Pouco depois, Dave Wilson entrou na sala e tive a rara oportunidade de captar a sua descrição em video-HD (hélas, em contraluz). Ninguém como o criador para nos falar da criação.
The game is afoot
Passados alguns meses, as Sasha bateram-me à porta, acondicionadas em três caixotes de madeira: dois para os “subs” e um para os satélites. Acho que não devo continuar a chamar-lhes Watt/Puppies, porque deixaram de ser entidades separadas, em todos os sentidos: o crossover é agora comum e as Watts perderam a independência, que mantiveram desde o nascimento como monitoras até à oitava geração; e por falar em oitavas, o som é todo ele mais coeso, mais consistente, como só seria de esperar de uma coluna de caixa única.
Os “subs” vêm montados sobre rodinhas e sairam das caixas a rolar sem esforço, contribuindo para manter a saúde precária da minha outra coluna – a vertebral. Foi tão fácil colocá-los na sala que não resisti, e depois de montar os satélites em cima, seguindo as instruções e utilizando a caixa de ferramenta que as acompanha, resolvi ligá-las ao sistema residente, ainda sobre roller skates e mesmo sem retirar a película protectora. As Sasha já vêm “queimadas” de fábrica: não precisam de lhes dar 100 horas de avanço. Ao fim de umas horas, já estão adaptadas ao ambiente. E nós a elas...
Deixa lá ver, pensei, se estas são como as manas, que tinham a bunda grande e me enchiam a sala de graves ribombantes, voltam já pela porta por onde entraram. O la la, as Sasha têm graves controlados, até algo reticentes pelos padrões puppy, extensos mas ainda com uma ligeira falta de definição; médios cheios e um agudo longo e sem sombra da impertinência das gerações anteriores.
Ouvi-as assim mesmo durante dois dias – tinha medo que a magia se perdesse ao apeá-las do rodado. O facto de estarem mais elevadas em relação ao solo podia ter contribuido para um melhor acoplamento acústico com a sala. E eu já tinha utilizado esta técnica com as saudosas Apogee Duetta Signature, que pesavam uma tonelada e se incompatibilizaram com três das minhas vértebras: duas dorsais e uma lombar. Antes que me atirassem para a cadeira de rodas, meti-lhes eu uns patins - literal e não metaforicamente. E quando por fim as tinha onde queria, calcei-lhes então os sapatos de agulha. Assim foi também com as Sasha.
Wilson Audio Sasha em cor Obsidian Black (foto de catálogo copyright Wilson Audio)
Descoberto o poiso da águia, marquei no chão da sala as coordenadas. Libertei-as dos patins e despi-as da película diáfana que lhes protegia a pele sedosa cor de Obsidian Black, lindas! Optei pelos sapatos de salto mais alto, e regulei o ângulo de incidência dos satélites, segundo a tabela. A propósito: se os bicos frontais dos satélites têm cama para se deitarem, porque não o bico traseiro? Tornava a afinação mais científica, não? Aliás, eu mandei a tabela à urtigas, e mesmo a uma distância de audição de 2,80m (3 m é o ideal) preferi os “A” spikes: o equilíbrio tonal melhora e a integração também.
Close field freak
Eu sou um close field freak: tudo o que seja para lá da 5ª fila provoca-me desconforto. É assim que os engenheiros misturam o som. Aliás, não tenho outro remédio, porque a minha “capela” tem dimensões reduzidas, ainda que adequadas para estar a sós com Deus – leia-se, audições solitárias perto do altar do Som. Daí que ambos – eu e a sala – gostemos de colunas electrostáticas: são mais coerentes no campo próximo e, tendo emissão lateral reduzida ou nula no plano do painel, podem ser colocadas próximas das paredes (a Capela é estreita como a porta do Céu), desde que a parede de fundo se situe a uma distância razoável.
Por outro lado, considero que as colunas nunca devem ser colocadas demasiado afastadas uma da outra: 1, 80 a 2, 10 m é o ideal. Ao contrário do que muitos pensam, o palco sonoro não é mais amplo só porque as colunas estão colocadas a 5 ou mais metros uma da outra, como se ouve por aí nos “shows”. Num bom sistema, há mais palco para além do espaço entre as colunas. E quanto mais rédea lhes der, maior será a interferência dos reflexos secundários que confundem a boa percepção do som directo. Não se esqueça que a “assinatura acústica da sala de concertos” já vem incluída no som directo. Aqui o som reflectido é o da “sua” sala e não o da sala original, seja ela real ou virtual.
Isto para dizer que as Sasha aceitam de bom grado ser colocadas próximo das paredes laterais, desde que se opte por algum (pouco) toe-in no posicionamento, e se lhes dê espaço para respirar atrás, não porque sejam boomy como as suas irmãs (ou serão apenas primas, tal a diferença?), mas porque assim se favorece a ilusão de profundidade.
Convém referir que, quanto mais debruçadas sobre as Puppies estiverem as Watts (com o tee de alumínio mais alto, como no golfe), mais a boca do palco fica próxima do ouvinte e vice-versa. Portanto, não é só a tonalidade que é afectada, é também a imagem, diga lá o que disser a propagation delay table, que estabelece a relação entre a distância e a altura das orelhas de um ouvinte sentado. Como a cadeira é daquelas pneumáticas, foi possível afinar de ouvido a altura ideal ao milímetro. Pode melhorar a fase geométrica mas, ao afectar o equilíbrio tonal, ganha-se em informação o que se perde em integração. A tabela ajuda mas não responde a todos os meus anseios de alma.
Infelizmente, e apesar da elevada sensibilidade, a impedância pode descer aos 1,8 ómios aos 92Hz! O que significa que não devem ser acasaladas com amplificadores a válvulas anémicos. Uma impedância tão baixa está mesmo a pedir um Krell. E foi isso que eu fiz: Sasha/Krell Evo 302. Na linha da frente: o tradicional McIntosh C2200. Só houve variação nas fontes: Chord DAC64, McIntosh MCD500 e, the last but definitively not the least, o dCS Scarlatti de 3-peças: Transport/DAC/Clock.
David Wilson and I
A minha relação com a Wilson – e com David Wilson – é tão longa como a minha carreira audiófila. Ficam aqui alguns momentos dos muitos que vivi, que guardei para mais tarde recordar.
Mrs. Wilson apresenta em estreia mundial, no Stereophile Show 97 de S. Francisco, as Grand Slamm (1997)
Estive presente em quase todo os momentos importantes da marca, nomeadamente em S. Francisco, na apresentação das Grand Slamm, que viriam a ser o embrião das Alexandria, já na altura votadas como o melhor som do Stereophile Show.
Peter MCGrath e as Watt Puppies 7 (New York 2002)
E em Nova Iorque, em 2002, na apresentação das Watt/Puppies 7, com a presença de toda a família Wilson.
A família Wilson na apresentação das Watt Puppies 7 (New York 2002)
A verdade é que, embora tenha publicado dezenas de opiniões sobre as colunas Wilson Audio Watt Puppies (nem sempre positivas, admito), não me lembro de ter publicado um teste formal. Sempre as achei demasiado personalizadas, demasiado...eh... americanas.
Impressionam numa primeira audição e nunca deixam ninguém indiferente, é verdade: a capacidade macrodinâmica produz ressonâncias bíblicas na alma dos ouvintes. Contudo, aquilo que para uns são virtudes para outros não passam de defeitos: um grave enfático nos 40-80Hz, e paradoxalmente débil na extensão subjectiva, médios ultra informativos, que se podem tornar duros a níveis elevados, se não tiver cuidado com a amplificação e os cabos, e um agudo sobre o brilhante, quando não mesmo agressivo.
Todos estes aspectos foram diagnosticados e gradualmente corrigidos de geração para geração, ao ponto da crítica internacional elogiar cada nova versão como sendo a definitiva: some like it hot. Eu sempre achei que era mais e melhor do mesmo. Faltava o golpe de asa das Sasha.
Novos altifalantes, novos materiais, novas formas, redimensionamento? Sim, tudo isso contribuiu. Mas para mim, o segredo do som das Sasha, que as diferencia das suas irmãs ao ponto de David Wilson as ter considerado dignas de iniciar uma nova dinastia, reside sobretudo no novo crossover único. As Sasha são a prova de que eu tinha razão quando escrevi coisas menos simpáticas sobre elas.
De outro modo, o teste ora publicado não teria mais valor que o de flavour of the year, prática na qual a crítica se compraz, com cada novo modelo Watt/Puppy a negar a proclamada perfeição do anterior. Quando sairam as 6, verificou-se que afinal o médio-grave das 5 era excessivo; quando sairam as 7 eis que havia colorações nos médios nunca antes detectadas nas 6; e assim por diante até às 8, cujo agudo envergonhava o das anteriores, que já era perfeito antes de o ser.
A classe de um grande criador como David Wilson também se manifesta na sua capacidade para ouvir, aqui entendida no sentido lato de comparar com o que a concorrência faz (ele sempre foi o melhor concorrente dele próprio) e responder às críticas construtivas da crítica não-alinhada.
Três foi a conta que Deus fez
Wilson Audio Maxx 3 (CES 2009, Las Vegas)
As Maxx 3 são as melhores colunas da Wilson Audio. Já sei que as Alexandria 2 estão num patamar galáctico, mas foi com as Maxx 3 que se deu o ponto de viragem na filosofia wilsoniana: a universalidade do som, que antes era demasiado native para o meu gosto pessoal. As Wilson Audio, que continuam a ser um dos ícones da indústria americana do áudio (são o símbolo do High Performance Audio nos catálogos da CES), abriram-se a outras culturas deixando assim de impor aos ouvintes o facto indesmentível de serem orgulhosamente “born in the USA”.
Wilson Audio Maxx 3, na CES09, sala da Lamm (Nota video em baixa resolução)
Onde antes se exibia poder, passou a exibir-se classe; onde antes se esbanjava macrodinâmica, apostou-se na microdinâmica e na nuance; onde antes explodiam sons numa míriade de cores (colorações?) conflituantes e, por vezes, até antagónicas, como se cada elemento da equipa jogasse para agradar à bancada, e não para ganhar o jogo musical, vive-se agora l’estro harmonico, inspirado e inspirador. As Maxx 3 são melhores porque já não precisam de provar que o são: encontraram a sua paz interior.
O sonho é ver as formas invisíveis
As Sasha não herdaram das Maxx 3 apenas o altifalante de médios e o tweeter, herdaram a personalidade, o corpus sónico, a densidade acústica e a respiração rítmica que define as grandes colunas de som.
Concedo, nesta fase da audição, que o grave não tem ainda a articulação e o recorte de uma “caixa fechada” (as Summit X, que as antecederam na minha alcova, são um bom exemplo); que o tweeter podia ser ainda mais polido; que o “médio”, ainda que absolutamente notável para um altifalante convencional, não atinge em termos absolutos a etérea transparência de uma electrostática.
Mas sobram-me os dedos de uma só mão (e falha-me a memória: ocorrem-me as Magico V e as TDA Reference) para contar as colunas de som com esta avassaladora capacidade para nos inundar de música em vagas sucessivas de refrescante e tangível prazer físico; e, ao mesmo tempo, transmitir-nos todo o misticismo do mar, deixando-nos adivinhar, na brisa suave das audições nocturnas, a Verdade da música nas formas invisíveis dos sons:
As ondas quebraram uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só pra mim.
Sophia de M. Breyner
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte --
Os beijos merecidos da Verdade.
Das fases da Lua à forquilha do Diabo
As principais críticas de natureza técnica às Wilson Watt/Puppies centravam-se em dois aspectos fundamentais: o altifalante de médios era, de facto, um woofer e estava ligado em inversão de fase em relação ao tweeter e ao duplo woofer. Não tem lógica que um altifalante “inspire” enquanto todos os outros “expiram”.
Sabe-se também como o diâmetro de um altifalante de médios afecta a dispersão off-axis à medida que a frequência sobe. A solução é deixar o tweeter descer um pouco mais no espectro. Ora creio que era daí que vinha a sensação de “stress” que se traduzia em agressividade.
O novo conjunto altifalante/crossover parece ter resolvido esta situação, com o que penso ser uma solução de rotação de fase variável com a frequência. Quanto às ligações do “médio”, experimentei revertê-las e perde-se de imediato coerência e corpo (a inversão do médio é uma opção técnica correcta), o que indicia a manutenção de um filtro de 3ª ordem, embora bem mais complexo e sofisticado que os anteriores (talvez uma variação de Butterworth).
Ressalvo que não retirei a placa protectora para investigar o filtro e que tudo isto se trata apenas de smart guessing. Pela primeira vez, não senti o desejo de alterar resistências no filtro das Wilson. As Sasha soaram-me perfeitas tal como vieram ao mundo. David Wilson afirma que os seus filtros não sofrem de jitter, ou seja, não armazenam energia nos condensadores para a “soltar” depois fora de tempo.
Eu estava só com a areia e com a espuma
A primeira sensação nova é o silêncio. Pode parecer estranho pagar uma fortuna por umas colunas que tocam alto que se fartam para ouvir o som do silêncio. Mas quando der por si a distinguir um som no fundo do palco que antes era capaz de jurar que não estava lá, vai perceber que todo este marketing sobre o material “M”, “X” e “Z”, e mais não sei quê, tem alguma razão de ser.
O armazenamento de energia é praticamente nulo em relação ao MDF convencional. Talvez por isso eu não tenha ficado chocado quando passei directamente de um painel electrostático para um sistema de altifalantes dinâmicos. Em consequência, ainda que as Sasha, tal como as Watt/Puppies, continuem a ser colunas para ouvir alto e bom som, pela primeira vez soam bem a níveis moderados e mesmo baixos.
Enquanto o leitor faz um intervalo na leitura, depois desta catadupa emocional de opinião e informação, aproveito para fazer uma crítica pessoal, até porque provavelmente só me afecta a mim. As Sasha só aceitam cabos com forquilhas: nem cabos nus, nem bananas. Logo à partida fiquei impossibilitado de utilizar os Nordost Valhalla e os Siltech. Optei pelos Deltec Black Sixteen, depois de perder 1 hora a montar-lhes forquilhas: são 16 condutores por cabo, em grupos de 4, todos isolados entre si! Ufa!...
Ricardo Franassovici aconselhou-me os novos Transparent (e compreende-se; a cablagem interna, a avaliar pelas leads que saem da base para os satélites, é da Transparent) e Manuel Dias avançou os Nordost Odin como outra boa alternativa – e eu acredito depois do que ouvi em Munique. Mas como ele estava de férias, não quis maçá-lo, e comecei logo a ouvir – e a escrever. Os leitores que me perdoem a gula.
Oiçamo-las primeiro de sonómetro na mão
O último par de Watt/Puppies que tive cá em casa era cor de vinho. Só que achei o teor alcóolico elevado com presença de taninos de caixa e algo adstringente. Traduzindo para jargão audiófilo: graves enfáticos na tradicional região dos 40-80Hz, devido à interacção dos pórticos reflex entre si e com a sala; e um tweeter a que claramente faltava apoio do altifalante de médio-grave, que era obrigado a subir até uma frequência de corte de 3,3kHz. Como sempre o som era espectacular de dinâmica, detalhe e autoridade. Contudo, faltava-lhe entrosamento, densidade, corpo.
Admito que numa sala grande, com amplificação adequada, estas “maleitas” tendiam a desvanecer-se, e restava depois aquilo que elas agora fazem ainda melhor: recriar um palco virtual espantoso na forma e no conteúdo com níveis de pressão sonora inatingíveis por outras colunas do mesmo porte. Aos médios das Watt/Puppies faltava em peso específico dos sons o que sobrava em entrega ao processo musical em curso.
Por comparação, as Sasha são muito mais civilizadas. Tanto que, ao princípio, me pareceram até algo “reticentes” nos graves. Isto porque o pico de ressonância nos 40Hz já não se manifesta como antes, ou pelo menos está muito bem controlado, embora continue a ser esta a frequência de sintonia do pórtico dos satélites; idem para o excesso de “peito” nos 80-100Hz, típico da “Puppy” – it’s also gone. Uma ligeira depressão entre os 125Hz e os 200Hz mantém-se, mas agora com influência mais benigna no equilíbrio tonal.
Observei ainda uma ligeira quebra de energia aos 63Hz, talvez por efeito dos enormes tube traps que tenho colocados nos cantos atrás das colunas. Não tem nada a ver com as Sasha. Do mesmo modo, o pico de ressonância aos 31,5Hz deve-se ao facto de corresponder à frequência de sintonia do pórtico dos “subs” e à frequência de ressonância da minha sala. Nada de novo aqui.
Também não detectei o anterior ênfase centrado nos 4kHz, que conferia ao médio-agudo excessiva vivacidade, agora substituído por um plateau muito plano e estável entre 1kHz e 6kHz (melhor equilíbrio de fase entre médio e tweeter), a que se segue uma pendente suave, quase imperceptível, a partir dos 10kHz, que atribuo à falta de sensiblidade do equipamento de medida acima dos 8kHz.
Sei que este tweeter costumava “disparar” acima dos 20kHz com a ressonância de “quebra”, mas não tenho meios de prova e no trânsito em julgado foi dado como inocente. Se quiser recorrer ao Supremo ou à Stereophile, be my guest. Mas vai demorar...
De resto, a resposta das Sasha na minha sala é de uma linearidade espantosa e a escala cromática foi reproduzida com uma variação mínima. É a seguinte a sequência das frequências em Hertz correspondentes a notas musicais da escala cromática (temperada) com intervalos de oitava: 32,7 - 65,4 – 130,8 – 262,6 – 523, 25 – 1046, 5 – 2093 – 4186).
Disclaimer: esta não é a resposta em frequência das Sasha em câmara anecóica, é a “resposta” das Sasha “rezando” na capela de JVH...
Falling desperately in love
Ao optar por um novo altifalante de médios e por um crossover único, Dave Wilson tranformou o que era uma grande coluna americana numa coluna universal e uma das melhores do mundo na sua categoria – Sasha de seu nome.
Se as Sasha se dão bem na minha sala, então dão-se bem em qualquer sala. Ao atribuir o papel principal ao médio, retirando o protagonismo ao grave e ao agudo, Dave humanizou-as. Haverá sempre quem sinta que lhes falta agora qualquer coisa. Talvez aquela apelativa característica das Watt/Puppies de imagens “larger-than-life”...
Eu acho que, sem ter perdido a autoridade do grave, chamando-o à pedra apenas quando ele faz falta, e exibindo um agudo, cuja única sombra de pecado será a alegada frequência de “quebra” no perigoso limite da banda áudio, temos agora médios cheios e naturais, timbricamente neutros, com excelente resolução e reprodução de texturas e nuances que quase soam electrostásticas, além do correcto dimensionamento dos instrumentos independentemente do volume de som.
Só uma vez, com o som de um vibrafone, fui surpreendido quando o tweeter pareceu distorcer, como se tivesse chegado ao fim do percurso. Afinal, o que tinha chegado ao fim era a headroom do sistema de gravação digital utilizado no registo do disco. Algo que eu nunca tinha ouvido antes e me deixou de pé atrás.
A baixa distorção, em especial do conjunto médio/tweeter, convida a carregar no pedal: à dinâmica, resposta a transitórios e velocidade electrizante, ex-libris das Wilson – de todas as Wilson -, junta-se agora o entrosamento perfeito. A tonalidade geral é mais escura: há menos claridade nos sons mas o excipiente acústico é paradoxalmente mais transparente, o que nos permite mergulhar no fundo da mistura e também no fundo da imagem, cuja profundidade se pode medir com fita métrica.
Considero que as Sasha têm agora a quantidade exacta de “baixos” em todas as circunstâncias. Ainda tenho algumas dúvidas sobre a qualidade dos “baixos reflex”, que o tempo (e algumas experiências de posicionamento e cabos) ajudará, por certo, a desvanecer.
A Sasha é a única W/P pela qual sou homem para me apaixonar. Consegue passar do pizzicato dos violinos à explosão massiva de uma grande orquestra sinfónica sem perder a compostura: sem compressão, sem dureza, sem agressividade. Continuam a ser as únicas colunas “domésticas” com capacidade para reproduzir a energia subjectiva de um concerto ao vivo.
As vozes e os instrumentos solistas são apresentados com recorte e definição, e o corpo e peso específico respectivo no tempo e no espaço.
Sorriem os violinos, choram os violoncelos, silvam os sopros, rasgam os metais, martelam os tambores. Tudo começa e acaba no tempo devido: sem overhang, sem arrastamento, sem ressonâncias espúrias e modulação intrusiva.
Full size image
Umas das pechas das Watt/Puppies, talvez com excepção das 8, era a absurda variação da resposta on-axis e off-axis - daí a recomendação do forte toe-in. Ao utilizar um pequeno woofer da Scanspeak (o fabricante designa-o com a letra W) como “médio” a Wilson sabia que corria o risco de estreitar o foco de dispersão à medida que a frequência subia. Devido ao diâmetro da unidade, isso acontecia logo a partir dos 1,5kHz. Ora a unidade era “cortada” – e ainda é - apenas aos 3kHz, e não aos 2kHz como consta nas especificações.
Aquela característica de pin-point imaging, excessiva no meu fraco entendimento, devia-se em parte a esta questão eléctrica. As condições eléctricas de funcionamento da nova unidade são idênticas mas o seu desempenho é muito superior.
O enfoque, estabilidade e especificidade da imagem da Sasha continuam a ter a mesma extraordinária precisão de sempre, mas é agora muito mais natural e tolerante quanto ao posicionamento do ouvinte na sala. O conceito de “tiro na testa entre os olhos”, que um dia utilizei, e que tanto incomodou David Wilson e Peter McGrath, não se aplica às Sasha. Os instrumentos já não se destacam tanto do espaço que os rodeia; o espaço faz agora parte integrante da imagem e o ar vibra em função do conteúdo.
Há vida para além do orçamento
De vez em quando dou comigo a procurar-lhes defeitos para me convencer da inevitabilidade da separação. Há vida para além do orçamento? Sim, há. O que eu já começo a duvidar é se há vida audiófila para além desta experiência arrebatadora...
As Quad e as Sasha estão nos antípodas uma da outra. Estranha contradição esta de ambas me agradarem. Mas o arco-íris também tem um princípio e um fim e ainda ninguém descobriu onde ele começa e onde ele acaba...
For a synopsis in English click here
Specifications:
Woofers: Two – 8 inch (20.32 cm)
Midrange: One – 7 inch (17.78 cm)
Tweeter: One – 1 inch inverted dome (2.54 cm
Sensitivity: 91 dB @ 1 watt @ one meter @ 1kHz
Nominal Impedance: 4 ohms, 1.8 ohms minimum @ 92 Hz
Frequency Response: +/- 3 dB 20 Hz - 22 kHz
Overall Dimensions: Height – 44 inches (111.76 cm)
Width – 14 inches (35.56 cm)
Depth – 21.25 inches (53.91 cm)
System Product Weight: 197 lbs (89.36 kg)