Marantz SA KI_PEARL
Curiosamente, deixou entreabertas portas que permitem ao utilizador algumas divagações, que ele depressa abandonará para se dedicar ao essencial: ouvir a música pela música, como se diz na gíria do futebol. O leitor SA pode ser utilizado como transporte isolado ou DAC externo (24-bit/06kHz via Toslink). E o PM pode dividir-se em prévio e amp.
Divagações obviamente inúteis, diga-se com frontalidade, pois é juntos que eles tocam bem, como uma orquestra de câmara afinada, na qual todos os músicos se conhecem ao ponto de se compreenderem só com o olhar. Assim, os meus comentários devem ser entendidos como uma apreciação conjunta.
Já a selecção de filtros tem que se lhe diga. E não me refiro apenas à possibilidade de alterar a pendente do filtro digital com CD e SACD. Qualquer audiófilo que se preze optará pelo default de fábrica (Filter 1). Só que – oh heresia! – eu dei comigo a preferir o Filtro 2 (de pendente mais rápida). Sobretudo com SACD: o som ganha presença, volume (literalmente, pois soa mais alto), corpo e substância. E até com CD, o Filtro 2 parece conferir mais intimidade à audição de música clássica e suavidade às cordas, à custa de algum detalhe redundante. Atenção: o leitor tem memória da selecção e mantém como default o último filtro escolhido.
Por redundante, observei ainda, com surpresa e alguma frustração, que o controlo remoto tem uma série de opções meramente decorativas: e bem que eu gostava que, pelo menos o comando de Phase, existente no controlo remoto, não fosse apenas decorativo, já dando de barato o Noise Shaper, DC Filter e External Clock, todos eles buttons that cannot be used on this unit. Ah, bom, mas o Sound Mode não funciona com CD mas funciona com SACDs híbridos: SACD (default) ou CD.
Houve um tempo em que a simples menção de controlos de agudos e graves fazia qualquer audiófilo entrar em apoplexia. Eu próprio contribuí para esse peditório e perante vós me penitencio aqui e agora. Com o avançar da idade, os meus ouvidos deviam estar menos sensíveis às altas frequências, acontece que dou comigo frequentemente a querer “cortar”, ainda que quase imperceptivelmente, o brilho no olhar com que certos discos ousam apresentar-se em público, ou a domesticar excessos de flatulência nos graves.
No fundo, o que eu quero dizer com isto é que estou-me simplesmente borrifando para o que os outros pensam, sem que isto constitua um regresso serôdio ao radicalismo próprio da juventude. É antes a constatação de que o cilício (ou silício para os amantes do vácuo) da mortificação audiófila já não se justifica nos dias de hoje. Prefiro a suavidade da seda ao cinto de crina do suplício da audição fundamentalista só para poder garantir o meu estatuto público de pretenso guru.
Já ultrapassei os dois terços do meu prazo de validade, e não tenho muito mais tempo para gozar as coisas boas da vida, sem ter de sofrer as dores impostas pelos mitos que ajudei a criar.
Aqui estou solidário com Ken Ishiwata: quem não gosta de controlos de tonalidade tem bom remédio: desligue o circuito...
Esta nova atitude audiofilosófica permitiu-me fazer uma descoberta assaz curiosa: o amplificador soou-me melhor no modo “Tone On” (mesmo com os potenciómetros na posição 12 horas). Ora isto deve ter uma explicação técnica, mas eu fico-me pela emocional: o PM KI Pearl (prévio+amp) foi afinado por Ken Ishiwata como um todo orgânico e assim deve ser utilizado. Amén.
E o mesmo se pode dizer do duo SA+PM. Este não é apenas o melhor leitor-CD de sempre da Marantz. É um dos melhores leitores SACD do mercado. É preciso chegar ao nível dos Esoteric e, pasme-se, dos EMM, para encontrar concorrência digna desse nome. Os DACs CS4398 da Cirrus Logic terão alguma quota parte da responsabilidade pelo sucesso, a solidez do chassis também.
O transporte SACD-M10, com gaveta Xyron, igualou ou ultrapassou os anteriores recordes da pista de obstáculos Pièrre Verany, tanto nos drop-outs simples como sucessivos, com e sem variação da distância entre pistas. Aliás, conseguiu mesmo chegar ao fim de todas as provas, incluindo os 4 mm!! (com um ou outro soluço), sem nunca ficar atascado. Simplesmente soberbo.
A capacidade para recuperar informação, sobretudo as deixas ambientais, é igualmente notável. E alguma propensão para soar de rigueur nos timbres é compensada pelo PM (não o Sócrates, claro) com um subsídio de integração harmónica suficiente para o sinal analógico poder levar uma vida de luxo audiófilo, sem pagar impostos ao nível da coloração tímbrica ou da compressão dinâmica.
Não é este, no fundo, o sonho de qualquer cidadão audiófilo: viver para a música sem ter de se preocupar com o dia-a-dia?...
Aliás, só conheço um amplificador integrado com características harmónicas semelhantes (atenção, eu não disse iguais): o DartZeel. Embora para comprar o CTH8550 seja preciso, hélas, o salário de um administrador de golden share...
O aparente amortecimento dinâmico do PM não afecta a sensação de “balanço”, de momentum, de peso específico do grave, nem a paisagem luxuriante de tons quentes dos registos médios recortada no negrume do silêncio intersticial. O efeito de profundidade da imagem parece ter sido inspirado na versão 3D de Avatar. E não me refiro apenas à sensação de espaço atrás da linha das colunas. O relevo para cá da linha das colunas é também espantoso, com os solistas bem focados ao centro e isolados dos acompanhantes.
Au naturel, o agudo - de grão finissimo -, diga-se, pode colidir com a actual tendência dos estúdios para “dar vida” ao som, matando a música. Daí talvez a minha opção com certos discos pela acção parcimoniosa do Filtro 2 e a provocação assumida de um suave golpe de pincel com a paleta de tons mornos centrada nos 15kHz.
O PM-KI-PEARL, não sendo revolucionário, é um milagre. Ken Ishiwata pegou num amplificador de Classe A/B clássico, dotou-o de um elevado factor de amortecimento (excelente controlo do grave), à custa, por certo, de uma dose maciça de realimentação negativa, e o resultado é termos a sensação de estar a ouvir um Classe A.
Aproveite que vem aí a crise. Se não sofre da síndrome audiófila da updating constante, imposta pela iDitadura vigente, os “Pearl” são jóias que passam de geração em geração e se vão tornar parte inalienável da sua herança de família. Quem os comprar, morre com eles – e por eles. E assim se vão da lei da morte libertando – como Ken Ishiwata.
Ou se prefere um exemplo mais prosaico e menos mórbido: a Marantz está para a Toyota como os KI Pearl estão para o Lexus. Se já conduziu um Lexus percebe imediatamente a diferença: silêncio e suavidade que não afectam o prazer de condução, leia-se, de audição.
Distribuidor: VIDEOACÚSTICA
Preços:
SA_KI_PEARL: €2 999
PM_KI_PEARL: €2 999
Para mais informações:
http://www.videoacustica.pt/
http://www.marantz.eu/kipearl/