2003

O Meu Diário Cap. 2: O Dia Em Que Conheci Jean Hiraga



Lá estavam as fotos das enormes «cornetas» que Jean Hiraga utilizara para demonstrar o seu amplificador a válvulas Lectron JH50, num «caveau» audiófilo, que logo associei às catacumbas de Roma onde os cristãos se refugiavam para fugir à ira de Nero.



Seriam oito horas de uma noite chuvosa. O táxi abandonou-me à minha sorte num bairro de ruas estreitas e desertas, tipo Bairro Alto. Com a morada escrita num papel amarrotado fui bater a uma porta de ferro, daquelas com portinhola de casa-de-passe clandestina. Ao ranger da ferrugem, seguiram-se degraus de pedra. «Onde é que me vim meter?, pensei, «ainda sou feito aqui e ninguém sabe onde estou...».



O sentimento de medo logo se desvaneceu com o sorriso aos pés da escada de Jean Hiraga, qual guru rodeado de fiéis que acolhe mais um iniciado no Templo do Som: seriam cinquenta os refugiados da ditadura comercial que poucos anos depois conduziria as «Journées» para a guilhotina. Era o fim do império do áudio na cidade-luz.



Jean Hiraga, francês de origem japonesa - construtor e crítico de nomeada (Nouvelle Revue du Son), o primeiro a chamar a atenção para as diferenças entre cabos -, fala em surdina, o que, aliado à especificidade técnica do tema, tornava difícil a compreensão para quem, como eu, só conseguira um lugar de recurso lá atrás no «piolho» do anfiteatro improvisado.



As colunas eram mastodônticas, negras e feias, compostas por um «caisson de graves» com dois altifalantes de 15 polegadas, sobre o qual assentava uma estranha «corneta» com um altifalante de médio-graves montado exteriormente a meio da garganta. Na boca enorme tinha uma outra unidade de médios, também «horn-loaded» acolitada por um tweeter-de-fita. O filtro divisor e a desarrumação da cablagem estavam à vista.



Percebi então a razão do «caveau» clandestino: os presentes eram todos homens, alguns já maduros, e nenhum teria coragem de confrontar a esposa com a possibilidade de algum dia montar «aquilo» na sala de estar. Por outro lado, se lhes contassem a verdade, elas nunca iriam acreditar que eles tinham passado a noite com «elas». Era um «affaire» para manter secreto em nome da felicidade conjugal. E do bem-estar social: os amigos que preferiam os bares onde «elas» são de carne e osso iriam gozá-los no emprego quando soubessem.



Jean pediu silêncio. Ia começar a demonstração. Antes de cada audição, desenhava a carvão a posição relativa dos «sons» numa enorme folha de papel branco que servia de pano de fundo ao palco sonoro. As colunas tinham uma sensibilidade superior a 106dB e os Lectron JH50 não iriam debitar mais de 5W (15W nos picos), explicou.



A fonte? Um leitor Philips CD-160. «Bom, fiz-lhe umas transformaçõezinhas...», confessou Jean Hiraga com a modéstia que o caracteriza.



Ouviu-se um pouco de tudo. Mas na minha «retina» ficou gravada para todo o sempre a entrada «em palco» de Montserrat Caballé no papel de Tosca, quando descobre que o seu amado tinha sido «acidentalmente» fuzilado. «Via-se» o vulto avantajado da Caballé e sentia-se o ar deslocado pelo seu movimento no palco e a posição exacta em relação ao microfone: o pânico que se segue à surpresa, a dor da confirmação, a raiva da impotência, o desgosto que só a morte pode apaziguar.



Ainda hoje sinto arrepios quando penso nesse momento. E o prazer de o ter vivido.



Nota: Perdi as fotos originais. Estas foram retiradas das páginas da Imasom pelo que a qualidade é ao nível de «arquivo histórico». As fotos como as memórias vão perdendo a cor com o tempo mas não o valor documental e pessoal.