Quad estavam apenas em exibição estática.

Arrisco dizer por aquilo que ouvi brevemente que a relação qualidade/preço deste sistema é superior à do super sistema que seria demonstrado depois no auditório principal.

De realçar a neutralidade das Aria 926, a provar que os altifalantes com cones de linho puro não são apenas uma operação de charme ou de marketing a la française.  O “toque” do linho é suave e natural, o que torna a série Aria da Focal um produto altamente recomendado pelo Hificlube.

Importante: por motivo de reclamação de copyright o excerto "Have Mercy" por Michelle Schocked foi retirado. Sorry, guys!...

A peça clássica que se segue revelou uma boa reprodução das cordas com os registos médios bem secundados pelo tweeter que, sem ocultar o som mais agreste dos instrumentos antigos, resulta num ensemble acústico harmonicamente coeso, tonalmente agradável e acusticamente apelativo, com particular realce para a notável limpeza e articulação do sublinhado das cordas graves propulsionando o violino virtuoso.

Auditório principal: Focal Stella Utopia, Halcro dm10/58, AMR CD/DP777

Aqui assisti à sequela de “The Return of the Jedi”, não na tela, mas no regresso da Halcro ao mercado highend que se saúda. Já não ouvia os Halcro dm58, desde talvez 2003, quando os testei para o Hificlube (podem ler aqui o teste disponível no Arquivo), tendo publicado uma versão light no suplemento DNA do DN (ver Artigos do DNA).

Nota: este artigo tem uma história curiosa, porque tendo sido publicado sob o título “Boa Nova” mas paginado com a fotografia errada, exigi ao editor (and he was really pissed off with it!...) que fosse repetido na semana seguinte, agora sob o título de “De Novo a Boa Nova” o que prova a influência da rubrica “Sons”, no contexto de um suplemento cultural com custos de produção muito elevados. In illlo tempore uma página em quadricromia no DN valia muito dinheiro. E “Sons” foi publicado no DNA durante seis anos!...

Também disponível no Arquivo do Hificlube está o teste do modelo Halcro Logic MC20.  

Os Halcro dm58 acolitados pelo prévio dm10, tendo como fonte o duo AMR CD/DP777, alimentaram as Focal Stella Utopia EM.

Alberto Silva apenas “ajustou” a tensão do grave (observe as pequenas caixas ao lado dos monoblocos da Halcro na foto acima), deixando todos os parâmetros na configuração de fábrica, ou seja flat, embora seja possível regular manualmente a “presença” dos registos médios e a “pendente” da resposta nas altas frequências.

Em termos técnicos foi uma opção correcta, conforme provam os meus registos digitais de captação de som na sala. Pessoalmente, prefiro um som mais discreto e menos incisivo. Mas não é do meu "gosto" que reza esta história.

Aqui estamos na presença de um sistema highend, de preço também muito elevado e, claro, as diferenças em termos de detalhe, ataque e, sobretudo, de escala, são óbvias. You get what you pay for...

Dos vários registos digitais, seleccionei para os leitores do Hificlube dois excertos: Ciúmes da Lua, de João Pedro Pais e a versão orquestral de Quadros de uma Exposição, O Portão Grande de Kiev, de Mussorgsky, pela Minnesota Orchestra (Reference Recordings).

Nota: em ambos os auditórios o som que se ouve nos videos foi captado directamente com o microfone digital colocado num ponto ideal fixo e sem processamento posterior, embora as imagens tenham sido editadas para ilustração.

Importante: Hificlube é totalmente alheio aos anúncios que são incluídos nos videos pela Google, que podem ir de amplificadores de Classe D a sapatos e "Russian sexy girls"...) e não tem qualquer participação monetária na sua publicação.

Follow-Up

Um mês depois, voltei ao local do crime, e qual analista forense descobri novas provas do "crime perfeito" cometido pelo Alberto Silva, que não mudou nada ao nível do posicionamento e da configuração das colunas; manteve o ADN da amplificação; e limitou-se a alterar cablagens e a optimizar o funcionamento do DAC AMR-777.

O som tinha melhorado de uma maneira geral, mantendo a solidez do grave, agora um pouco mais solto e com mais extensão; mais cor e contraste na gama média e um agudo menos "explícito" e com melhor entrosamento.

Enorme melhoria também ao nível da estabilidade e tridimensionalidade da imagem.

Sujeito a interrogatório, Alberto confessou logo que tinha feito alterações ao nível da fonte e, por ser verdade, assinou a seguinte declaração para memória futura:

As diferenças na afinação do sistema, para além das vantagens inerentes a um maior tempo de rodagem foram essencialmente provocadas por alterações ao nível da fonte:

PC/J.River 18

Utilização do iFI USB Power + Cabo Duplo dedicado Gemini + iPurifier entre o PC e o AMR DP-777

Optimização das parametrizações de entrada do DP-777

Substituição do cabo de alimentação ao conversor (pelo cabo AMR PC77) e cabo de interligação do conversor ao pré Halcro (pelo cabo AMR IC77).

Info adicional:

https://www.facebook.com/notes/ifi-audio/ifi-gemini-dual-headed-usb-cable/483148201720927

https://www.facebook.com/notes/ifi-audio/why-a-usb-power-supply/461174733918274

http://ifi-audio.com/portfolio-view/accessory-ipurifier/

http://www.amr-audio.co.uk/html/powercable_individual.html

Alberto Silva

Gestor de produto / Product manager

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